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Entendimento sobre (in)disciplina

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IcebergJá aqui por diversas vezes escrevi que prefiro a designação de disciplina escolar à de indisciplina (recordo uma e outra). Como prefiro falar em comportamentos escolares em detrimento de (in)disciplina.

Os comportamentos, no caso escolar, são formas de aprender a lidar com o outro, seja ele um colega ou um docente, num caso de igual estatuto, noutro de estatuto diferente. Na escola, no conjunto de comportamentos escolares, desenvolvem-se tanto os mais básicos quanto os mais complexos princípios e modos de socialização. Isto é, a interiorização de uma cultura, dos modelos e das orientações (por vezes não escritas) que suportam relações sociais ou as suas concepções – de autonomia, de subserviência, de crítica, de submissão, de construção, de participação.

Por seu lado, a indisciplina são situações inopinadas, momentos circunstanciais, ocorrências assumidamente voláteis. Têm como ponto comum, entre eles, a rutura, o rompimento de equilíbrios (ou da aciênca). Isto é, e daí a manifesta dificuldade de catalogação, o que para mim num momento é indisciplina noutro pode ser encarado com alguma sobranceria ou mesmo mera irreverência. Essa mesma situação que levou um docente a redigir participação escolar pode, para um outro docente, ser apenas um caso a resolver fruto da idade (adolescência) ou de circunstâncias mais ou menos pessoais e/ou particulares.

A situação poderá ficar mais complexa se levarmos em consideração que, apesar da indisciplina estar diretamente relacionada com o (in)cumprimento de regras, os momentos e as circunstâncias que rodeiam esse acontecimento está repleto de ideias sobre o papel de alunos e de docentes (quando não mesmo da família e da sociedade), os valores que orientam as relações (entre pares e entre desiguais), as funções e os objetivos que se perspetivam para os elementos envolvidos. Mais ainda. Pelas situações de indisciplina, isto é, pelo conjunto de regras que se estabelecem para as relações escolares (ou de sala de aula) torna-se possível aferir a relação que se pretende estabelecer entre a escola e o seu contexto social (ou político). As regras e os preceitos inerentes aos modelos de disciplina escolar, instituem-se desse modo, como mecanismos de regulação entre o que temos e o que queremos, a escola e a sociedade, os que mandam e os que obedecem.

Toda esta conversa a propósito de notícia onde se dá conta do diferente entendimento e da diferente perceção sobre a alteração dos comportamentos, sobre a variação das situações de indisciplina, no tempo e nos atores considerados, alunos e diretores.

Se encararmos as regras escolares como formas de regulação social e individual, entre uma dimensão escolar e uma dimensão social, a escola, os professores e as regras entre uns e outros, em particular o modo como se têm alterado, reconfigurado e reconstruído, têm assumido um papel sobredeterminante nas concepções e na relação democrática, cívica e participativa da pessoa individualmente considerada mas também nas suas dimensões mais coletivas e sociais. Tem sido este um dos grandes méritos da escola, apesar dos comportamentos, preparar para a democracia, para a participação, para o debate, para o entendimento negocial das relações.

Por outro lado, o que para uns (diretores) é visto como uma perda (de controlo, de regras, de normas), para outros (alunos) é visto como uma conquista social, eventualmente de participação, abertura e tolerância.

Finalmente e para o comum dos mortais (docentes e alunos incluídos) a indisciplina tem aumentado ou diminuído? Serão os estudos desenvolvidos sobre os comportamentos e as relações em contexto escolar, fiáveis? Enquanto estudo, é dado destaque a que dimensões disciplinares? Dos professores, da regra, da conformidade, do aluno, das ideias ou dos valores? O que destacam os estudos? Mostrarão ou dirão o que efetivamente ocorre nas escolas? Poderá existir algum excesso de preocupação? Será que existe alguma relação entre preocupações com a indisciplina escolar e a sua mediatização social?

Direi, para terminar este apontamento, que as alterações ocorridas em contexto escolar – muitas delas na base de iniciativas como este mesmo sítio (onde os comportamentos são tema predominante e a regra uma presença nominativa) – serão salutares e de de destacar. De destacar por aquilo que pressupõe a alteração social, de maior implicação, de outras dinâmicas, de outras perspetivas de relação perante as quais a escola e os professores não são nem estão incólumes. Isto é, há indisciplina que é boa. Que nos permite reinventar e redefinir outras/novas regras. Que pressupõe movimento e dinâmica relacional. É isto que, em meu entendimento, o estudo mostra.

Manuel Dinis P. Cabeça

30 de maio, 2016

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