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A Educação muda, mas nunca se transforma…

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Excelente artigo do Rui Cardoso ao jornal Público que coloca o dedo na ferida, as constantes mudanças na Educação que nada mudam a médio longo prazo.


A educação em Portugal está em mudança. Está em constante mudança. Longe vão os tempos em que se ensinava a cartilha. Hoje, o mundo muda de forma tão rápida que qualquer instituição tem dificuldade em acompanhá-lo. A escola não é excepção.

O problema da nossa escola reside na mudança que é necessária, de tão grande, não há quem tenha coragem de exercer essa mudança, por isso, fazem-se uns remendos… Debate-se a mudança, começa-se a mudança e, de repente, muda tudo, mas a educação não muda, porque o poder politico não tem, nem a força, nem o entendimento necessários para efectuar uma mudança consistente o suficiente para que prevaleça. E assim, continuamos a remendar uma educação com remanescências de tempos em que era uma espécie de cartilha.

A tão desejada e anunciada autonomia não passa disso mesmo, uma espécie de D. Sebastião que todos sabem morto, mas que todos esperam um dia surgir da neblina. Fala-se hoje de autonomia, como se falou outras vezes, com modelos que prometiam um salto quântico na educação. Todos eles falharam ou foram abandonados. As justificações que surgiram, apontavam sempre para a implementação de um modelo melhor, num currículo mais exigente, num maior sucesso dos alunos, numa melhor preparação para o futuro, mas acabaram sempre por ser abandonados e substituídos.

No meio de todas as mudanças levanta-se, ou deveria levantar-se, uma questão: Por que é que nenhum destes modelos traz os tão esperados e consensuais resultados que todos querem?

O poder político não se entende. Os modelos defendidos pelas ideologias políticas, que se alternam no poder, apenas convergem na percentagem de resultados positivos que almejam. Na sua alternância, vão fazendo uso de experimentalismos, mas como não permanecem em posição de decisão o tempo necessário para que a devida implementação de novos modelos se dê de forma consistente, os modelos caem por terra e são abandonados.

As mudanças que se tentaram realizar ao longo dos últimos anos foram idealizadas em gabinetes por pedagogos que de lá não saem há já algum tempo. A necessidade de um conhecimento do campo, do saber o que se passa fora dos gabinetes de decisão, o conhecimento da realidade das escolas, o conhecimento da nossa sociedade e forma de pensar, são essenciais para que se tracem modelos adequados a uma realidade nacional sem a uniformização com modelos usados por sociedades tão distintas da nossa.

A formação adequada de quem, nas escolas, vai aplicar os modelos, pensados por quem lá não está, é um imperativo. Nos últimos anos, tem-se assistido a uma campanha de formação docente que em pouco promove a inovação de práticas. Essa formação não trata dos modelos que se querem implementar, para que os aplicadores adquiram conhecimento suficiente, para que se sintam à vontade para o fazer, acabando, por passar o experimentalismo para a sala de aula, ou, simplesmente, a manutenção da prática adquirida ao longo dos tempos.

A necessidade de descer à terra antes de se subir aos céus torna-se o segredo de qualquer mudança em educação. É necessário envolver os docentes na mudança ou vota-se a mudança ao fracasso ainda antes de tentar implementá-la. E a fazê-lo, é necessário fazê-lo com cabeça, tronco e membros.

É necessário acender uma vela para não se abraçar a escuridão.

Rui Cardoso

1 COMMENT

  1. …uma manta retalhos! a solução está em chamar as pessoas certas, deixar para trás os seus currículos académicos, valorizando a sua prática! as chefias intermédias estão erradas: há diretores(as) que são professores que se confundem com gestores, acabando por não ser uma coisa nem outra!

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