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Ensino À Distância Por Mais Um Ano? É Uma Catástrofe Anunciada. – Raquel Varela

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Ensino à distância, por mais um ano, uma catástrofe anunciada. O Ministério da Educação descobriu a automação na educação. O ensino à distância não é conhecimento, são doses homeopáticas de informação fragmentada. Transforma o professor num instrumento de um computador que comanda programas, conteúdos e tempos de trabalho. O professor passa a ser um apêndice da máquina, qual Chaplin nos Tempos Modernos. Vai aumentar por isso o burnout, a alienação, a tristeza, é o professor-operário que abre um teste padronizado de cruzinha e os alunos respondem, preparados para o mercado, ou seja, a futura linha de montagem onde vão ser inseridos. Expropria o professor do ser criativo e proletariza-o ainda mais, além de destruir a sua vida pessoal, familiar, e de alunos. Transforma a casa numa unidade produtiva.

Naomi Klein, intelectual norte-americana, explica na sua Doutrina de Choque como os Governos usam catástrofes para aplicar medidas que, antes das catástrofes, seriam inaceitáveis para a população. A era da automação no ensino chegou e vai permitir, se não houver resistência, ao Ministério da Educação enfrentar a sua maior crise – a falta de professores massiva. Porque, em todos os países onde está a ser introduzido o “Ensino remoto”, aumenta o número de alunos por professor/computador (sim, passa a ser o professor-computador).

Os alunos – mamíferos relacionais -, não vão conseguir adquirir conhecimento algum, porque o conhecimento depende da relação emocional e colectiva que se estabelece – vão adquirir apenas informação que podem ver no google. Não por acaso Nuno Lobo Antunes explicou que os alunos com espectro do autismo dão-se bem neste formato à distãncia – porque são alunos cujo relacionamento preferencial é com coisas, e o computador não é uma relação humana, é uma coisa. Com o ensino à distãncia coisificamos assim professores e alunos (tão pouco fará bem aos que têm este espectro, mas fará muito mal a todos os outros). Amamos um computador ou amamos quem abraçamos, cheiramos, sentimos?
Entretanto vendem-se Ipads, softwares, em massa comprados pelos Municípios com os nossos impostos, e, cereja em cima do bolo, os dados destes “ensino” são automaticamente entregues às empresas de estudos de mercado (alunos em Portugal já estão a usar testes na escola pública elaborados não por professores mas por empresas privadas). Este é o admirável mundo novo da automação do trabalho, agora é por mais um ano em “modelo complementar”, trata-se de facto da privatização total do ensino através destas parcerias e da redução de custos com os professores. Vai gerar um mercado com fundos públicos através destas parcerias, diminuir o défice pagando menos a professores, e criar mais uma geração expropriada de saber e conhecimento, depender de computadores – preparados para o novo mercado laboral automatizado.

Finalmente todos os estudos provam que mais do que 2 horas de ecrans diários por dia nas crianças e jovens tem feitos neurológicos graves, como é possível o Ministério impor ou autorizar 30 minutos que sejam de ecrãs em crianças cujo dia já é passado, fora da escola, enfiado em casa, sós, com telemóveis, obesos, dessocializados, hiperestimulados e deprimidos?
A pergunta é, o que aconteceu aos sindicatos, às associações de pais e aos alunos para deixarem esta medida ser anunciada como um facto sem discussão e tudo em nome de uma pandemia?
Nem por um ano, nem em modelo combinado. Nunca devia ter existido estes dois meses, e jamais devia existir para o ano, mesmo que parcialmente. A não ser que o projecto em curso seja o da total destruição do bem mais precioso que temos, os seres humanos que aqui residem e cuja humanização depende da educação e das relações sociais reais que estabelecem ao longo da vida.
Ensino à distância não é ensino – é automação da força de trabalho presente (professores) e futura (alunos).

Nota pessoal: sou professora de adultos, sempre que posso ensino os meus alunos em jardins, a andar a pé (sou piripatética), com jantares e almoços de fim de aulas, idas a fábricas e empresas e estaleiros, às vezes em excursões pelos locais de trabalho ou dentro de sindicatos. Não escrevi este texto pela minha experiência pessoal, que vai manter-se peripatética, relacional, e feliz. Mas porque conheço através dos nossos trabalhos de estudo colectivo no Observatório para as Condições de Vida e Trabalho o que são as condições de trabalho no mundo em que vivemos, e sobre o qual fizemos amplos estudos. Está em curso um gigante processo de reconversão capitalista da força de trabalho rumo automação, é isso que deve ser debatido, e combatido. Aliás devo estas reflexões que coloquei acima aos meus colegas do Observatório, Lorene Figueiredo, Roberto della Santa, Virgínia Baptista, Duarte Rolo, Roberto Leher, entre outros.

Raquel Varela

8 COMMENTS

  1. Plenamente de acordo. Uma emergência ainda vá que não vá. Mas sem dúvida abusámos dela.
    A Escola não pode deixar de ser presencial.
    O EA pode ser para a adultos, para pequenas ações de formação até para crianças mas tipo ATL.
    Isto seria caminha para o abismo mesmo….
    Claro, se for visto com €€€€€€€€€€€€€ hummmm é logo algo totalmente diferente. Alguém já fez as contas de certeza.

  2. Ontem assisti ao meu primeiro webinar de educação. Nada tenho a apontar às opções e às capacidades comunicacionais da autora, agora quanto aos comentários dos assistentes já tenho três observações a fazer (e uma pergunta aos programadores da EaD):
    1) Têm pior comportamento do que os alunos deles: passaram o tempo a “falar”;
    2) O entusiasmo manifestado por alguns ao aplaudirem o EaD deu-me calafrios;
    3) Tanto aplaudiam que pareciam pertencer à claque de editora;
    4) Questionei-me porque raio ainda tenho de fazer a avaliação: então a “Inteligência Artificial” não é para isso?
    Cara desconhecida colega Raquel Varela: foi um prazer lê-la.
    Obrigado
    José Alves

  3. Giro! devem os alunos regressar â escola! É mesmo pena esta pandemia ser mais séria que o que muita gente pensa. A humanidade está em perigo de extinção!!! Não existe e não existirá vacina ou tratamento nos próximos 10 anos!
    Acordem!
    Estas ideias são bonitas.

  4. A pior fiença do ser humano é o preconceito. A autora claramente não conhece nada do tema e é extremamente preconceituosa, característica de seres humanos incompententes! Desista de ser educadora…

  5. Catástrofe seria não controlarmos a pandemia até aparecer uma vacina… E se fosse uma guerra, haveria aulas? A vida é o maior bem a preservar, se não se aprender muito num ano, ninguém morre, recupera-se depois. Agora, há que pensar na saúde de todos.

  6. Lindas ideias! Não deveria existir pandemia! As aulas deveriam ser dadas em diálogo, em jardins, a avaliação só serve para discriminar alunos!

  7. Ler comentários como alguns destes, faz-me concluir que a usual falta de capacidades de interpretação de textos atribuída aos alunos, se estende largamente entre os seus docentes…

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