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Escola Sem Chumbo – João Barros

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Há bastante tempo que Portugal não é propriamente um país sério. Seja nas fantásticas histórias de pequena corrupção que vêm a público ou nas claras ineficiências visíveis a todo o momento, uma das características mais saudáveis e saudosas do povo lusitano não será, com toda a certeza, a seriedade. E, talvez como motivo ou consequência, as leis produzidas por quem nos representa também não.

Assim sendo, e para habituar as crianças, desde bem pequeninas, a esta cultura pouco séria, não me parece desadequado acabar com os chumbos no básico. Ou acabar sem o fazer – sim, porque nem nisto o Governo consegue ser explícito e, seriamente, discutir o problema. O Executivo (e, especificamente, Tiago Brandão Rodrigues) afirma que não se trata de passagens administrativas, mas antes de “fazer o mais difícil, que é agarrar em cada um dos nossos alunos (…) para os ajudar no seu trabalho”. Na teoria soa lindamente. Tão lindamente que, era capaz de jurar, já alguém se tinha lembrado de tal ideia.

Não sei se o Sr. ministro da Educação sabe, mas, para cada aluno com uma nota negativa, há já previstos planos de recuperação de aprendizagem, em que são identificados os conteúdos a recuperar, bem como equipas multidisciplinares “destinada(s) a acompanhar em permanência os alunos, designadamente aqueles que revelem maiores dificuldades de aprendizagem (…)” e horários de apoio para cada docente em que os alunos poderão ter acompanhamento quase individual com o professor de determinada disciplina. Resumidamente, estas ideias não são novas e, surpreendentemente, não se revelaram muito eficazes.

Na verdade, a questão dos chumbos é complexa e preocupante e, num país sério, seria abordada com medidas mais concretas, que alocassem mais recursos a uma área social em claro défice, em que escolas fecham rotativamente por falta de pessoal, os professores vivem numa incerteza profissional sobre onde irão ser colocados, quantas horas terão de horário semanal e numa luta por um tratamento igual ao dos restantes funcionários públicos. Isto numa classe envelhecida, desmotivada, cansada e à qual só se juntam, maioritariamente, os alunos com notas mais baixas dos seus cursos – não surpreende, dada a conjuntura que acabei de descrever.

Se é verdade que o chumbo por si só de pouco servirá, também é verdade que quem não sabe não deve poder, na minha opinião, progredir. A questão-chave é atacar, por um lado, o desinteresse dos alunos, enquanto, por outro, se investe num maior acompanhamento de facto que permita uma aquisição real de conhecimentos, raciocínio crítico e capacidade de trabalho, os três factores-chave para um desenvolvimento saudável e completo de um adulto preparado para o ensino superior e/ou o mercado de trabalho.

Isso inclui, por exemplo, turmas mais pequenas, programas curriculares mais abrangentes e com um leque mais variado de escolhas, ou o reconhecimento de que diferentes alunos funcionam a ritmos diferentes a cada disciplina e, por questões de optimização e eficiência, devem ser agrupados com quem exibe ritmos semelhantes. Mas isso é capaz de já ser pedir demais numa terra em que nem as infra-estruturas foram renovadas capaz e seriamente.

Este tipo de legislação baseada em linguagem muito vaga e abstracta dificilmente terá qualquer tipo de resultado prático que não a passagem administrativa se não houver um investimento real em recursos humanos na educação, seja ao nível dos auxiliares educativos, seja na tentativa de capturar aqueles que foram bons alunos para transmitir o seu conhecimento às gerações seguintes.

Porque a suposta poupança de 250 milhões ao acabar com os chumbos será, por si só, reflectida numa perda ainda maior de rendimentos futuros quando a nossa força laboral for ainda menos qualificada do que aquilo que já é hoje em dia. E, se a preocupação é poupar, acabem de vez com o ensino – mais barato que isso não há.

João Barros, in Jornal Económico, 19-11-2019

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