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Entrevista ao Presidente do CNAPEF Avelino Azevedo (2ª parte) |”Deveriam ser as universidades a fazer a seleção final dos seus alunos”

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logo_cnapefConcorda com o atual modelo de acesso ao ensino superior? Que opinião tem sobre um modelo de média seletiva, onde apenas algumas disciplinas contariam para a média de acesso, dependendo das características do curso superior?

Não concordo e tenho a mesma opinião manifestada publicamente pelo Ministério da Educação e pela CONFAP: deveriam ser as universidades a fazer a seleção final dos seus alunos, até para não passar a ideia que Ensino Secundário é um ensino pré-universitário e não um ciclo de escolaridade com valor em si mesmo. Pessoalmente considero que o atual sistema é injusto, colocando com o mesmo peso disciplinas que são dadas durante 3 anos e as que são dadas só num ano.

Quanto ao modelo de média seletiva, é uma proposta que pode ser discutida, à qual até estou sensível. Tal como estou entendo a proposta de pais e alunos que me contataram durante esta semana, solicitando a possibilidade de um regime transitório, no qual a disciplina de Educação Física pudesse contar, de forma opcional, para a médias dos atuais alunos do 11.º e 12.º anos de escolaridade, justificado pelo facto de eles nunca terem desvalorizado a disciplina pelo facto de ela não contar para a média. Julgo que no momento próprio todos terão oportunidade, através das suas organizações, de manifestar as suas propostas ao Ministério da Educação, com quem temos tido uma prática de diálogo muito interessante.

Quer concretizar essa prática de diálogo?

Nos últimos quatro anos fomos recebidos duas vezes no Ministério da Educação e nunca nos conseguiram explicar a nós, nem a nenhuma entidade oficial que temos contatado, o motivo de terem tirado a paridade à disciplina. Nestes últimos meses, para além de termos reunido regularmente com diversos membros da equipa ministerial, sentimos que algumas propostas apresentadas tem uma abertura que queremos concretizar, tendo entendido algumas justificações plausíveis para a sua não implementação, ou seja, apesar de alguns casos não estarmos naturalmente de acordo, há diálogo com resultados!

 A disciplina de Educação Física deve ter exame nacional no 12.º ano?

Não me parece assim tão importante que tenha ou não tenha, tal como acontece com outras disciplinas do currículo do Ensino Secundário que também não tem exame nacional. Não significa isso que rejeite outros tipos de avaliação, nomeadamente externa, processos esses que nos possam não só dar indicações válidas, como monitorizar a Educação Física ao longo dos vários ciclos de escolaridade. Repare, o objetivo final da Educação Física, uma disciplina eminentemente prática, não é a simples reprodução de conhecimentos, valorizando-se antes a dimensão experiencial.

Concorda quando se diz que existe um preconceito para com a disciplina de Educação Física e seus profissionais? Dentro e/ou fora da escola?

Para quem está na escola há cerca de 30 anos e passou um por um número diferenciado de situações, existem realidades muito diferentes em termos da valorização da nossa disciplina, como acontece, com algum exagero em outras.

Nas escolas a disciplina de Educação Física tem um papel fundamental na implementação das respetivas atividades, uma vez que é conhecida a interdisciplinaridade que proporciona em termos da aplicação dos programas nacionais. Este aspeto é ainda reforçado pela importância que se reveste a disciplina na promoção do sucesso dos alunos e da escola dentro e fora da mesma, na resolução de situações de conflito e de inclusão, bem como as potencialidades que tem revelado para combater o maior problema do sistema educativo: o abandono escolar.

Infelizmente os professores têm a consciência que a cultura vigente, pelos muitos processos burocráticos que tem constantemente de responder, é de desvalorização das questões da corporalidade, porque só contam os números. É muito importante lembrarmos que tudo aquilo que nós efetivamente somos passa pelas vivências do nosso corpo, entendendo-o como um todo.

Concorda com a distribuição da carga letiva da disciplina de Educação Física, ao longo dos diferentes ciclos de ensino?

Recomendações e pareceres, como da Organização Mundial de Saúde, da União Europeia, do Parlamento Europeu e do Português, determinam como determinante uma média da atividade física diária de, no mínimo, de 45 minutos para todos os alunos em idade escolar. Consequentemente considero que em todos os ciclos de ensino a carga letiva é diminuta, mas no Ensino Básico o caso é mais gritante, face ao processo de crescimento, desenvolvimento e transformações corporais destes escalões etários, sendo neste espaço curricular onde a carga letiva é menor, já que no Ensino Secundário esta aumenta ligeiramente.  Para além disso, e por questões meramente organizacionais, o que está previsto como tempo útil de aula não é cumprido na maioria das escolas. Mas ainda mais grave que isso é ter escolas com 135 minutos semanais de Educação Física, todos dados no mesmo dia!

Que expetativas tem quanto às recentes intenções da tutela, em definir competências essenciais e uma intervenção ao nível do 1º ciclo?

O processo de gestão flexível do currículo do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, que está a ser discutido neste momento com as associações profissionais, tem um cronograma comum de procedimentos, mas, no caso da Educação Física, vai trabalhar em colaboração estreita com a Sociedade Portuguesa de Educação Física, procurando obter contributos de diferentes parceiros – instituições do Ensino Superior e do maior número possível de Professores de Educação Física -, como iremos brevemente comunicar, por consideramos que serão uma mais valia. Conforme já preveem os atuais programas de Educação Física, apontamos a necessidade de desenvolver modelos curriculares e de instrução robustos e validados, tanto no plano teórico, como no terreno da prática, para encetar um processo de revivificação do ensino da educação física.

Quanto ao 1.º ciclo, e apesar de acreditarmos na coadjuvação no sentido de melhorarmos uma disciplina de Educação Físico Motora que não é devidamente aplicada nas escolas num momento tão importante e decisivo do desenvolvimento do aluno, estamos a trabalhar para alterar esta situação e as provas de aferição do 2.º ano irão dar-nos o primeiro feedback real da atual situação que se vive nas escolas.

Eu acredito que as reformas educativas e curriculares só ganham verdadeiro significado pedagógico e social quando contribuem para melhorar a formação daqueles que frequentam o sistema educativo, beneficiando a sociedade no seu conjunto, em função de um perfil final do aluno.

Obrigado pela sua disponibilidade

Podem ler a 1ª parte da entrevista aqui

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