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Era Uma Vez Uma Escola Pequenina – Rute Agulhas

Nesta escola não existem tecnologias de ponta, pavilhões desportivos bem equipados nem outras coisas tão valorizadas. Não. Existe a terra para brincar e as ovelhas para ver, ouvir e sentir.

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Era uma vez uma escola pequenina, com apenas quatro salas de aulas, duas no rés-do-chão e duas no primeiro andar. Esta escola pequenina tem uma sala onde as crianças almoçam e o espaço exterior tem duas balizas e um cesto de basketball. Tem ainda algumas árvores, terra e, à volta, pastam rebanhos de ovelhas, pretas e brancas, vagarosas e redondas, que balem a bom som.

Dentro das salas faz muito frio durante o Inverno, apenas mitigado pelo calor que sai da lenha que arde e crepita numa pequena salamandra. Um calor que acolhe e faz lembrar a nossa casa. No Verão… bem, no Verão aguenta-se o calor escaldante que se faz sentir e, se preciso for, as crianças abanam-se com um caderno, fingindo que é um leque. E riem muito enquanto o fazem.

Nesta escola não existem tecnologias de ponta, pavilhões desportivos bem equipados nem outras coisas tão valorizadas. Não. Existe a terra para brincar e as ovelhas para ver, ouvir e sentir.

As mesas e as cadeiras pequenas são de madeira antiga e na parede existe um quadro de giz. Daquele giz que nos suja os dedos e nos faz espirrar. Aquele que se apaga com um apagador dos antigos, pesados e que espalham o pó enquanto apagam.

Nesta escola não existem tecnologias de ponta, pavilhões desportivos bem equipados nem outras coisas tão valorizadas. Não. Existe a terra para brincar e as ovelhas para ver, ouvir e sentir. E, de vez em quando, um gato atrevido que entra pelas grades do portão e corre atrás de toda a gente. Existe o aquecimento humano que une as crianças. E existem as pessoas. As senhoras amigas que lá trabalham e que conhecem cada criança, cada história, cada família. E os professores, de uma paciência infinita, que acompanham cada criança como se fosse sua.

Esta escola, tão pequenina e acolhedora, com tão poucas crianças, faz-nos pensar sobre aquilo que é realmente importante na vida escolar dos nossos filhos. Os equipamentos ou as pessoas? Os materiais ou os afectos?

A escola é, ou deveria ser, acima de tudo uma escola de afectos. Onde se aprende a ler e a escrever, a calcular e a conhecer o mundo, é certo. Mas, mais importante, onde se aprende a ser. A partilhar. A esperar e a tolerar a frustração. A explorar e a descobrir. A respeitar, a si mesmo e ao outro. A cooperar e a resolver problemas de forma assertiva.

Digam lá se observar as formigas nos formigueiros, apressadas e carregadas de comida, não é uma boa forma de aprender estudo do meio?

Digam lá se contar as ovelhas de cada cor que nasceram naquele ano não é uma boa forma de aprender matemática?

Digam lá se ir a pé para a escola, porque a serpente Papa Léguas assim o pede, não é uma boa forma de fazer exercício físico?

Digam lá se escrever sobre a história daquela escola e de cada uma das pessoas que lá vivem não é uma boa forma de aprender português?

Esta é a realidade de muitas escolas que existem em tantos lugares do nosso país. Escolas onde há tempo para as metas curriculares serem cumpridas, de mãos dadas com brincadeiras e jogos, passeios e convívios com os familiares. Escolas onde pais e avós são convidados a entrar e a participar de forma activa no processo de aprendizagem das suas crianças.

Habitualmente, estas escolas pequeninas são faladas apenas quando são habitadas por poucas crianças e, por isso mesmo, fecham. Perdoem-me por não pensar de uma forma meramente economicista, mas, a bem de todos, as escolas pequeninas não deveriam fechar. Jamais.

Rute Agulhas

Fonte: LIFE.DN.PT

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