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Educação, De Quem É A Responsabilidade?

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Nos dias de hoje, o discurso sobre Educação parece assentar, apenas, na ideia que a geração, que se encontra em idade escolar, sofreu uma espécie de “transformação genética”, que os professores que os ensinam estão ultrapassados no tempo, e aparentemente não estão munidos de competências suficientes para a realidade futurista que muitos apregoam e ninguém sabe como efetivamente será. Na ausência de um debate nacional concertado que culmine numa estratégia coerente a longo prazo, proliferam os estudos e opiniões, radicalizam-se posições, criam-se falsas questões, promove-se a discórdia, desvirtua-se o bom senso e as crianças e jovens não passam de cobaias no mundo confuso dos adultos. No entanto, os problemas reais da educação persistem, disfarçados através de operações de cosmética, e as generalizações e acusações sobre quem recai a responsabilidade pouco ou nada ajudam na sua resolução.

Se conseguirmos libertarmo-nos dos sentimentos de frustração, de impotência e desilusão e olharmos para a Escola com objetividade e seriedade, facilmente conseguimos reconhecer que a mesma melhorou, significativamente, em muitos aspetos, que muitos dos seus profissionais, mesmo perante a adversidade, se desdobram em esforço para conseguir responder às inúmeras solicitações diárias dos seus alunos e à complexidade dos desafios que significa hoje educar, e que, felizmente, ainda temos crianças com vontade de aprender e pais que compreendem a importância da escola e da aprendizagem na formação dos seus filhos. Porém, embora não partilhe da visão apocalíptica do estado da escola pública de alguns, não significa que não concorde que muitos dos problemas reais das escolas, para os quais não existem medidas efetivas de resolução, não estejam a contribuir para a degradação do estado da mesma. Não basta flexibilizar e implementar medidas que resolvam as estatísticas, nem assumir que a responsabilidade de encontrar soluções é da exclusiva competência da tutela. Uma Escola Pública de qualidade requer um trabalho conjunto.

Os pais, independentemente das suas circunstâncias pessoais, têm de ter consciência que a escola não tem o dever de os substituir no seu papel de educadores. Não lhes é pedido que entendam a política educativa ou que saibam ensinar aos seus filhos os conteúdos das diferentes disciplinas, mas que prestem atenção à sua alimentação, higiene, às horas de descanso, como passam o tempo livre, se cumprem um horário de estudo, ou se têm material escolar. Como são os primeiros responsáveis pelos seus filhos cabe-lhes refletir qual o futuro que querem para eles e o que está ao seu alcance fazer. Devem assumir as consequências da forma como os educam e como isso afeta não só o seu crescimento, como quem serão na vida adulta. Como a educação não é uma ciência exata, em vez de se pautarem pelo protecionismo em excesso ou pela alienação das suas funções educativas, talvez vissem como um ganho adicional o trabalho em conjunto com todos aqueles que cuidam diariamente dos seus filhos, deixando de lado o discurso e a conduta de desrespeito e de desvalorização.

A tutela tendo a responsabilidade de uma área tão importante para o desenvolvimento da Nação, precisa de ter consciência que as mudanças não se fazem por decretos, entrevistas jornalísticas, vendas de livros ou copiando políticas educativas de outros países com realidades distintas. Criar espaços de trabalho de projeto, permitir a criação de disciplinas, distribuir manuais gratuitos ou tablets não são medidas, por si só, suficientes para resolver problemas, como a escola a tempo inteiro, a indisciplina, a violência escolar, o absentismo, a exclusão e promover o direito constitucional de cada criança a uma educação de qualidade. Também não basta discursar sobre inclusão, sem assegurar as necessidades específicas das crianças e jovens ou obstaculizar os processos com manuais e burocracia. Tentar encurtar as desvantagens de todas as crianças que são provenientes de contextos socioeconómicos desfavorecidos não se faz através do alargamento de modelos TEIP, com a prioridade de escolha de escola, comprometendo a equidade no acesso ao ensino superior, e muito menos através de uma política sem responsabilização e exigência de contrapartidas face a todos os benefícios com os quais são contemplados. Ter a intenção de mudar o sistema educativo e reiterar de forma continuada um discurso de desvalorização, usando os profissionais como arma de arremesso em discursos eleitoralistas, continuando a ignorar as suas condições de trabalho, o desgaste, o envelhecimento, a precariedade, e usar a estratégia de dividir para reinar, para além de ser incoerente e sinal de arrogância intelectual, é não ter consciência do perigo que isso constitui para o futuro da educação em Portugal.

Os professores, como uma classe com formação e sendo em número significativo, precisam de interiorizar que estão numa posição que lhes permite promover a melhoria não só da educação, como da sua situação profissional. O estado permanente de vitimização, o tom acusatório, as ameaças veladas não resolvem coisa alguma. Embora numa primeira análise, a ideia que passa é que a classe não tem capacidade para se reerguer, a verdade é que, ou se desiste ou se assume a quota-parte de responsabilidade, revertendo a situação e encontrando soluções para todos os problemas com os quais nos confrontamos todos os dias. É irritante, é frustrante e até injusto tudo aquilo que se escreve e diz acerca dos professores, mas continuar a investir no contraditório não tem sido suficiente. A sociedade em geral vive da informação publicada, da sua experiência de escola ou das conversas que os filhos fazem em casa. Dizer-lhes que a culpa é da banca, falar-lhes de fundo de resolução, apresentar contas, pouco ou nada lhes diz. O que eles sabem e sentiram na pele foi o peso da austeridade. A carreira dos professores não lhes interessa e em comparação, ganham melhor e descansam mais vezes ao ano. Se juntarmos isso à propaganda do discurso do medo de um novo período de austeridade, onde o governo usa a classe e a restante função pública, como o rosto daqueles que com as suas reivindicações, podem prejudicar o país, não há argumento que resista. São precisas novas soluções. A classe tem de repensar se há vantagem em ter 24 sindicatos, se faz sentido deixar-se dividir e defender soluções que aumentam as desigualdades, se não tem uma palavra a dizer perante a arrogância e prepotência de alguns diretores, se é normal o clima de medo ou a retaliação, se vão continuar a permitir o atentado à integridade física e psicológica dos professores, alunos e funcionários, se vão continuar a pactuar com a falta de equidade na distribuição do serviço docente, a ser escravos da crescente burocratização e do grupo de iluminados dentro das escolas e por aí adiante.

Pais, professores e Ministério da Educação são os responsáveis diretos do estado da Educação. As crianças e os jovens são o que os adultos lhes permitem ser.

Cassilda Coimbra

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