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Errar é humano

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erro2Até há pouco tempo aprender implicava errar.

O erro é coisa séria na escola e na formação de todos nós. Sem o erro dificilmente se aprende. É fundamental no processo de aprendizagem, na interiorização da regras e dos procedimentos do coletivo, na experiência de cada um de nós.

Errar implica que se tentou, que se experimentou, que se arriscou, que houve uma tentativa. Errar implica uma prática individual, pois é raro aprender com os erros dos outros. Mas implica também saber e conhecer as regras e as condições, são elas que definem o erro. 

Por outro lado, errar implica uma pena, um castigo. Errar implica assumir as consequências de uma tentativa que pode não correr quanto o esperado.

Dos mais crescidos, direi aqueles que estão acima dos 40, quem não aprendeu com o erro, que sentiu as suas consequências, que diga.

Contudo, fruto de muitas e diversificadas razões (teorias pedagógicas, modas sociais, orientações políticas), o erro foi praticamente proscrito da escola. Ficticiamente, pois ele lá permanece. É pelo erro que a maior parte dos professores aponta culpados (desde as negativas que se tiveram em teste, até às asneiras de políticas educativas ou de opções de escola. Contudo, o erro foi reduzido a uma insignificância que poucos dão por ele.

Quando se erra raramente há um culpado ou, em alternativa, é o outro, preferencialmente o sistema, a sociedade, o contexto social ou familiar ou, nos últimos anos, a crise, numa assumida desresponsabilização por aquilo que se tentou ou experimentou.

Não pretendo destacar e menos ainda (sobre)valorizar o erro. Quero, no entanto, assumir que errar é importante, por que pressupõe uma tentativa, uma experimentação. Quero destacar, nestas crónicas semanais, que errar é uma forma de aprender, que deve estar presente aquando de uma relação de ensino aprendizagem, de ensinar e aprender, de tentar e … errar.

Não serei certamente o único docente a ver nos alunos o receio por errar, de evitar experimentar para não serem apontados com fracasso. Não serei garantidamente o único a penalizar o erro, a apontar a falha. Mas importa essencialmente destacar que se experimentou, que se tentou.

À crítica ao erro encontra-se associada a crítica da avaliação. De tão fácil que é avaliar para os docentes, torna-se algo complexo. De tão objetivo que se pretende ser, facilmente se descai para a arbitrariedade. De tão rigoroso que se pretende ser, encurta-se a margem da descricionaridade. Contudo, não valerá a pena tentar se não soubermos avaliar essa tentativa, estarmos disponíveis para ouvir comentários sobre o que foi, como se fez, o que falhou, por que falhou. E não será para apontar culpas ou responsabilidades ao outro. Importa avaliar para perceber quais os meus erros, onde falhei e por que falhei, sem querer remeter aos outros aquela que deva ser a minha avaliação, da minha tentativa.

Só não erra quem não tenta, quem não experimenta, quem não faz. Esses ficam livres de crítica e de avaliação. Passam serenamente no meio das gotas da chuva e estão prontos a apontar o dedo a quem ousou, a quem experimentou, a quem fez.

Não será de valorizar o erro enquanto tal, mas também não será de o usar como elemento inibidor da ousadia e da autonomia individual e pessoal. Será, preferencialmente, de saber associar à avaliação, ao aprender com o erro e ir em frente, voltar a tentar, voltar a avaliar e repetir tudo de novo.

Afinal, errar é humano.

Manuel Dinis P: Cabeça,

novembro, 2015.

imagem retirada daqui.

 

4 COMMENTS

  1. Tão bom ler um texto que nos retira a vergonha de errar… Tão bom ler um texto que nos remete a humildade como caminho de evolução… Tão bom ler um texto com tanta qualidade publicado na “nossa” casa. Parabéns e obrigado Manuel 😉

    • não tenho respondido aos comentários porque os considero essenciais para a escrita, para esta existência e para a internet .2;

      contudo e por que há coisas e e coisas não resisto em comentar o comentário do alexandre,

      errar é o humano e só não erra quem não faz, quem não tenta, por mim bem que tento, bem que me atrevo, bem que experimento;

      só espero aprender com os meus erros, com aquilo que os outros me dizem, que me façam ser humilde e honesto (profissional e intelectualmente), nas práticas e, essencialmente, ter ouvido para o outro;

      obrigado alexandre e não é pelas palavras de agora, mas pelas oportunidades, essenciais para se poder errar

  2. Há investigações que mostram que os primeiros a atingirem um objectivo são aqueles que erram mais e mais rapidamente. Era por isso importante compreendermos que errar faz parte do caminho e que temos de errar muito até atingirmos um objectivo. Errar muito e errar bem: ou seja, errar tentando compreender porque erramos e o que temos de fazer diferente da próxima vez. Existe mesmo um método descrito e associado à inovação e à criatividade e que se chama “O Falhanço rápido e inteligente”.

    E claro que a avaliação não pode estar desligada deste processo. Aliás, eu diria que a avaliação só faz sentido e só contribui para a formação se permitir aos alunos compreenderem porque erraram. Assim o ênfase não deveria estar de todo na nota que se tirou mas mais na que não se tirou e no porque disso. Ou seja, o que é que o aluno AINDA não sabe e terá de aprender. Só assim faz sentido para mim.

    Obrigado por trazerem este tema para aqui!

    Xana

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