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Educação Física… You’re out!

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Desde que Paulo Guinote aceitou o meu convite para fazer comentários às sondagens do ComRegras deixei de opinar sobre as ditas não só por respeito, mas também por reconhecer a excelência da sua análise. Porém, excecionalmente, por ser uma matéria tão presente no meu dia-a-dia, não posso deixar de opinar sobre os resultados da última sondagem – A disciplina de Educação Física deve contar para a média de acesso ao ensino superior?. Declaração de interesses, sou professor de Educação Física.

MédiaSetembro de 2005, reunião geral de professores, a diretora durante o seu discurso profere a seguinte afirmação “…só os professores de educação física é que não serão diretores de turma pois não têm perfil para isso…”, resposta de um colega de português “pois… é a malta das cambalhotas…”

Na altura fiquei entre o estupefacto e a vontade de perguntar de onde é que me conheciam para fazer esse juízo de valor? Foi o momento de maior preconceito a que assisti em toda a minha carreira docente, esse e o de ter de subir a nota para um aluno passar só porque tinha negativa à minha disciplina. Desde então, na mesma escola, fiz de tudo um pouco e já fui DT por mais do que uma vez… e que eu saiba continuo a ser professor de educação física…

Voltando à sondagem que mostra que mais de 70% dos votantes são favoráveis à (re)integração da disciplina de educação física na média de acesso ao ensino superior, deixa-me naturalmente satisfeito, pois verifico que a maioria pensa como eu.

Não vou cair na tentação de começar a medir a importância das disciplinas, pois se a conversa for por aí, cada um vestirá a sua camisola e estaremos perante um debate ao estilo “prolongamento” da TVI24 e esta coisa da minha ser melhor que a tua, não é lá muito digna para um espaço que é escrito por e para professores.

A razão pela qual a disciplina de educação física foi banida das contas da média de acesso é um mistério. Na altura, a justificação de Nuno Crato foi algo semelhante ao facto do iogurte não ter espinhas ou a trovoada que acontece num dia de céu limpo… Algo do género…

Concordo com Paulo Guinote quando diz que a média do 12º ano para efeitos de acesso ao Ensino Superior deve ser construída a partir de disciplinas relevantes para os cursos a que concorre o aluno. Este é um principio lógico e que qualquer pessoa entende a sua equidade. O que não faz sentido é a disciplina de educação física ter sido a única ostracizada para que um nicho de alunos não fosse prejudicado na sua média de acesso ao superior. E digo nicho, pois se forem constatar as pautas da vossa escola, irão verificar certamente que a disciplina que normalmente apresenta melhores resultados é a disciplina de educação física.

E de que nicho é que estamos a falar? Dos alunos que normalmente são excelentes a tudo, menos a educação física. Algo que também existe na versão light, mas esses que normalmente estão carregadinhos de negativas e só são bons a educação física, ninguém quer saber. São aqueles que vão baixar a média da escola, o que não dá muito jeito, pois num mundo onde a imagem é tudo, seja ela real ou artificial, a cosmética dos rankings conta muito, demasiado…

Mas até que ponto é que nos últimos 4 anos foi visível uma alteração às médias de acesso ao superior, em virtude do afastamento da disciplina de educação física? Evidentemente que não fiz nenhum estudo, mas se pegarmos no exemplo mais comum, como a média de acesso ao superior para medicina, podemos constatar que esta ficou dentro do padrão. E digam-me… ficou alguma vaga por ocupar? Claro que não! A diferença é que nestes 4 anos entraram para medicina excelentes estudantes e que provavelmente não têm muita apetência para a educação física. Nos anos anteriores entraram para medicina excelentes estudantes, mas que também eram excelentes/bons alunos a educação física. Se me perguntarem qual o médico que eu prefiro, digo o segundo. Porquê? Por que razão havia de escolher o primeiro???

Um erro crasso que continua a acontecer a quem não percebe nada de educação física é que baseia a sua opinião numa visão redutora da disciplina do pontapé para a frente, cambalhotas e afins. E esta imagem, tem que se dizer a verdade, está associada a um tempo onde a disciplina era dada ao estilo ATL. Mas caros amigos, eu que até tirei o curso das saltos e saltitos e até percebo alguma coisa disto, sei que a coisa não é bem assim… Eu até percebo que as pessoas não entendam, o que eu não percebo é o preconceito que existe pelos pais mas também pelos professores, demasiados professores…

Reparem, não é por ser professor de educação física que vou reduzir a matemática ao nível das contas de supermercado, ou o português ao nível da leitura das placas do mesmo supermercado. Todas as disciplinas, todas, e repito novamente, todas, são importantes na formação, intelectual, social e física do aluno, estamos a falar numa formação transversal realizada por um conjunto de disciplinas que articulam entre si de modo a dotar o aluno dos conhecimentos necessários para ingressar no mercado de trabalho ou seguir para o ensino superior.

Mas não acreditam? Vejamos um caso concreto:

Um aluno está a jogar basquetebol, em campo estão 10 jogadores, existe uma bola, existem linhas que delimitam o campo, existem “n” regras que é preciso conhecer, existem “y” variáveis que é preciso ter em conta: a trajetória da bola, os movimentos dos seus colegas de equipa; os movimentos dos seus adversários; a coordenação óculo-manual para dominar aquela coisa redonda e que não para quieta; o sentido do jogo; as inúmeras nuances tácticas ofensivas e defensivas; etc… Depois de tudo isto dominado, o aluno tem de tomar decisões, num curtíssimo espaço de tempo, tendo como premissas variáveis que estão sistematicamente a mudar. E podia passar o dia todo a dar exemplos…educação física

Já viram bem quantas luzinhas acendem no cérebro do aluno numa fração de segundo? Não será isto relevante para a sua capacidade de raciocínio, memória, análise, interpretação, adaptação, aplicação e sei lá mais o quê das suas capacidades intelectuais? Não é a disciplina de educação física fértil na assimilação dos princípios de  trabalho em grupo, respeito pelo parceiro, resiliência às dificuldades e ao insucesso? Não são estes princípios transversais a tantas e tantas profissões incluindo a nossa? Então por que razão não deve contar para a média de acesso ao ensino superior?

O problema está na premissa… Se educação física fosse facultativa não abria mais a boca, não estaria no mesmo patamar, agora se é uma disciplina de formação geral, esta não pode ficar de fora, pois tem tanto direito como as outras e é tão útil como as outras… A descrédito da disciplina de educação física e restantes disciplinas de expressões baseia-se num puro preconceito, por resumirem estas disciplinas a algo inferior e que não é útil nas suas profissões futuras. Se eu começasse para aqui a dizer a quantidade de matéria que aprendi e que hoje não utilizo, nunca mais me calava…

Fiquem bem e mexam-se um bocadinho 😉

P.S- E já agora, apenas uma correção… educação física não é ginástica… é mesmo educação física, ginástica é uma modalidade… Era a mesma coisa que eu chamasse à disciplina da matemática a disciplina da trigonometria ou a português a disciplina dos Lusíadas. Um pormaior…

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13 COMENTÁRIOS

    • Caro Paulo, a “ostracizada” é referente a contar para a média de acesso. Sobre o caso de Filosofia, eu sou defensor que todas as disciplinas tenham exame no final. Esta coisa de existirem disciplinas com e outras não, é mais uma prova da valorização e desvalorização das ditas.

  1. É a primeira vez que participo neste blogue , mas não consigo deixar de expressar a minha opinião pessoal sobre este assunto, que há muito me incomoda. Não sendo, nem de perto nem de longe, uma entendida no assunto, sou apenas uma simples professora que adora o seu trabalho (ensinar e ajudar os seus alunos a crescer) e o tenta fazer da forma mais honesta que é capaz, confesso que desde sempre (comecei há 29 anos) me fez muita confusão a diferença de tratamento feita por profissionais do ensino (não lhes chamo professores, pois, para mim, um professor que se sente como tal, jamais o faria) entre as disciplinas do currículo do aluno.
    Se não contam para “nota”, se “não entram na média”, se fazem “com que a escola baixe nos rankings), então para que integram o currículo? Não seria, então, mais coerente, optar por retirá-las do currículo?
    Confesso que sempre fui má aluna a Educação Física, mas isso apenas reforça a ideia de que não somos bons a tudo e que isso nos deve ensinar a gerir esse facto e não a fugir dele. A vida ensina-nos isso mesmo. Até isso nos ajuda a crescer enquanto pessoas.
    Então e os que têm boas notas a tudo menos a Matemática? Ou a Português? Ou a qualquer outra que não Educação Física?
    Por mais contestável (e admito que o seja para a grande maioria), pessoalmente, até defendo, não só, que o desenho curricular dos alunos deveria comportar muito mais tempo para a Educação Física, dada a sua natureza integradora de competências físicas, psicológicas, emocionais e sociais que nem todas as áreas do saber comportam como um todo, mas também (mais polémico ainda) que deveria haver exame a TODAS as disciplinas do currículo, nos finais de cada ciclo, elaborando-se um mecanismo de “dispensa” do mesmo em função dos bons resultados obtidos ao longo do ano/ciclo (Um “regresso ao passado” / “O saudosismo de outros tempos”, dirá a maioria dos se detiverem a ler este meu comentário). Pouco me importa! Chamem-lhe o que quiserem, mas onde trabalho, esse, ainda, é o que faz com que alguns alunos percebam que “andar na escola” também significa “aprender e adquirir conhecimento”. E o mais interessante disto tudo é que esses poucos até defendem o mesmo por quererem ir um pouco mais longe e provar que são capazes! Pela primeira vez, assisti, na minha escola, à revolta da maioria dos alunos do 9º ano por terem acabado com o Exame de Inglês (fosse ele do Cambridge ou qualquer outro). Este vai-vem ao sabor dos políticos,que o sector da educação vive há quase meio-século, já começa a cansar aqueles alunos que também se consideram com direito ao ensino público não medíocre e facilitista do “nivelar por baixo”, do “o que interessa é passar a qualquer custo”, da mediocridade.

    Resta-me a esperança que esta geração seja capaz de fazer o que a nossa só tem estragado.
    PS – Não sou professora de Educação Física.

    • Excelente resposta! Os meus parabéns pela brilhante análise, rara entre professores.
      A diferença entre um professor e um “profissional do ensino” como refere espelha-se bem na clarividência do texto.
      Contudo ainda vou mais longe na análise dos “profissionais”… serão mais reprodutores de preconceitos, com ausência muitas vezes de boas práticas de actividade física – com parcial ou total analfabetismo motor (sem julgamentos) – e/ou desconhecimento dos valores da disciplina, comprovados por imensos estudos científicos recentes acerca dos benefícios intelectuais da actividade física (basta pesquisar na internet). Também sou professora, e sim, de Educação Física, com muito orgulho no meu trabalho com os alunos. A experiência de mais de 20 anos deixa-me concluir que os melhores alunos a Educação Física são os que melhores classificações obtêm nas restantes disciplinas, com raríssimas excepções. E essas raríssimas excepções correspondem sempre e, curiosamente, a alunos cujos pais não valorizam a actividade física, nunca foram praticantes ou foram “maus” praticantes. Refiro-me a actividade física e não desporto ou modalidade desportiva/especialização. Esta aversão ao movimento muitas vezes é da responsabilidade de profissionais menos competentes que estiveram e ainda estão, como em todas as profissões, ao serviço, infelizmente. Quantos de nós não gostamos desta ou daquela área, não escolhemos esta ou aquela profissão porque tivemos melhores ou piores professores em determinadas disciplinas? Se trabalhássemos em conjunto não seria bem melhor para todos? Eu fui aluna da antiga área de saúde (actual CT) e mudei para Educação Física e Desporto porque me fazia confusão perceber de saúde só na teoria. Pensava que faria maior diferença profissional se entendesse na prática como fazer prevenção na saúde. Ainda não me arrependi. Adoro o que faço.
      Concordo plenamente com tudo o que diz. É necessário refundar a escola, com todos, sem preconceitos, em prol de melhores seres humanos.

    • Brilhante!
      Sou uma daquelas Professoras (e aqui distingo-me dos profissionais da educação) de Educação Física, que partilha em absoluto da sua opinião.

  2. Para mim, a decisão correta deveria ser deixada ao aluno. O aluno deveria escolher 2 disciplinas, das 3 que fazem parte da formação geral ( inglês, filosofia e educação física), para entrar na média de acesso ao ensino superior. Acabava-se com esta discussão que nunca terá acordo, porque depende do interesse, muitas vezes pessoal, de quem está à frente das decisões no momento.

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