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Em Portugal Há Mais Resorts Turísticos Do Que Boas Escolas – Raquel Varela

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Culpabilizar os rankings pelo mau estado da educação ou apontar que revelam desigualdades é o mesmo que ir ao médico e zangar-se com o termómetro que nos diz a temperatura. Os rankings são um medidor, um dos, de uma doença sistémica. Sou contra exames, porque eles obstaculizam uma educação de qualidade. O que porém os rankings revelam é uma parte importante da realidade – a larga maioria da educação do nosso país é medíocre – a média ou é negativa ou está no limitar. Isto nas públicas e nas privadas – sim, não vale a pena pagar.

Salvam-se no meio deste panorama uma dúzia de escolas, todas privadas, muito boas, não mais de uma dúzia, onde curiosamente se manteve uma estrutura de ensino clássica. Em quase todas as escolas por esse país fora há inovadoras “pedagogias de competências” e os professores quase têm que dançar nas aulas, por um salário mau e precário muitas vezes. Nas outras – nas poucas escolas excelentes -, há ensino, ou seja, conhecimento científico. E os professores são bem pagos e reconhecidos.

Podemos continuar a negar esta evidência falando do “esforço” brutal de todos. O esforço existe, de facto, mas é suor e cansaço por um caminho errado, que não nos leva a lado nenhum. Estamos sem mapa, ou seja, sem uma estratégia educativa para a maioria da população, votada à mediocridade sempre a coberto de grandes “inovações” “autonomia” “flexibilidade” pedagógica, e outros vazios retóricos que se acumulam à medida que tudo piora, e fica evidente aos olhos de cada um.

O resto da temperatura dos rankings já sabíamos. Bairros mais pobres, educação mais pobre; pais médios, educação média. Isto é, a escola não cumpre qualquer papel em combater a desigualdade e serve não o conhecimento mas um mercado de trabalho pobre e mal qualificado. São os resultados medíocres de e para um mercado de trabalho medíocre. Desse ponto de vista a escola cumpre o seu papel e os Governos não se enganaram – a escola cria uma sociedade de trabalhadores pouco ou mediamente qualificados, sem domínio do conhecimento fundamental, que servem um país atrasado, que não produz nada fundamentalmente e vive de turismo e exportações cuja cadeia valor está fora do território, nos países centrais. O panorama é desolador. Mas este é o resultado esperado de um país que tem mais resorts turísticos do que boas escolas.

Quem governou nos últimos 40 anos fez escolhas, e elas estão aí. Somos excelentes na gastronomia, muito bons no turismo, e muito maus na educação. Podem sempre dizer-me que na natureza humana só uma pequena percentagem é excelente. Respondo-vos que isso é falso – quando mudamos os ambientes a larga maioria é excelente. Podem também dizer-me que a culpa é do vizinho do lado. Mas eu não acredito que possam os pais culpar os professores; os professores culpar os pais; os professores do superior culpar os da primária; e os da primária recordarem que foram formados no superior. Tudo isto é verdade e o que diz? Que estamos numa boa de neve que cresce cada vez mais, enquanto rola montanha abaixo. Quanto pior é a educação no primário, pior será no superior. Quanto pior é no superior pior será no secundário. Quanto piores forem os professores, piores serão as crianças. Quanto piores forem os pais, piores ficarão as crianças, que um dia também serão pais e professores. Uma avalanche.

Ou começamos a encarar o ensino a00 sério, e a pagar muito bem no sector da educação, em todos os anos de ensino, considerando que queremos ser um país excelente nesse campo ou, lamento, só vai piorar – um dia a bola rebenta lá em baixo e descobrimos que a casa não tem fundações e o telhado, excelente, caiu em cima de todos – ninguém se salva bem num país com estar estratégia de praia, sol, e rendas fixas de gestores.

Raquel Varela

4 COMMENTS

  1. Em duas escolas da mesma cidade as posições no ranking mudam de ano para ano.
    Num ano uma está zona dos 100 e a outra nos 300, noutro ano as coisas mudam.
    Os professores são sempre os mesmos que dao as disciplinas de exame.
    O que muda?
    O ALUNO.

    Se a escola tem a sorte de ter bons alunos naquele ano, pronto…sobe no ranking.

    Os rankings nada tem a ver com as escolas ou professores (só influenciam 10%), mas sim com a qualidade dos alunos naquele ano específico.

    As com melhores classificações atraem , não sei pq, os melhores alunos, que no fundo seriam bons em QQ escola.

    É assim… Raquel

  2. Eu farto-me é de rir com o babar dos diretores das escolas quando estão nos lugares cimeiros…
    Quando estão mais abaixo andam caladitos.

  3. Contrariamente a Raquel Varela, defendo a existência de exames, quanto ao resto não poderia estar mais de acordo. Coloca corretamente o problema, argumenta e desvaloriza a disputa, inconsequente, à volta dos números e das médias.
    Os exames são mais um instrumento de aferição externa, que deveriam contribuir uma reflexão séria sobre o processo de ensino e aprendizagem no final de cada ciclo de estudos. Os relatórios, produzidos, anualmente, identificam fragilidades que as escolas deveriam procurar corrigir. Não é tarefa fácil, é certo, mas também tem faltado a coragem para olhar criticamente para os resultados conseguidos. Quando os resultados de uma escola são bons, é um contentamento, quando são maus, resultam de um processo de avaliação injusto, que pouco diz sobre o trabalho da escola. Mas a persistência estatística, os grandes números, contam também uma parte relevante da história e esta é mais difícil de esconder.
    A discussão seria mais racional se o acesso ao ensino superior fosse independente da conclusão do ensino secundário. No dia em que isto acontecer, se algum dia vier a acontecer, talvez se comece a valorizar, definitivamente, o conhecimento e este é um problema crónico da sociedade portuguesa. Se um aluno sabe, significa que revela capacidade para resolver problemas, sejam eles cognitivos ou outros. Para lá chegar há muitos caminhos, o mais importante é que chegue e aí entra o engenho e arte de cada comunidade educativa.
    Quando se começa a baixar a fasquia, como bem argumenta Raquel Varela, a médio e longo prazo, o que se assiste é a um empobrecimento do sistema. No final, sairemos todos a perder. Olhando para a nossa história, em cada crise, lá se encontram quase sempre as mesmas “curvas perigosas” que nos levam ao desastre ou a dificuldades acrescidas. Como não acredito no destino e há outras sociedades que o conseguem, teremos que procurar outras explicações e soluções!

  4. A Raquel tem razão no diagnóstico, mas não explica a diminuição da exigência de ensinar e aprender no contexto da massificação, em que ter sucesso é um imperativo sem qualquer análise das condições sociais e culturais de base, que são determinantes nas expectativas dos alunos e das famílias. Quando um 16 era um 12, a escola era exigente com todos os alunos e as famílias aceitavam essa exigência e promoviam-na. Os que não a valorizavam não iam à escola, por isso estas comparações são profundamente demagógicas. Hoje, todos estão na escola e a pressão para o sucesso à medida da necessidade de cada aluno, sem que haja recursos para resolver os problemas a montante, trouxe-nos onde estamos hoje. Os exames faziam sentido no quadro da regulação de um ensino exigente e de qualidade para toda a população escolar, hoje, com uma escolaridade obrigatória de 12 anos, currículos desiguais, sucesso individualizado, percursos flexíveis e pouco exigentes, os exames tornaram-se um instrumento obsoleto, desigual e injusto. Por isso, têm sido criadas outras vias de acesso ao ES, introduzindo mais desigualdade e injustiça relativa.

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