Home Escola Escolas: regressámos a março de 2020

Escolas: regressámos a março de 2020

366
3

Não coloco em causa o encerramento das escolas, nem sequer a opção pela interrupção letiva, até porque a defendi. Considerando o cenário pandémico, o número de mortos a aumentar e o caos a chegar às urgências, encerrar foi a decisão inevitável.

Não terá sido uma decisão fácil, as pressões eram muitas, umas a favor, outras contra. O Governo decidiu, está decidido. Tivemos 15 dias de interrupção letiva e com isso o Governo ganhou 15 dias para reorganizar a entrega dos kits informáticos para assim fazer avançar o ensino remoto.

Na realidade, é para a maioria bastante claro que o Governo falhou na implementação do projeto da Escola Digital. Como percebemos todos, não bastou “mandar” para cima do projeto 400 milhões de euros aquando da sua apresentação. A modus operandi não é novo, anuncia-se o projeto, informa-se em maiúsculas o valor da operação e a magia acontece. Só que não!

Passaram-se mais de oito meses desde a promessa de António Costa onde garantia que em setembro todos os alunos teriam o seu computador para poderem, sempre que fosse necessário, transitar para o ensino remoto. Mas a realidade está muito longe da promessa. Soubemos que no final do 1.º período foram, apressadamente, entregues os primeiros kits tecnológicos, mas também sabemos que essa quantidade é manifestamente inferior às necessidades que apontam para mais de 360.000 alunos com apoios da Ação Social Escolar.

Esta é a principal causa para que não se tenha transitado para o Ensino à Distância ([email protected]). Mas não é a única. Se é verdade que as escolas na sua grande maioria tinham os planos de [email protected] delineados e prontos a serem colocados em prática, também é verdade que, juntando à carência de kits por parte dos alunos, só em janeiro terminou a fase de diagnóstico das competências digitais. Ou seja, o Governo está com um atraso neste processo de pelo menos um período escolar, cerca de três meses.

Estaremos todos nós a ser demasiado exigentes com o Executivo? A pergunta é até legítima. Mas creio que possamos responder, sem hesitação, que não. Não passou nem um, nem dois, nem três meses, passou quase um ano. Esta inação governativa parece indicar que lá para os lados da 24 de julho nunca se pensou seriamente que tivéssemos de voltar a encerrar as escolas e, por conseguinte, tudo foi tratado à boa maneira portuguesa.

Além disso, como acabou por acontecer em alguns municípios, a compra e respetiva entrega de equipamentos deveria ter sido conferida ao poder local, agilizando assim o processo, descentralizando e desburocratizando-o, mesmo que as verbas dedicadas viessem do poder central para evitar as tão badaladas desigualdades.

Esta situação traz-nos aqui, hoje, a poucos dias de recomeçar o [email protected] e quando já corre o “boato” nos corredores dos Agrupamentos Escolares de que os kits não vão chegar a tempo, mas que deveremos ainda assim regressar a 8 de fevereiro. Como? Exatamente como o fizemos em março de 2020. Agravando as desigualdades.

Fonte: Público

3 COMMENTS

  1. Partilho com os meus colegas de profissão que irei dar aulas à distância a partir da sede do meu agrupamento (AEAMARES). Decidi não consentir usar os meus equipamentos pessoais e meios de comunicação pessoais (adquiridos com verbas pessoais e sem qualquer participação estatal/ministerial). Como a minha escola não tem computadores para facultar/emprestar aos seus professores para eles exercerem a sua função em regime de teletrabalho (em casa), a solução apresentada foi lecionar a partir de uma sala da escola.
    Não me arrependo da minha decisão pois não compactuo com as mentiras ditas pelo ministro da educação, frequentemente, descaradamente e impunemente…Lamento sim o fato de, muitos colegas, diariamente, ficarem expostos a uma pandemia tão grave e que muitos mas mesmo muitos alunos não possam vir a ter acesso ao Ensino à distância em condições dignas e iguais para todos, pelo menos nos que se refere a equipamentos e meios de comunicação.
    Destaco, muito positivamente, o exemplo dado pelo nosso colega Luís Braga, o primeiro testemunho público de não consentimento. O Estado não pode dispor assim dos nossos bens ou assumir que o pode fazer, nem sequer pode dizer que o Ensino à Distância vai arrancar pois estão todas as condições asseguradas quando não facultou a nenhum professor todas as condições necessárias, previstas na Lei, para assegurar o teletrabalho.
    É minha convicção que devíamos todos, pelo pais fora, solicitar todos os meios para assegurar o ensino à distância…o impacto seria imenso e o ministério da educação/governo teriam que assumir perante todos que não se prepararam como prometeram, resolver a situação e …pedir desculpa…
    Laura Coito

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here