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Ensino à distância pode deixar “traumas para a vida toda” em alguns alunos

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Só em setembro, com o regresso de milhares de alunos às escolas e ao ensino presencial é que será possível aferir os diferentes patamares em que se encontram entre si, depois de meses de ensino à distância. Para já, uma certeza: “é inevitável, de uma forma global, que este tempo afastados da escola se faça sentir” em cada um deles e, para alguns, a experiência pode significar “traumas para a vida toda”, diz a psicóloga clínica Catarina Lucas.

Ainda o ensino à distância era uma miragem, uma alternativa colocada em cima da mesa com a grande probabilidade de o Governo vir a fechar as escolas, já se faziam as apostas. Professores e diretores não tinham dúvidas de que pedir aos alunos para irem para casa era acentuar as suas diferenças. Em Cinfães, onde o professor Manuel António Pereira trabalha, por exemplo, não tardou até que se percebesse que era um cenário quase impossível para alguns. Trabalhar à distância é uma medida eficaz no combate à pandemia de covid-19, mas “há alunos sem computador, outros que vivem em aldeias isoladas onde a internet não chega”, contava.

Até ao último dia do ano letivo, foi um percurso de tentativas. O primeiro passo do Governo passou por pedir auxílio às forças de segurança, aos municípios e aos Correios, para fazerem chegar fichas de trabalho onde a internet e o computador não chegavam. Depois, foi altura de experimentar as aulas na TV, através da nova telescola. O #EstudoEmCasa, como foi designado, permitia atenuar as diferenças entre os alunos de contextos e zonas mais desfavorecidas, com a certeza de que através da televisão se chegaria até eles.

“Temos de perceber que nem todos os pais têm a mesma disponibilidade, capacidade e competência para acompanhar um filho num estudo ou numa aula”, até porque “há crianças que até já têm um nível de escolaridade maior do que aquela que os pais tiveram”. Embora a escola tenha “a função de tornar todos os miúdos iguais, sem distinguir de quem somos filhos”, “a partir do momento em que estudamos em casa, essas diferenças começam a ser mais notórias” e “deixamos de estar em pé de igualdade”. A especialista, que durante anos trabalhou em psicologia infantil, lembra: “se tiver um pai que me ajuda a estudar, que compreende a matéria e a revê comigo, é possível que eu tenha um rendimento escolar superior a outro colega que não tem pais que consigam acompanhar. O mesmo se eu estiver numa casa com todas as condições e o meu colega viver numa casa com muito barulho e a passar frio”.

Por força das diferenças, “muitos conteúdos não foram assimilados da mesma forma e houve competências não se desenvolveram da mesma forma”, mesmo as sociais. “Todos vão partir com um défice”, mas, “dentro disto, vamos sentir ainda mais as diferenças entre contextos” e “há miúdos que, de facto, vão sentir-se mais atrás face aos outros”, explica.

“Isto mexe com a nossa autoestima”

A sensação de ficar para trás pode ser levada com mais ou menos leveza para determinadas crianças e jovens. Mas, regra geral, “pode ser traumático e pode trazer traumas para a vida toda”. “Isto mexe com a nossa autoestima, com a consciência de ‘eu não sou tão bom como’ ou ‘eu não consigo fazer o que o colega faz’”, alerta.

Entrando no ciclo, “é muito difícil de sair”. À semelhança daquilo que explica o insucesso escolar. “Vai diminuindo a autoestima do aluno e, quanto menor, maior vai ser o insucesso. Às tantas, já não se sabe o que vem primeiro: se o insucesso, se a baixa autoestima. Porque quando entram no insucesso, também podem não se empenhar por acharem que não são capazes e, não se empenhando, vão tendo mais insucesso, o que os vai deitar abaixo”, esclarece. Um ciclo de pensamentos que pode seguir um jovem até à sua vida adulta. “Olhamos para trás, vemos que o nosso percurso foi pautado pelo insucesso e desvalorizamo-nos.”

Catarina Lucas frisa que “a aprendizagem daquilo que somos ou não capazes começa desde pequeninos e deixa marcas para a vida”. Por isso, acredita que esta experiência pode deixar mais mazelas entre os mais pequenos, uma vez que os mais velhos, “de certa forma, já têm um processo de desenvolvimento prévio, uma estrutura de personalidade formada, uma identidade e uma imagem de si próprios”.

Pais e professores devem seguir a não culpabilização

O que lá vai, lá vai. Importa agora reduzir os riscos, “saber como vamos lidar com isto, enquanto pais e professores”.

Grande parte deste trabalho vai depender da comunidade escolar, sublinha a psicóloga clínica. Catarina Lucas diz que, “acima de tudo, temos de ser compreensivos, tal como tentamos ser nesta fase”, conscientes de que os recursos e contextos são diversos entre os milhares de alunos no ensino português. Os professores devem trabalhar sobre “a não culpabilização, a não responsabilização, a ideia de que todos dão o seu melhor”. Além disso, “é preciso baixar a exigência, de determinada forma”, o que “não quer dizer que não trabalhemos para ela, mas, pelo menos, que em termos de mensagem não passamos essa pressão”.

Uma retórica, aliás, apoiada pelos diretores e docentes, que apelam a uma mudança no ensino. Assim que os portões da escolas encerraram, a grande maioria dos professores trocou os testes por apresentações, pela valorização da assiduidade e do esforço que cada aluno provava. No entanto, nem todos os professores foram capazes de garantir avaliações inovadoras, à medida do ensino à distância, o que gerou várias críticas por parte de pais.

Por isso, Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), alerta que o modelo de avaliação deve ser repensado “seriamente”. Também na opinião de Paula Carqueja, dirigente da Associação Nacional de Professores (ANP), “será muito mais importante termos uma avaliação permanente dos nossos alunos do que estar a julgá-los por um teste”, não só em tempos de pandemia, mas de forma contínua.

No entanto, as dinâmicas do próximo ano letivo, que deverá arrancar entre 14 e 17 de setembro, terão à sua responsabilidade também o trabalho feito em casa. Os pais, explica a psicóloga Catarina Lucas, devem “fazer uma reorganização” da vida familiar, “até porque não sabemos se não vamos continuar a ter uma componente online“. Ainda que o cenário preferencial apontado pelo Governo para o arranque do ano letivo seja o ensino presencial, poder-se-á aplicar o regime misto ou não presencial “se as autoridades de saúde nos disserem que é preciso fazê-lo num determinado território ou em todo o país”, como disse o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

Embora seja necessário “apoiar o estudo dos nossos filhos, temos também de os autonomizar, para não cairmos na tendência de estar lá sempre”

Tal como os professores, a família deve treinar “a flexibilização do erro, permitir mais que eles errem”. “Não temos essa cultura, de todo, somos muito treinados para não errar e somos muito exigentes nos vários papéis de vida: os nossos filhos têm de ser os melhores na escola, têm de estar em todas as atividades, os pais têm de conseguir desdobrar-se para conseguir estar com eles em todo o lado e têm de ser um casal exemplar. Às tantas, isto torna-se humanamente impossível.”

Um tempo que deixou mazelas também nos pais

Nos últimos tempos, têm sido vários os pais que têm entrado pelos consultórios geridos pela especialista Catarina Lucas, frustrados com a rotina a que a pandemia os obrigou. “Alguém me falava no outro dia, numa consulta, no burnout parental”, conta, apelidando o que vários encarregados de educação dizem estar a sentir. “Este tempo com os miúdos e todas as outras coisas gera um esgotamento em algumas famílias. Temos recebido imensos pais com queixas sobre estes tempos, que dizem já estarem fartos dos filhos, que têm de estar constantemente ao lado deles, ou não fazem os trabalhos. É uma queixa genérica”, garante.

Uma queixa que advém da falta de habituação a um quotidiano em que os filhos e o companheiro estão lado a lado durante 24 horas e vários dias seguidos. De facto, diz, “nenhum de nós está preparado para isto. E os miúdos precisam de uma atenção quase constante”, o que torna a tarefa muito mais exigente. Um cenário que se complica quando analisadas as alternativas, pois “se, por um lado, os pais estão desejosos que os filhos voltem para a escola ou para as creches, por outro, têm receio de os levar e acontecer-lhes qualquer coisa”.

Embora a questão se tenha acentuado com a pandemia, Catarina Lucas lembra que o que vê entrar no seu consultório é o espelho de uma tendência que já leva alguns anos. De uma forma global, explica, “vivemos numa gestão familiar complicada”. Os pais “têm vidas sobrecarregadas e são, por norma, muito exigentes: querem que os miúdos tenham todas as atividades e mais algumas, que tenham bom desempenho escolar”. Altas expectativas para tempos difíceis, recorda.

Fonte: DN

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