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Entre contradições – da homogeneidade relativa às heterogeneidades absolutas.

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labirintoHoje escrevo sobre coisas óbvias, tão óbvias que na escola são consideradas na sua evidência social e quotidiana. Fala-se sobre elas, tecem-se considerações, definem-se ideias e alternativas para que tudo fique na mesma, fruto de se pensarem as contradições como problemas e não como uma mais valia da escola.

A escola portuguesa, em particular, a escola pública, foi criada e cresceu numa pretensa harmonização. Esta pretensão assentava na uniformidade da população que frequentava a escola e ia ao encontro dos objetivos para os quais tinha sido criada. Uniformizar culturalmente um país, estabelecer as regras comuns de uma nação, definir uma língua, estes os grandes objetivos da escola pública do século XIX.

A população que a frequentava foi, até há pouco tempo atrás, predominantemente branca, urbana, católica, a falar o português, filhos e filhas de uma estrutura familiar dir-se-á tradicional. Até há pouco tempo quem não se enquadrava neste padrão era progressivamente excluído/a do sistema. Os rurais por não dominarem a cultura urbana que a escola transporta. Os associados às classes mais baixas por pretensa desmotivação e desinteresse, quando não mesmo por falta de apoios em casa que lhes pudessem assegurar a continuidade escolar. Os que não acatavam as regras de uniformização pela expulsão, habitualmente traduzida na reprovação (abandono e absentismo) por excesso de faltas. Os outros porque pura e simplesmente não acompanhavam conteúdos e programas e não conseguiam as notas pretendidas. Restava uma curta faixa central que, por razões de contexto social ou familiar, geográfico ou económico, cumpria os requisitos e permanecia na escola.

Deste modo, a escola cumpria o seu mais importante papel, uniformizar a população mediante uma mesma cultura assente na língua e nas regras de convívio social. Integrava, a bem ou a mal, os desvios e as dificuldades. Aos restantes, o corpo social dava uma qualquer resposta, trabalho indiferenciado e mal pago (agricultura, campesinato, obras), a emigração, as franjas sociais da deliquência.

Neste período de tempo que, grosso modo, se estende até aos finais do século passado, a escola, tal como a sociedade, era a preto e branco, maniqueísta, os bons e os maus, os que conseguem e os que seguem outros caminhos. Acreditava-se que a escola e a educação eram caminho de salvação e glória. Salvação a um destino traçado que marca e rotula pessoas e condições sociais. De glória pessoal e individual, feita de reconhecimento social e económico.

Com a crescente massificação da escola, em particular da escola pública portuguesa, a escola passou a integrar e a ser constituída por diferentes culturas, inúmeros credos, diferentes línguas, muitos interesses e mais diferenciados objetivos. Predominam alunos que muitos docentes caraterizam como desinteressados, alheados, indiferentes ao que a escola veicula, aos que os professores apregoam. E não são  nem expulsos nem excluídos. Não podem ser, a escolaridade é de 12 anos Criam-se percursos curriculares alternativos, programas de inserção e formação, cursos vocacionais, mas eles lá ficam, entre o cansaço de uns, a incompreensão de muitos e o privilégio de outros tantos. Vive-se, tal como noutros contextos, em cenários de uma «cultura de hibridação» marcados por «territórios antinómicos».

A escola portuguesa hoje é uma palete de cores e tons, de objetivos e interesses. Os pobres andam também têm IPod e Iphone, há marcas na feira da ladra a tuta e meia e os mercedes hoje são de desconfiar. Contudo, a escola permanece organizada, supra contradição de si mesma, como num tempo de uniformização e homogeneização. Talvez hoje mais que ontem, a escola escolhe, seleciona, aprova, atira em frente e retira os que prestam, os que se enquadram, os que têm estrutura familiar de suporte. Os outros, ficam-se. Ficam-se por cursos vocacionais, por ofertas curriculares de ninguém, até cumprir a escolaridade ou simplesmente o sistema os ignorar.

Contradições.

Manuel Dinis P. Cabeça

Outubro, 2015

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