Início Rubricas É uma Medida Universal e umas quantas Adicionais se faz favor.

É uma Medida Universal e umas quantas Adicionais se faz favor.

1583
0

 

Ouvi, recentemente, uma frase em pleno Conselho de Turma, daquelas que nos fazem soar toda uma orquestra, mas em mau (quando tudo desafina); daquelas que nos fazem juntar todo um vernáculo em ebulição; daquelas nos fazem esquecer a teoria da mente; daquelas que me fariam encher toda uma página de comparações deste género.

Falava eu sobre a importância (já eu própria me canso de repetir) de estabelecer uma relação com os alunos e em especial com aquele aluno específico, para no final ouvir. “Mas era o que mais me faltava agora ter de estabelecer uma relação com os alunos”.

Se estivéssemos num sketch humorístico esta teria sido uma tirada de mestre. Chamaria “os novos rebeldes da Inclusão”, aqueles que já não suportando a palavra e o conceito inclusão se revoltam “agredindo” os arautos da defesa dos meninos, da defesa de todos juntos na mesma sala. Esses chatos pá!

 

Olhei por momentos à minha volta certificando-me de que todos teríamos ouvido o mesmo, não tivesse eu imaginado. Não. Todos ouvimos o mesmo. Mantive o tom calmo, embora tivesse algumas palavras e expressões que teimavam em saltar. Indaguei que, naturalmente, cada um é livre de fazer o que entender e que o meu papel é dar a conhecer o aluno, formas de interação que podem resultar e ajudar e que em última instância são os nossos limites e o nosso perfil que determinam o sucesso dos alunos, mesmo que muitos estratégias passem, por vezes, de dar um murro na mesa, de deixar cair, de sermos pontualmente indiferentes, mas demonstrando sempre investimento.

 

Confesso que eu própria estou cansada da palavra inclusão. De tão óbvio que é, que deve ser, esgotamos e desgastamos a palavra às vezes com demasiado colo e com demasiado paternalismo enviesando o seu sentido. E de cada vez que não resulta da maneira que a entendemos, que soa em nós, revoltamo-nos contra o governo; contra a legislação; contra os professores que a apregoam; contra os alunos; contra os pais, mas no fundo apenas contra nós próprios. O colocarmo-nos em causa, a nossa honestidade intelectual ainda é uma ferida demasiado dolorosa para deixar exposta.

 

Quero saber pouco de Inclusão, daquela Inclusão decretada, quero saber mais de empatia, de relação, de boa gente, de gente que mede sensibilidades, que se coloca no papel do outro, bem resolvidas. Gente que sem decretos, sem esgotar palavras de forma regular, refletem, aprendem, constroem e constroem-se mutuamente, que não interpretam uma observação como um ataque pessoal, que não se perdem em conversas sobre pessoas, mas que se perdem em conversas sobre ideias (aquele frase que fica sempre bonita mas que é tão verdade).

 

Depois da tempestade e do choque da frase, depois de refletir e de relativizar só podemos, sem qualquer tipo de condescendência, perceber que em todos os meios e também no meio educativo há gente doente. Há boa gente, muito boa gente, mas com medo, fragilizada, vulnerável, pessoas sozinhas, com desafios diários gigantes que lhes exigem ser super-mulheres e super-homens. E quando tudo é demais e com reflexos de exigência e obrigatoriedade, a nossa essência é contaminada e a “Inclusão” um peso.

 

Há medidas universais que ainda precisam de muitas medidas adicionais para serem um estado.

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here