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Educação Compassiva: A Grande Mudança

A vida tem cor pelo que chegar ao local de trabalho e ver ou sentir tudo a preto e branco é um desalento. Os alunos são diferentes, como qualquer ser humano: alegres, resmungões, teimosos, desafiantes, reservados, etc. Dão à sala de aula a sua cor em tons diferentes e concordantes entre si.

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O novo ano letivo a chegar e com ele mudanças, novidades, esperanças de transformação. A entrada de novas medidas no ensino para que se adeque cada vez mais às exigências da sociedade virtual e dos próprios alunos que a vivenciam é necessária. Mas será suficiente?

Numa sociedade desenhada para ser imediata em tudo, o tempo disponibilizado para o Eu é inexistente, pelo que palavras como compaixão ou compassivo serão estranhas para a maioria e dificilmente integradas no dia a dia.

Poderíamos analisar a palavra compaixão de duas formas no que concerne à educação. Por um lado, o dever de ensino desempenhado Com Paixão e por outro a Compaixão – estar no lugar do outro. No entanto, se aprofundarmos o tema, ambas estão relacionadas entre si. Ser educador por Paixão alimenta a Compaixão que se sente pelo aluno. O empenho com que o professor desempenha a sua atividade torna-se cativante ao captar o aluno no seu âmago. Este dever exercido Com Paixão e com Compaixão transporta-nos para um caminho de ensino vasto e diferente: a educação adaptada ao aluno e jamais o aluno espartilhado na educação. A imagem que se transmite ao aluno quando o dever é apaixonado faz com que, também, este queira no futuro seguir o exemplo do adulto que o educa. Todos nos recordamos muito bem de professores que nos marcaram de forma positiva para toda a vida e ainda hoje nos revemos neles em determinadas atitudes e saberes. Amar o que se faz seja em que área for é uma das bases do ser compassivo.

Na educação a compaixão deveria ser trabalhada antes de todas as medidas que se possam implementar. Jamais refiro a compaixão unilateral, pois se o professor pode ser compassivo para com os seus múltiplos alunos, também é dever do aluno ser compassivo para com o professor e perceber que por detrás daquela pessoa existe uma história de vida. Mas este ensino deve vir do seio familiar. Pelo exemplo o professor pode e deve demonstrar a importância da compaixão, mas a família estabelece as bases educativas.

O dever profissional exercido Com Paixão ensina-se pelo exemplo, é uma forma simples de educação: transmite felicidade, tranquilidade e harmonia por mais desgastante que seja ter uma sala de trinta alunos cada um com as suas diferenças que tornam a sala tão colorida visual e auditivamente… a paixão pelo que se faz arrasta consigo a massa humana. Lidera e com isso ensina e educa. Assim, também é no mundo empresarial, ou pelo menos deveria ser.

A vida tem cor pelo que chegar ao local de trabalho e ver ou sentir tudo a preto e branco é um desalento. Os alunos são diferentes, como qualquer ser humano: alegres, resmungões, teimosos, desafiantes, reservados, etc. Dão à sala de aula a sua cor em tons diferentes e concordantes entre si. Nenhum está fora do grupo porque é a cor que faz o professor ver e sentir com compaixão cada um deles.

Atingir este estado compassivo, onde já existem estudos, exige disciplina e capacidade de separar o “trigo do joio”. Isto significa que o julgamento do outro separa-se daquilo que realmente vejo nele. Assim pode ser a educação. Somos humanos e com todo o direito julgamos a todo o momento, mas o segredo está em deixar ir o julgamento e passar à frente. Ser compassivo não quer dizer que sejamos passivos e permissivos. A educação compassiva é revestida da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, despidos nossos valores e crenças. Uma situação no mínimo desafiante, mas possível.

Podemos considerar que o ser compassivo na educação é uma capacidade essencial para uma boa socialização, ultrapassando todas as mudanças que se pretendam para o ensino, sejam elas de caracter temporal na divisão do ano letivo, quer sejam nos contornos que se dão à disciplina para que seja mais apelativa e cada vez mais influenciada pela participação do aluno. Desempenhar funções profissionais Com Paixão e com Compaixão é algo que é individual e que vem de dentro para fora daquilo que somos. Trabalhar as emoções, tranquilidade e compreensão dos profissionais de educação e dos próprios alunos contribuirá com toda a certeza para as milhentas mudanças que se pretendem para o ensino e que o mesmo merece. A casa jamais se começa a construir pelo telhado, sem alicerces internos cai!

É verdade que podemos desempenhar todo o papel de educador sem compaixão, mas provavelmente será sempre dotado de julgamento persistente, falta de compreensão levando muitas vezes a situações de bullying ou mobbing.

A educação compassiva através de um ensino apaixonado torna-se num mundo de ações em cadeia onde o aluno de forma inata repete.

É extremamente importante a mudança na educação, mas enquanto não vier do interior humano onde existe a criatividade, humanidade e vontade, a comunidade educativa continuará simplesmente a cumprir o que lhe é imposto sem espaço para respirar, espartilhando o que é e deve ser educar.

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

7 COMMENTS

  1. Serei isto tudo e mais o que qerem e dizem que devo ser – Compassivo, Com Paixão, flexível, mentor, monitor, activo, atento, cheio de mindfulness e de zen.

    Mas já me vai faltando a paciência para tudo isto.

    Os psicólogos e pediatras e todos os psis deviam fazer um estágio de 1 ano a ensinar, dar aulas, educar, o que quiserem. Um ano, com 6 ou 7 turmas de 28 a 30 alunos cada.

    Depois, se a inteligência emocional aguentar tudo isto, fazemos um balanço a sério da experiência.

    • Tranquila Ana. Isto é para todos, pois todos somos educadores. Também lido diariamente com muitassssss famílias e tenho que gerir muiitassss emoções – intenso no mínimo. Escrevo por compaixão e respeito pelo Vosso trabalho/dever. Desejo-lhe um excelente ano letivo. Devemos trabalhar em equipa. Grata pela sua excelente resposta.

  2. Como pai agrada-me bastante a resposta da Sra professora, uma vez que demonstra no início do ano lectivo à exaustão em que se encontram.
    Sou compassivo na educação com os meus filhos e por esse motivo encontro me disponível para apoiar a comunidade educativa.

  3. Estive a ler e certamente como antiga aluna, digo que existe mesmo professores e professores, há aqueles que conseguem nos cativar até os alunos adolescentes mais complicados e que odeiam as salas de aula e tudo o que incluía o nome escola, conseguem ser cativados, existe professores que conseguem plantar uma plantinha de curiosidade na mente dos alunos que leva ao interesse dos alunos, os métodos de ensino não são todos iguais e este tipo de professores não são instruídos nas universidades com este “dom” é algo que nasce com eles, essa paixão, paixão essa que conseguem compartilhar para despertar o interesse, mostrar que a escola não é só decorar matérias e fazer testes para saber se quanta dessa informação dada foi retida, tudo fica retido na nossa memória mais facilmente quando houve aquela curiosidade, aquele interesse em saber mais e mais e não só engolir montanhas de informação mas processar ela pensando por um segundo. Até matemática quando é ensinado por professores com métodos excepcionais de ensino e amor a profissão, os alunos estão mais dispostos a receber o que lhes é para ser ensinado, até chegando a uma parte que a matemática torna se uma brincadeira, porque tudo começa se a tornar tão simples de entender e o aluno começa a ganhar o gosto e querer aprender mais e mais e gostar de novos desafios na sala de aula.

    • Como professora, o meu ponto forte é o de criar, desde cedo, um relacionamento cordial com os meus alunos, usando toda a experiência e empatia que que me foram moldando.

      Sentem-se à vontade para questionarem e para se questionarem. A única barreira é o respeito pelos outros e por si próprios.

      E, mesmo assim, Nenhum professor consegue motivar Todos os seus alunos. Já cheguei a esta conclusão há muito tempo. É impossível.

      Adiante. Mesmo sabendo a empatia que tenho (sem qualquer modéstia), o saber ouvir e escutar, o rir de uma anedota, o contar uma anedota, o cantar e outras coisas divertidas , há algo que recuso – o encarar a minha profissão como uma Paixão ou uma Missão.

      Recuso estas ideias. Sou professora, sou profissional. Não me colem Paixões nem Missões.
      A minha paixão são os meus filhos e a minha missão foi educá-los para se tornarem jovens adultos comunicativos, educados e responsáveis.

      Se isto parece chocante? Paciência.

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