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Educação: Entre O Luto E O Futuro

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Enquanto professor, seria muito cómodo para mim aproveitar este artigo para massacrar o Ministério da Educação e respetivo Governo, pela gestão desastrosa da recuperação do tempo de serviço docente. Independentemente do que foi feito e falta fazer, o Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues será para sempre lembrado como um inapto para o cargo, distante, incapaz de se impor no Governo de António Costa. A frase “defenderei radicalmente os professores”, sabemos agora, não passou de bluff de um infeliz soundbyte.

Os professores estão de luto, existe um sentimento de esgotamento emocional sem paralelo na recente história educativa. A indignação levou à resignação, fruto de uma luta contínua de mais de uma década. A saturação é total. Sindicatos e Ministério da Educação precisam de estabelecer pontes que iniciem um processo de recuperação da sua imagem, mas principalmente da alma de se ser professor. Estamos num momento decisivo e brevemente a falta de professores será algo regular e uma consequência direta de políticas educativas que de forma contínua desvalorizaram a docência.

Dói quando constatamos que um professor é agredido e da Tutela apenas temos um silêncio ensurdecedor, dói quando assistimos ao nosso Primeiro-Ministro criar uma crise política fictícia, ao mesmo tempo que atira milhões para a banca ou permite que o vencimento de juízes seja superior ao seu. Faltou critério e honestidade intelectual para com os professores, para com os portugueses e isso não irei esquecer e não estou preparado para perdoar tão cedo.

Agora que o mandato está a terminar, é importante olhar para trás e ter a capacidade de ser imparcial e reconhecer que este Ministério da Educação também fez coisas boas e que merecem ser realçadas, tais como: o fim dos abusos nos contratos de associação; a maior liberdade e autonomia dada às escolas; a permeabilidade entre os cursos profissionais e ensino regular; a gratuitidade de quase todos os manuais escolares; a redução do número de alunos por turma; a valorização da cidadania; uma maior igualdade entre as disciplinas, acabando com o “monopólio” da Matemática e Português; a redução da norma travão; a regulação dos intervalos do 1º ciclo; a eliminação da PACC e da Bolsa de Recrutamento; etc.

A marca maior é naturalmente a flexibilização curricular e a inclusão. Boas ideias, com bons princípios, mas a sua aplicação careceu de pilares essenciais para um sucesso consensual. Faltou acreditar que esta reforma era a verdadeira reforma, pois não existiu um compromisso entre os diferentes partidos políticos. Faltou formação (apesar dos 19 milhões de euros investidos) transversal e prática sobre a aplicação da flexibilização e inclusão. Permanecem as carências graves ao nível das condições dadas aos professores para a sua implementação, nomeadamente a falta de horas para o trabalho colaborativo e a falta de condições ao nível das infraestruturas. Faltou demasiado para um objetivo tão ambicioso.

Passados 4 anos, assistimos a uma mutação vincada na educação, onde a memorização, os resultados, os exames eram a essência do ensino, para agora constatarmos um sucesso constante – os alunos podem estar em diferentes níveis de aprendizagem e, apesar da escala de avaliação contemplar as negativas, ao estarem em desenvolvimento não podem ter qualquer negativa. O que agora interessa são os processos, os testes tornaram-se mesmo persona non grata e o sucesso é aquilo que se quiser, apesar da chapada de realidade que continuam a ser os exames nacionais.

Caímos num extremo, onde as pressões para certificarmos a incompetência estão bem presentes, onde o insucesso do aluno (quando este não cumpre com os seus deveres) é desculpado pela incapacidade do professor de implementar diferentes estratégias. Um verdadeiro absurdo e um caminho extremamente perigoso e com graves custos a médio prazo. Como se costuma dizer, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O sucesso depende do professor, mas depende e muito do aluno e, já agora, do seu encarregado de educação.

E agora, que futuro para a Educação?

É imperativo afastar qualquer ideia de facilitismo. É imperativo assumir o problema da indisciplina escolar e dotar as escolas que precisem de horas para a implementação de equipas multidisciplinares. É imperativo reduzir de forma drástica a burocracia escolar. É imperativo alterar o modelo de gestão, dando maior democracia às escolas, até para evitar a contaminação da municipalização escolar. É imperativo colocar os professores no centro das políticas educativas, em parceria com os seus alunos. Os professores não podem continuar a ser desvalorizados social e financeiramente. Batemos no fundo!

Por fim, e não menos importante, um pedido para os principais sindicatos e futuro Ministério da Educação. Não tornem as lutas políticas em lutas pessoais. Percebam que o país real precisa de seriedade, honestidade e transparência nos argumentos. Estamos todos fartos de política, é urgente haver educação na Educação!

Alexandre Henriques

Pai, professor do 3.º ciclo e do ensino secundário e autor do blogue ComRegras.

‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Fonte: Observador

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3 COMENTÁRIOS

  1. Estamos todos é farto de não haver política, mas sim muita politiquice. Este sítio é um bom exemplo duma boa acção política dando voz aos diversos pensamentos e “provocando” a discussão que, como vemos, é diversificada e tem muitos caminhos. Tenhamos cuidado para, na nossa frustração, não generalizar , não vulgarizar, não tornar todos iguais.

    Letrée

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