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Enquanto se esgadanham todos por causa dos exames…

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peso das mochilas… a questão central vai evaporando e daqui a nada é setembro e nada foi feito e pouco foi falado. Estou a falar desta avalanche educativa que as nossas crianças carregam, estamos no topo da carga letiva atribuída e pelos vistos lá continuaremos. Esta treta dos exames, examinados e examinandos, com normas e norminhas, tornou a escola pública num “juguete” de vaidade política. Já aqui bati nesta tecla e bato outra vez, pois é nesta altura que devíamos estar a alterar o (des)norte que impera nos “visionários” deste país…  Ontem foi Santana Castilho, que inteligentemente abordou novamente a questão. Hoje publico um texto do site Educare onde destaco esta frase.

Raquel Varela, professora, investigadora, mãe, tem pensado sobre estes assuntos e até vincado a sua posição publicamente. “Ninguém para estes lunáticos que querem crianças fechadas numa gaiola 10 horas por dia seguidas de mais quatro num apartamento a ver televisão?”, escreveu num post no seu Facebook e que já tem milhares de visualizações. “A criatividade, a iniciativa, as ideias, nascem também de muito tempo livre a brincar – não é brincar numa sala de aula a pintar, é correr e inventar com os amigos parvoíces”, acrescentava.

ESCOLAS, AULAS, PAUSAS: NÃO SE PODE METER TUDO NO MESMO SACO

Quantas férias devem ter os alunos? Quantas pausas letivas devem constar no calendário escolar? O assunto volta ao “olho do furacão” quando o Conselho das Escolas recomendou que no próximo ano letivo haja uma interrupção de dois dias úteis consecutivos durante o primeiro período entre os dias 29 de outubro e 3 de novembro, de acordo com decisão dos órgãos de gestão e administração das escolas, tomada com base nos seus projetos educativos. Nesta recomendação, o Conselho das Escolas lembra as “férias de outono” de outros países e o facto de o primeiro período ser, regra geral, mais extenso do que os restantes.

O Conselho das Escolas defende que seria útil estabelecer uma interrupção letiva de curta duração, sensivelmente em meados do primeiro período, para que as escolas façam uma reflexão sobre o percurso educativo dos alunos e, se for caso disso, estabelecer medidas educativas de superação de dificuldades detetadas. “O primeiro período letivo é, por norma, o mais extenso do ano, correspondendo também, e frequentemente, a cerca de três meses completos de atividades letivas, mais de 60 dias úteis de aulas. Ao contrário do que acontece em muitos países europeus que, frequentemente, nos são apresentados como referência na Educação, e nos quais se verifica uma curta interrupção pelo outono, as designadas ‘férias de outono’, em Portugal não existe qualquer interrupção das atividades letivas no decurso do primeiro período”, lê-se na recomendação. Os dados estão lançados.

“Será que as famílias, na sua maioria, têm possibilidade de ter mais do que um mês de férias? Haverá verdadeiramente uma Educação para todos?”. As questões estão num texto no site da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) com o título “Uma Outra Visão – Educação Sem Hipocrisias”. Jorge Ascenção, presidente da CONFAP, reagiu à recomendação do Conselho de Escolas. “Começo a recear que as escolas tenham mais pausas do que aulas”, disse. Fizeram-se contas, escreveu-se que a CONFAP queria apenas um mês de férias para os alunos, Ascenção explicava que havia problemas nas escolas que não se resolviam com mais interrupções, mas prologando o funcionamento dos estabelecimentos de ensino.

“Confundem escola com aulas. A escola hoje não é a escola do século XIX, não pode ser uma fila de alunos a assistir ao que se passa no quadro”, refere ao EDUCARE.PT, deixando claro que não se pode discutir educação de uma forma parcelar e que o que é importante, neste assunto, é “equilibrar o funcionamento da atividade educativa e proporcionar aos jovens que, no espaço escolar, encontrem respostas diferenciadas de motivação”. Ou seja, equilibrar o trabalho educativo de modo a conduzir a melhores resultados.

Jorge Ascenção afirma que definir estratégias de motivação e estimular aprendizagens não é possível “com pausas em cima de pausas”. Em seu entender, é possível ter a escola a funcionar de setembro a julho e ter dois ou três meses de férias. “Em determinadas alturas, aquele espaço pode ser diferente”, diz. Diferente significa salas sem aulas, espaços exteriores com atividades sem avaliação, mais iniciativas não letivas nas escolas. “As escolas não são só aulas e não são só professores.”

O presidente da CONFAP fala do que vê. Semanas com vários testes seguidos de uma segunda rodada de testes porque o tempo não estica. Programas dados a contrarrelógio quando não houve tempo para consolidar aprendizagens ou tirar dúvidas. Aulas de 90 minutos “perfeitamente desajustadas”. “Não podemos ter a mesma bitola, o mesmo formato, para todo o país”, refere, acrescentando que “quem trabalha na escola pública tem de ter atenção ao que anda a fazer e como o faz”.

No texto da CONFAP coloca-se a pergunta se não se deverá considerar a possibilidade de uma nova organização do ano letivo, em que se possa distribuir com “mais equidade todo o trabalho que a Escola precisa de desenvolver, desde da atividade letiva até à avaliação”. “Iniciar o plano no início de setembro e terminar em julho significará apenas um mês de férias. Não haverá capacidade para pensar diferente? Então os períodos de avaliação onde podem ser inseridos e com que finalidade? Então as pausas letivas, as atividades não letivas, o desporto, a cultura, as visitas de estudo?”. A CONFAP quer que se olhe para a escola para além de um espaço físico e de um tempo de aulas.

Raquel Varela, professora, investigadora, mãe, tem pensado sobre estes assuntos e até vincado a sua posição publicamente. “Ninguém para estes lunáticos que querem crianças fechadas numa gaiola 10 horas por dia seguidas de mais quatro num apartamento a ver televisão?”, escreveu num post no seu Facebook e que já tem milhares de visualizações. “A criatividade, a iniciativa, as ideias, nascem também de muito tempo livre a brincar – não é brincar numa sala de aula a pintar, é correr e inventar com os amigos parvoíces”, acrescentava.

Ao EDUCARE.PT, Raquel Varela sublinha que este assunto é de extrema importância. As horas de brincadeira livre quase desapareceram de um quotidiano que se urbanizou e que tem menos avós a cuidar dos netos e pais com menos tempo para estar com os filhos. “O problema dos pais não terem com quem deixar os filhos não se resolve colocando as crianças na escola o tempo todo ou a ver televisão durante três meses”, diz ao EDUCARE. PT.

A base está na organização da sociedade. Sociedade que tem de parar para pensar, olhar em várias direções, ter consciência de que há estruturas do passado que se refizeram, que não são as mesmas. “Não podemos transferir para as crianças os efeitos da forma péssima como a sociedade está organizada”, comenta. Ou seja, os mais novos não têm de sofrer na pele as consequências “devastadoras”, quer em termos físicos quer psicológicos, de uma sociedade que não se organiza convenientemente de forma a respeitar os tempos das crianças. Tempos de brincar, tempos de férias, tempos de paragem, tempos de aula, tempos de absorver conhecimentos, tempos de estudo, tempos de nada.

Outros mundos além da escola
A Associação Nacional de Professores (ANP) concorda com a recomendação do Conselho das Escolas, com a pausa no primeiro período, com o tempo de reflexão que ele poderá proporcionar. “É necessário que haja algum período de reflexão, uma pausa equilibrada para as crianças. Há outros mundos para além da escola, outras paredes além da escola”, refere Paula Carqueja, presidente da ANP, ao EDUCARE.PT. A interrupção letiva a meio do primeiro período é, portanto, bem-vinda. “As escolas podem parar para se organizarem e analisarem se há alguma mudança ou algum ajustamento a ser feito”, acrescenta.

Paula Carqueja refere que a escola não pode ser um edifício permanentemente aberto, em que as responsabilidades dos pais terminam depois dos portões. “Não se pode entregar a um grupo de professores a responsabilidade quer dos conhecimentos quer da vida”, repara. E as crianças querem outras atividades que não aconteçam nos recintos escolares. “A escola não pode ser a resposta a todos os problemas das crianças. A sociedade é que tem de dar resposta a outros tempos da escola”. “É preciso que as crianças sintam que podem descansar, que podem quebrar ritmos ao longo do ano, é importante essa quebra.” A presidente da ANP refere que as quebras são importantes e lembra que na França há um dia por semana em que os professores se podem juntar-se em grupos de reflexão. “Aqui, de segunda a sexta, há sempre uma sobrecarga permanente”, refere.

João Dias da Silva, secretário-geral da Federação Nacional da Educação (FNE), defende que é preciso analisar muito bem os ritmos escolares, com profundidade, com atenção, para que a solução encontrada seja “consensual e duradoura”, lembrando que há países que sabem com antecedência de três anos qual o calendário escolar dos alunos, dando assim tempo para as famílias se organizarem. “Esta é uma matéria que merece ser estudada”, refere ao EDUCARE.PT. Mais do que dizer se concorda ou não com a interrupção sugerida pelo Conselho das Escolas, se essa interrupção deve ou não abranger os professores, é necessária, em seu entender, “uma reflexão e um trabalho que tenha dados científicos, de investigação”.

Dias da Silva considera fundamental perceber as regras de funcionamento do processo de ensino-aprendizagem e as respostas que existem e que deviam existir. E a sociedade tem de estar de olhos bem abertos para as novas realidades, como o aumento de famílias monoparentais e pais e mães que trabalham por turnos, entre outras. “A sociedade tem de ter respostas, a escola não pode ter respostas para tudo”, refere ao EDUCARE.PT.

Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (FENPROF), diz que é preciso distinguir o que são férias e o que são interrupções letivas, e pensar nas respostas sociais que as escolas podem dar quando não há aulas. A pausa de dois dias no primeiro período que, na sua opinião, é “extremamente longo” não lhe merece críticas. “Uma pequena pausa de dois ou três dias era bom para os alunos descansarem.” Não havia aulas e os professores podiam aproveitar para, por exemplo, ações de formação contínua.

Quanto às férias, Mário Nogueira usa a ironia. “O período de férias em Portugal pode ser original. Pode-se encomendar um estudo para os meninos ficarem 15 dias em casa”, comenta. E acrescenta: “O calendário escolar não está feito de acordo com os ritmos e tempos de aprendizagem, mas sim com as festas religiosas e os operadores turísticos”.

Sara Oliveira (2015).” Escolas, aulas, pausas: não se pode meter tudo no mesmo saco”. www.educare.pt/, 8 de junho

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