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E Quando Os Pais “Despejam” Os Filhos Doentes Nas Escolas…

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O texto que se segue é de extrema pertinência e importância. Ao cuidado principalmente das associações de pais, diretores de turma, professores titulares e educadores, que devem alertar (se ainda não o fazem) e “chatear” os pais sobre este tipo de situações.

Lembro que a negligência é punível e se não nos cabe a nós apurar responsabilidades, cabe-nos, enquanto sociedade, alertar e prevenir este tipo de situações.


Estive doente em casa! Tomei o remédio cor de laranja, mas vim à escola!

A febre, esse maldito estado, que faz com que os pequenos fiquem prostrados, sem vontade de se mexerem, sem vontade de estarem na escola  e que a todos atinge.
De manhã, é dado o recado: “Passou bem a noite, está tudo bem!”. Com o passar do dia, ou logo pela manhã, vamos verificando no olhar, nas atitudes, que algo se passa.
Já os conhecemos, minimamente, para reconhecer que algo se passa.
Ao longo do dia, pocuram-nos para os abraçar, para se aninharem a nós, ou, simplesmente, para se agarrarem às nossas pernas. Além de momentos de afeto, procuram chamar-nos a atenção para o seu estado, tentam mostrar-nos que algo não está bem. O nosso instinto, o nosso conhecimento acerca do grupo, acerca de cada criança, já nos permitiu tirar algumas conclusões: não estão mesmo bem…
Os pais deixaram os filhos na escola logo pela manhã e, sem referir, sequer, que a criança não passou bem a noite, seguem o caminho como se nada fosse.
À medida que o tempo passa, o estado de prostração aumenta, e as outrora crianças agitadas e mexidas, tornam-se verdadeiras estátuas, ou preguiças, que ao invés de se agarrarem aos troncos das árvores, insistem em não nos largar as pernas, em não deixar livres os colos, que tanto conforto lhes proporciona.
Mais um abraço, seguido de uma festinha na cara. Está quente… Aliás, mais quente.
Mede-se a temperatura e confirma-se: tem febre.
Antes mesmo de ligar aos pais, pergunta-se: “Tomaste algum remédio em casa? A mãe ou o pai deram-te remédio?”
A resposta é clara: “Estive doente em casa! Tomei o remédio cor de laranja, mas vim à escola”
Tendo em conta o estado da criança, torna-se evidente que o seu mau estar não surgiu agora, não surgiu apenas na escola, torna-se claro que em casa já não estava bem. Com receio de que a criança tenha de ficar em casa, muitos são os pais que administram medicação, e se “esquecem” de dar esse recado, que por si só, assume uma importância extrema.
Ora vejamos, em caso de não serem atendidas as chamadas, os educadores, auxiliares, têm autorização para administrar paracetamol. Mas, tendo sido omitida e, não tendo sido atendida ou retribuída qualquer chamada, é dada nova dosagem na escola. Corremos o risco de existir sobredosagem.
E, em situação de sobredosagem, em situação de hospitalização, de quem será a culpa?
Fala-se, ou utiliza-se o termo de negligência…
Ao confrontar os pais com tal situação, apenas referem, “Ela esteve bem em casa.”. De facto, poderá ter estado bem, mas é importante que se perceba, as crianças falam e, de forma bem descritiva, contam o que fizeram ou de como estiveram em casa.
Agrava-se, em situações com crianças mais pequenas, em que, a linguagem ainda não está desenvolvida e, de um modo tão simples, com ausência de comunicação, se sujeitam as crianças a um estado de risco bastante sério.
Que preocupação temos quando se omite uma informação tão importante para os cuidadores diários dos filhos?
A preocupação, de quem tem a cargo um grupo de crianças é apenas uma: que a febre passe depressa e que as crianças possam ir à escola quando estiverem bem. Mas, infelizmente, e condicionados por responsabilidades  sociais e familiares, não se importam se é viral ou não, importam-se, apenas, que os filhos vão à escola, mesmo não estando bem.
Onde está a noção de grupo? De que forma imprimimos o conceito de sociedade, quando a preocupação se centra apenas numa criança, ou neste caso, nos pais?
Sim, é verdade, não se preocupam com a saúde geral do grupo, mas nós, educadores, preocupamo-nos. Não temos apenas uma criança a nosso cargo, temos 25, com reações diferentes, e nós, detetamos cada alteração de comportamento, cada olhar “vidrado”, cada sinal de prostração.
Por aconselhamento, apenas se refere, tome conta do seu filho, preze o seu bem-estar, porque nós prezamos pelo bem estar de 25, ao mesmo tempo. E, damos o nosso melhor, acredite!
Há atitudes que se têm, que não são aos educadores, ou auxiliares, que estão a afetar, mas aos próprios filhos. Os educadores fazem questão que o grupo esteja completo e que, todo o grupo aproveite as oportunidades diárias como forma de crescimento, desenvolvimento, aprendizagem e partilha.
Por vezes, olham para nós apenas como meros cuidadores, como alguém que não tem conhecimento suficiente relativo aos seus filhos, como alguém fácil de enganar! Como forma de omissão de estados físicos das crianças, a solução passa, na maioria das vezes por administrar medicação, seja ela necessária ou não.
Quantas vezes, ao mínimo sinal, se pede, encarecidamente ou obrigatoriamente, que seja administrado um medicamento? Quantas vezes se tornam os educadores e auxiliares em administradores de medicamentos de “prescrições” intuitivas parentais, de medicamentos que “havia lá em casa”?
“É só mesmo para prevenção!”
 Abençoado seja o paracetamol, a prevenção e a cura de todas as maleitas!
Quantas justificações ouvimos: apanhou na escola, foi na sala que ficou com febre, é do ar que respiram, é de andarem na rua, o termómetro da escola está avariado… Justificações, para quê? Estão doentes, só isso importa… Queremo-los bem, vocês, pais, não?
É, de facto, um tema que merece cuidado, na forma como se poderá olhar para o que está escrito. Mas, apenas se reflete na preocupação destes profissionais, não das guerras que se criam em prol do bem-estar dos mais pequenos.
Sabemos que, se as crianças ficarem em casa afeta, sem medida, a vida profissional dos pais, mas mais do que isso, afeta a vida pessoal da família, a confiança, o conforto e bem-estar das famílias. As sementes que semeamos hoje, produzirão os frutos que colheremos amanhã.  Como tal, se nos empenharmos em cuidar hoje, colheremos o maior respeito por quem se cuida.
É somente um pedido de atenção, um olhar atento para as atitudes, para as situações a que, tantas vezes, deixam as crianças sujeitas. As crianças também ficam doentes, as crianças também necessitam de cuidados quando não estão bem.
É importante, ainda, referir que, por vezes, também existem profissionais que se assumem uma atitude bastante ansiosa, no sentido de verificar, a todo o custo, qualquer sintoma, para que os possam enviar para casa, infelizmente, também é uma verdade.
O desafio é apenas um, quer sejamos educadores, pais, auxiliares, devemos revelar a maior preocupação pelo bem-estar das crianças, permitir que estejam bem e despertas para o que se vai fazer em sala. E não, simplesmente, pedir para que o filho não saia à rua, quando todo o grupo irá sair, impedindo, assim, que todo o grupo saia, Falava-se da noção de sociedade, este é um exemplo claro da não perceção do real significado da palavra. Tomadas de consciência,… só, e apenas isso.
É, ainda, importante referir que, felizmente, existem pais, famílias, educadores, auxiliares que se preocupam com o bem-estar das crianças, dos seus filhos. Apesar de serem comportamentos recorrentes de acontecer, existem boas práticas, pais preocupados, em que, o bem-estar dos filhos está acima de tudo.
Desafiem-se a conhecer a noção de grupo, a viver em sociedade. Se educamos crianças para o egoísmo, tornamo-los adultos narcisistas, egocêntricos.
Rui
Fonte: Blog “Uma Caixa Cheia de Nada”, 20 de janeiro de 2019
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