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Escola a tempo inteiro: uma resposta ajustada a uma conceção errada. (ver horário Finlandês)

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cama_escolaQue sociedade temos? Sim, que sociedade temos? Uma sociedade que visa a família, os seus valores, a educação? Ou uma sociedade que visa o negócio, o lucro e o consumismo?

A notícia que faz capa no DN Governo quer alunos até ao 9.º ano o dia inteiro na escola e que vai ao encontro ao que está escrito nas Grandes Opções do Plano para 2016-2019, agitou a blogosfera (ver aqui, ali e acolá). A tomada de posição da tutela, está apenas a ir ao encontro do que se quer enquanto sociedade, uma sociedade em que pai e mãe trabalham e não têm tempo para desempenhar a sua função primordial que é ser pais.

E que argumentos justificam a escola a tempo inteiro?

É facultativo, verdade, e algumas das reações que li esqueceram-se desse “pormaior”. Nenhuma criança será obrigada a permanecer na escola das 8:30 até às 19:30. A minha filha não ficará, mas o meu horário permite-o, haverá outros que provavelmente não terão essa hipótese e eles também são cidadãos como eu ou tu, e é preciso pensar neles também.

Esta é uma questão muito importante, se as crianças não ficam na escola onde ficam e com quem ficam? Sozinhas? Estarão elas preparadas para isso, ou melhor, estará a sociedade preparada para isso?

E o que ficam a fazer? Jogar computador, estar ao “telelé”, andar na rua sabe-se lá com quem e a fazer sei lá o quê, meter em casa sabe-se lá quem e a fazer sabe-se lá o quê… E o que dizer das crianças que depois das aulas vão para os ATLs e frequentam um sem número de atividades desportivas e afins. Não estará a escola a dar direito às outras crianças que não têm possibilidade de usufruir dos benefícios da música, do desporto e do teatro? Reparem que estou a ter como premissa que esta ideia será a custo 0, é que estamos a falar da escola pública, certo?

Neste momento, o vosso pensamento julga que sou favorável a esta medida. Errado! Há já algum tempo que me pronunciei sobre esta temática num artigo intitulado “Panelas de Pressão“.

O título do artigo que agora leem não foi por acaso, a resposta é ajustada à sociedade que temos, mas não é esta a sociedade que queremos, pelo menos eu e por aquilo que li hoje, muitos também não querem.

Os alunos passam demasiado tempo na escola e quando digo escola incluo atividades extracurriculares. Eles precisam de tempo para si e de tempo para estarem com os pais. O problema é que não nos deixam ter tempo para os miúdos e também é verdade que muitos pais não querem ter tempo para eles. Para esses, a escola é vista como um depósito natural ao bom estilo “take away”, aliás, só falta mesmo dar o banhinho, o jantarzinho e entregar em casa já na caminha… E o que é mesmo inconcebível é que quem nos governa tem vistas curtas, além de não ter a coragem de mudar este paradigma e seguir os bons exemplos de lá por fora. Aliás, a progenitora da ideia, Maria de Lurdes Rodrigues, já veio a terreiro defender o seu “bebé” A ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues implementou a escola a tempo inteiro no 1.º ciclo, em 2006 e hoje todos nos queixamos que as crianças no 1º ciclo passam horas e horas numa casa que passou a ser a 1ª em vez de ser a 2ª.

É preciso diminuir a carga letiva dos alunos, e não, não é preciso despedir professores pois as escolas estão carentes de turmas mais pequenas e de apoios efetivos em vez de explicadores/ “mestras” de qualidade duvidosa. E depois é preciso dar tempo aos pais para estarem com os miúdos, para que a escola passe a ser um local de aprendizagem e não um local em que 30-40 % do tempo de aula é gasto a ensinar boas maneiras.

Componente científico-humanística de manhã, expressões à tarde. E ao fim do dia… família. É assim tão difícil?

Tendo em conta a importância do tema, pedi à Drª Inês Marques, Psicóloga da Oficina de Psicologia que fizesse um breve comentário sobre o assunto.

Mais horas na escola? Com que objectivo e a fazer o quê?

Sabemos que o ideal seria que as crianças pudessem passar mais tempo de qualidade em Família… Mas também sabemos que mais importante do que o número de horas é a qualidade das horas.

É desabafo frequente no consultório os pais soltarem um “saio tarde do trabalho e quando chegamos a casa é sempre tudo a correr, entre banho, TPC, jantar e cama. Parece que o tempo que estamos juntos durante a semana é passado entre correrias”. Tudo isto acompanhado, diversas vezes, por uma boa dose de sentimento de culpa. Pois bem, longe dos cenários ideias, como se adaptam e quais as consequencias para as crianças? Tudo depende de vários factores: das características de temperamento da criança, das actividades que a criança realiza e da forma como os pais encaram e lidam com a realidade. Idealmente, as “muitas horas” na escola deveriam ser passadas entre brincadeiras livres e actividades que desenvolvam as competênciais sociais e emocionais, a par das cognitivas e motoras. Actividades que promovam a curiosidade e o espírito crítico, assim como a vontade de saber mais. Se por outro lado, mais horas na escola resultarem em mais tarefas formatadas, repletas de obrigações e limitações, isso poderá levar a que as crianças se sintam pouco livres no seu desafio do crescer e ser criança, associando o contexto escolar ao “trabalho e ao castigo”. Paralelamente, a forma como o adulto gere o tempo em família e a mensagem que passa sobre o seu trabalho e sobre as horas em que a criança está na escola, ajudarão ao grau de satisfação no decorrer dos seus dias e à resiliência demonstrada pela criança. E, as rotinas do final do dia, mesmo com o “peso” de serem rotinas, podem ser divertidas elevadas a cabo com o prazer da companhia uns dos outros, sendo também óptimas oportunidades da criança desenvolver a sua linguagem, a autonomia ou a tolerância à frustração.

Inês Marques

Por fim, fiquem com um mapa que retirei do “Quintal” do Paulo Guinote e três horários, dois finlandeses e um português. É só comparar…

instruction-hours-europe

Finlândia

Horário Finlandês1

horário finlandês 2

Portugal

horário 1º ciclo

 

P.S – E no dia que o Sr. Ministro sentiu na pele uma oposição generalizada, a sua resposta podia ter sido um pouco mais feliz. Dizer que o horário efetivo da escola é até às 15:30… é um pormenor, mas não lhe fica nada bem…

 

 

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