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“Enxerguem-se: há aprendizagens que devem ser feitas na família ou na sociedade e não na escola.”

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Todos ao pedal

1. Escassas semanas após a criação da nossa agência espacial, li na imprensa que haverá um “quadro de referência nacional para ensinar a pedalar”. Li igualmente que aprender a pedalar será matéria do currículo escolar e fiquei ciente de que “no 1.º ciclo, as aulas serão em contexto protegido”, enquanto “nos 2.º, 3.º ciclos e secundário haverá uma passagem para o espaço público”. A coisa foi anunciada aos indígenas por José Mendes, secretário de Estado adjunto e da Mobilidade.

No atrasado Alentejo onde fui parido, pedalar era uma aprendizagem natural, assim houvesse um selim onde assentar o rabo. E porque sempre foi assim, de norte a sul, e assim deve continuar a ser, importa contraditar os avançados mentais da parolice curricular.

É importante que os problemas que afectam a vida da sociedade estejam presentes na educação dos jovens. Mas tudo não pode ser ensinado na escola, não podendo qualquer coisa dar origem a disciplinas ou conteúdos curriculares. Durante o ensino obrigatório nunca se poderá ensinar tudo o que é importante para a vida e boa parte do conhecimento que levaremos para a cova será adquirido fora da escola.

As crianças e os jovens têm limites e a escola funções básicas, que não dão espaço a todas as iniciativas supervenientes a cada volta que a vida dá. Podemos e devemos ajustar o curriculum à evolução do conhecimento e à evolução do sistema social. Mas não o podemos fazer a meio de ciclos de aplicação, nem o devemos fazer sem visão de conjunto nem serenidade, muito menos constantemente e ao sabor dos lirismos do quotidiano.

A organização curricular do nosso sistema de ensino não pode confundir um quadro de formação global (cujas vertentes fundadoras serão pacificamente aceites pelo senso pedagógico comum como determinantes para as restantes aprendizagens) com uma chuva de competências instrumentais, propostas por alucinados, que querem equiparar o que não é equiparável, em sede de currículo. Enxerguem-se: há aprendizagens que devem ser feitas na família ou na sociedade e não na escola, instituição reservada ao ensino de matérias que estão para lá da simples natureza lúdica ou imediatamente utilitária; nunca a escola pode ou deve substituir a família e a restante sociedade, senão numa concepção de Estado totalitário (em que suavemente temos vindo a cair, com o conceito de “Escola a Tempo Inteiro”, do PS).

2. Os alunos que terminem o ensino secundário via cursos profissionais vão poder aceder ao ensino superior sem sujeição a exames nacionais, necessários como provas de ingresso. Considerando que 80% dos que terminam o 12.º ano via científico-humanística continuam os estudos no ensino superior, mas apenas 15% dos originários dos cursos profissionais lá chegam, o intuito primeiro torna-se óbvio: salvar do estertor da morte instituições do ensino superior que não têm alunos. Só que há óbvias consequências e perguntas segundas:

Para que criaram, há bem pouco, formações curtas, de dois anos, apenas ministradas nos politécnicos, destinadas aos alunos da via profissional? Se os alunos do ensino profissional podem chegar à universidade sem exames, o que pensam que pensarão os outros alunos do secundário? Não foi o PS (depois seguido pelo PSD) que estabeleceu o desígnio nacional de ter 50% dos alunos do secundário em cursos profissionais, para responder às necessidades da economia? E agora volta a ser de doutores que precisamos?

Seja como for, reconheço cândida coerência ao secretário de Estado João Costa, que afirmou há dias querer “indisciplinar o currículo”. Êxito dele, má sorte do país!

Santana Castilho, in Público 3-4-2019

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7 COMENTÁRIOS

  1. Fantástico, fenomenal, soberbo, portentoso!!!
    Melhor, seria difícil.
    Concordo e subscrevo na íntegra!!!

    A falta de vergonha e a teia de interesses não têm limites! Numa sociedade que se esperaria mais crítica e acutilante não deixa de surpreender a pouca importância que têm os assuntos da educação… Só se lembram da educação quando é para criticar as greves dos professores sem nunca tentaram perceber ( ou não interessa pois o o jectivo maior é a manipulação da opinião pública) que as suas razões se ligam a uma educação rigorosa, exigente, de qualidade … única forma de alguma vez este país poder estar entre os mais desenvolvidos…
    Entretanto e de mansinho veja-se como nós restantes sectores tudo se vai resolvendo … Nas finanças, e ainda bem, até vão haver prémios por fazerem o seu trabalho…

  2. E porque não dar tempo às famílias para poderem estar com os filhos?
    Experimentem levantar às 5 da manhã, fazer 1 ou 2 horas de massacrantes viagens entre casa e trabalho e trabalho casa; chegar a casa às 19 ou 20h., após 8 loooonnnngaaasas horas nas mais diferentes tarefas, com a supervisão aturada de patrões, cuidar das refeições, roupas e tudo o mais e digam-me depois, se não é necessário “pedalar” na escola….?!?!?! E as crianças que são deixadas à porta da escola, no meio de uma confusão de automóveis…que passam 8 horas e 30 minutos dentro de salas, com muito desse tempo agarrradas a mesas e cadeiras? Em casas pequenas, apartamentos que nem varandas têm, onde arrumam as bicicletas?
    A função pública trabalha 35 horas; no privado QUARENTA!!!
    Trabalhem para que as famílias tenham condições para que possam estar com os filhos, conforme as famílias desejam, merecem….
    Trabalhem para que as famílias possam juntar-se às escolas em espaços comuns e todos “pedalem” no sentido construtivo.
    Educação é Educação!
    Famílias e escolas são a mesma sociedade. Trabalhem juntos, por favor!

  3. Natação já há nas escolas!
    O que querem mais??? Já agora tenham os filhos e depositam -nos nas escolas… que dormam lá também, e, já agora vão lá buscá-los quando já forem adultos…e então vão à vidinha deles…. pois é!
    Aprender a andar de bicicleta com os pais é benéfico é saudável, cair, levantar-se, saber que está lá o pai ou a mãe, para limpar as lágrimas… eu aprendi assim e sou feliz!!!

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