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Entrevista ao Diretor do Agrupamento de Escolas de Mangualde – “vejo os professores demasiado cansados até para lutar pelos seus direitos”

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Este ano vou tentar cumprir com a publicação mensal de uma entrevista aos diretores das nossas escolas “ComRegras”. Este mês, cabe ao professor Agnelo Figueiredo, diretor do Agrupamento de Escolas de Mangualde, dar a sua visão sobre a atualidade.

A entrevista é de autoria de Gabriel Vilas Boas.

agnelo figueiredoQuais as motivações que estiveram na base da sua candidatura ao cargo de diretor do seu Agrupamento? Quais foram os seus maiores desafios?

Para responder à questão da motivação, teria de recuar a 1988, ano em que, pela primeira vez, me candidatei em lista ao Conselho Diretivo da Escola Secundária. Era uma altura muito especial porque a escola iria ocupar instalações novas a estrear. Era um desafio muito forte. Era quase como montar uma escola de raiz. E, essa terá sido a principal motivação.

Depois, com uma curta interrupção, foram 20 anos que passaram muito rapidamente até 2008 e ao DL 75/2008, na sequência do qual apresentei candidatura a director. Passados 2 anos, em 2010, fui escolhido pelo Ministério para presidir à Comissão Instaladora do então constituído Agrupamento de Escolas de Mangualde. Nessa altura, o desafio era ainda maior uma vez que não tinha sido pacífico, mesmo nada, o processo de junção das três escolas, tendo ficado muitas feridas por sarar, algumas das quais ainda hoje persistem. Era precisa uma pessoa capaz de estabelecer pontes e gerar consensos, para além de experiência de gestão e competências específicas, o que me levou a avançar. E, num Conselho Geral altamente partidarizado, acabei por vencer com 11 votos contra 10 do outro candidato.

Um estudo recente de Joaquim Azevedo evidenciou uma classe docente desmotivada. Como estão os seus professores?

Da minha já longa experiência, acho que esse não é um fenómeno de agora. Sempre houve professores desmotivados. Há 30 anos também havia professores com pouca dedicação à escola. Era o tempo em que se procurava um horário com tardes e/ou dias livres para se compor o vencimento dando aulas num colégio, numa escola profissional, num centro de explicações e por aí fora. A escola vinha em segundo lugar. Por isso, os efeitos acabavam por ser os mesmos do que agora. De resto, os professores hoje desmotivados são praticamente os mesmos que há 20 anos.

Mas nesta lógica de motivação, há um aspeto que me surpreende. É que, mais que desmotivados para o seu exercício profissional, vejo os professores demasiado cansados até para lutar pelos seus direitos. Lutar por melhores condições. Repare-se que vamos com mais de oito anos de congelamento das progressões. São dois escalões remuneratórios. Ora, se já se fizeram tantas greves e manifestações por razões quantas vezes fúteis, não seria esta uma razão fortíssima para os professores se mobilizarem? Ainda mais quando já foi declarado o fim da austeridade? Acho isto paradoxal.

Se pudesse escolher os professores e os funcionários do seu Agrupamento exerceria esse poder? Por quê?

Sem qualquer dúvida. Os professores deviam ser selecionados e contratados pelo órgão de topo de cada escola, que actualmente é o Conselho Geral. Essa seria a única forma de conferir real autonomia à escola e de lhe poder, legitimamente, exigir responsabilidades. Seria, também, a forma de acabar com o autêntico desvario que é a dança anual de professores, com todos os inconvenientes para a criação de equipas pedagógicas estáveis. Cabe aqui dizer que a forma de colocação de professores que temos tido, tem sido acerrimamente defendida pelos sindicatos, exactamente por conseguir atingir o efeito que eles pretendem: a proletarização dos docentes. Contudo, existe uma evidência que não se pode escamotear e que é: “Os professores não são todos iguais e todos igualmente proficientes”. Não são. Por isso, fico triste quando vejo que os professores se têm em tão pouca conta, como decorre dos resultados do inquérito que o “ComRegras” fez. O concurso centralizado parte do princípio que tanto vale um professor como outro qualquer. Ora, um professor que se acha igual a qualquer outro tem-se em fraca conta. Acaso os médicos serão todos iguais? Tanto faz ser operado por um ou por outro? E os advogados? Se tivermos hipóteses, fazemos escolhas, ou não? Isto, além do mais, é uma lástima para a minha classe profissional, para os professores.

Quais as limitações que a Lei e a tutela lhe impõem que mais condicionam o seu trabalho?

A obsessiva centralização do sistema é asfixiante, como é deprimente a desconfiança da administração educativa relativamente ao trabalho nas escolas. É infindável o número de “merdinhas” emanadas dos serviços centrais e regionais que têm de ser meticulosamente executadas, quantas vezes com prazos incumpríveis. É como tenho dito: Enche-se a boca com a autonomia mas cada vez mais se indiferenciam as escolas, fazendo tábua rasa das suas especificidades e tratando-as como meras delegações do omnipotente Ministério da Educação. Péssimo!

mangualdeQue estratégias devem ser prosseguidas para atrair os pais e restante comunidade educativa a uma maior participação na Escola?

Contrariamente ao que a pergunta induz, a participação dos pais na escola e na vida escolar dos filhos é crescente e não tem paralelo com o que se passava há 20 ou 30 anos. O que hoje acontece é algo de diferente. É que a escola acolhe hoje, e bem, uma gama de alunos que dantes a abandonava precocemente. Grande parte deste “novos” alunos é oriunda de meios sociais carenciados e tem agregados familiares instáveis, quando não desestruturados e disfuncionais. Malogradamente, é nestes estratos que a taxa de natalidade tem ainda alguma expressão, o que leva a que a percentagem deste tipo de alunos seja crescente. Ora, hoje, são principalmente os pais desses alunos os que não participam nem se interessam pelo percurso escolar dos filhos, isto é, exactamente aqueles que os professores e directores de turma mais gostariam de ter na escola.

Este é um problema com solução muito difícil no curto prazo, o qual, todavia, poderia ser encurtado através de políticas de incentivo e desencorajamento, mormente através da ponderação das prestações sociais pecuniárias.

Acha que o recente debate sobre o financiamento do ensino privado devia ser um tema prioritário no setor da educação?

Não sei. Trata-se de uma matéria que conheço mal. Mas, porque todos os anos publicito os custos reais do serviço de educação no nosso agrupamento, posso asseverar que uma turma nossa custa bastante mais do que os 80.500 euros que essa turma custaria num colégio com contrato de associação, e fiquei com a ideia de que a maior parte das pessoas ficou a pensar o contrário. Acredito que existam inúmeras razões válidas para decidir diminuir o número de turmas em contrato de associação, mas penso que a poupança de dinheiro não deve ser uma delas. E é o que posso dizer, uma vez que, como referi, conheço mal toda esta problemática.

Quem vai ganhar a “guerra” entre as editoras e o Ministério de Educação?

Acho que o Ministério tem tudo para a ganhar. Já agora, esta é uma guerra que não existiria num quadro legal de plena autonomia das escolas.

O que falta fazer para melhorar os resultados escolares?

Penso que já respondi, no essencial, quando abordei a questão da participação dos pais. Hoje, mais do que nunca, sem pais realmente interessados, sem pais que valorizem a escola, não haverá resultados animadores.

O que falta fazer para baixar os índices de indisciplina?

Para além do que já disse, urge conferir ao professor um estatuto de autoridade pública. Por outro lado, é premente que o Ministério não contribua para a perseguição dos professores quando estes se atrevem a impor a autoridade. E ainda este ano tive um caso desses.

Acrescento que, eventualmente, um sistema de transição automática poderia minorar a eclosão de comportamentos disruptivos precoces. Contudo, o preço não seria despiciendo, uma vez que, muito provavelmente, iria desabar no 9.º ano uma legião de iletrados que não o conseguiria concluir. Mas, ainda assim, as vias alternativas poderiam, nessa altura, vir a dar resposta à continuidade dos alunos, com posterior encaminhamento para vias profissionalizantes de nível secundário. De resto, a idade dos alunos no final do 9.º ano já não é propícia a que então descambem. Poderia ser uma forma de minorar a indisciplina, sim.

Que balanço faz ao trabalho realizado pelo atual Ministro da Educação?

Desde logo, fui e sou muito crítico da decisão de eliminar os exames dos 4.º e 6.º anos. Os exames, contrariamente a muitos discursos inflamadamente proferidos, não chumbavam alunos. Pelo contrário, tendo em conta o peso que tinham, os exames até podiam permitir que alunos reprovados pudessem vir a reunir condições de transição. Era bom que isto ficasse bem claro. É que a real necessidade dos exames não tem nada a ver com chumbos, mas antes com a disponibilização de dados que permitiam que as escolas fizessem benchmarking, que investigassem práticas das suas congéneres, que reflectissem e que tomassem medidas com vista à melhoria das aprendizagens. E isso perdeu-se inexoravelmente com o fim dos exames.

Depois, e embora nunca a tenha podido utilizar, uma vez que não somos TEIP nem temos contrato de autonomia, não achei nada bem a eliminação da BCE, que era uma forma de conferir às escolas uma capacidade mínima para seleccionar docentes. A BCE tinha problemas, sim, mas de ordem técnica, sobretudo no primeiro ano, com autênticas barracadas que tardaram em ser resolvidas e que acabaram por inquinar o processo aos olhos da opinião pública. Contudo, o seu racional era o correto.

Quanto ao resto, naquilo que concerne ao quotidiano da Escola, o actual Ministro não se distingue dos seus antecessores.

Muito obrigado pelo tempo dispensado.

* os negritos são da responsabilidade do ComRegras

2 COMMENTS

  1. 🙂
    reparem quando questionam sobre os “funcionários”.. ele só responde sobre os professores…
    Em regra, em cada escola cerca de 25 a 35% dos funcionários é pessoal não docente, deveria ser considerado.

    o pessoal não docente é muito mal tratado, mas o mal é geral!!!

    Atenção que não conheço este jovem de lado nenhum 🙂

    Alexandre, quando entrevistares os próximos, pergunta pf,
    quantos funcionários tem… docentes e não docentes…
    dos não docentes,
    Quantos é que se encontram na primeira posição remuneratória…
    Quantos é que são a tempo parcial.

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