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Escola Pública. Um redondo vocábulo e uma soma agreste?

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Início do ano lectivo. No Agrupamento há reunião geral de professores. Ouvimos o discurso da senhora Directora. Mais do mesmo. Em tempo de pandemia. Muito mais do mesmo.

O Ministério não permitiu tomar outras medidas como o desdobramento de turmas. O Ministério limitou o crédito horário disponível. O Ministério, essa força poderosa que esmaga as pretensões da Escola. Às vezes conseguem-se algumas vitórias. Raras. A muito custo… Quando não é o Ministério são outras forças. Na maior parte das situações a Escola está condicionada, quase impotente. No limite, carece de poder de decisão. Dá bom exemplo a senhora Directora quando diz não saber o que fazer se um aluno quiser entrar na Escola sem máscara, não o pode impedir de entrar porque a Constituição da República garante o acesso à Educação! Ela sabe muito de leis.

Enfim, face a este forte condicionamento, como podem ser assacadas responsabilidades à Escola? Faz-se o possível com os parcos recursos disponíveis. Materiais e humanos. Diz a senhora Directora, estão duas auxiliares de baixa médica a que se deve juntar, em breve, mais um. Não percebo o tom empregue, se lamento ou censura, mas não era necessário ir tão longe no discurso de desresponsabilização.

Uma e outra vez, a senhora Directora vai dissipando as dúvidas. As escolas não vão fechar, o ministro não quer. Que se pode fazer? Tomar medidas, proteger-nos, ficar em segurança. E esperar que tudo corra pelo melhor. Se Deus quiser! Por três vezes o pede.

Um redondo vocábulo. O discurso bem embrulhado, num tom cordato e com constantes apelos aos “colegas”, passa bem. Passa muito bem. E entrega o engano na perfeição! Omitindo. O gabinete ministerial não é omnipresente e omnipotente em cada escola, em cada agrupamento. Entre o Ministério e a Escola está…o(a) Director(a). A omissão deste intermediário – feita mediante uma enganosa associação aos professores chamando-lhes “colegas” – permite a encenação. O Director ao dissimular o seu espaço de intervenção consegue apresentar as decisões tomadas como sendo externas, impostas, inevitáveis, sem alternativa, normais.

Para lá de passar bem, este discurso é eficaz. Gera impotência, resignação e, principalmente, passividade! Quando na reunião uma professora lembra o espaço diminuto da sua sala de aula e recorda como a disposição das máquinas que utiliza impossibilita o afastamento dos alunos… A senhora Directora concorda e adianta que serão feitas as alterações possíveis de modo a melhorar as condições do espaço, aguarda-se a vinda do técnico da empresa de manutenção, está para breve. A professora fica-se pela constatação, não destaca consequências sanitárias. O risco está interiorizado. Nem mais. De qualquer modo, foi a única voz a lembrar a exiguidade do espaço. Isolada. Quase uma tonteria. Eu bem ouvi o silêncio.

Pouca importa que estejamos reunidos na maior sala da escola, por isso destinada à maior das turmas. Onde as carteiras só cabem encostadas umas às outras, literalmente, alinhadas em quatro filas paralelas, permitindo apenas uma via de circulação única, junto à parede da esquerda. Podemos imaginar o distanciamento de segurança. Podemos.

Resignados, olhamos para baixo, vemos o chão gasto. E seguimos adiante. Fugimos da incerteza. Talvez esta circunstância não seja estranha à tutela. Sabemos como a pandemia deu azo a uma desregulação laboral de contornos ainda por apurar. Em Junho, os professores estavam em casa, a despender dos seus recursos materiais e económicos para trabalhar em horário difuso. Talvez esta lembrança explique a minha perplexidade quando ouvi a senhora Directora elogiar um dos presentes por ter concluído um projecto da escola durante o seu tempo de férias. Contínuo incrédulo com as saudações efusivas. Haverá quem goste deste tempo de trabalho difuso. Eu adoro relógios de parede.

Não sei ler as cartas. Nem deitar outras sortes. Mas temo que este contexto de pandemia seja aproveitado pela tutela para realizar alterações e mudanças questionáveis ou até problemáticas. Perante a incerteza são apresentados factos consumados. Veja-se a introdução do programa de Mentoria na Escola Pública. Não foi antecedido de qualquer debate. Nem houve tempo para suscitar dúvidas. Vai ser implementado. Ponto.

E há tanto para questionar! Que critérios presidem à escolha dos alunos mentores? A institucionalização desta prática promove a igualdade de oportunidades entre os alunos ou afirma a sua hierarquização? No limite, não corre o risco de certificar diferenças socioculturais? E já agora, terá implicações na contratação de professores? Adiante. Está feito. Estará?

Uma questão é sempre um bom princípio. Desde logo, para evitar uma soma agreste. Talvez os professores devam começar a colocar questões. Sobretudo, se lhes disserem que perguntar é falta de gosto, mau feito, desadequado, inoportuno, desnecessário, impertinente, arrogante e, até, soberba. Ao contrário. Cada vez mais, é preciso questionar para onde vai a Escola Pública.

Luís Pereira

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