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Doutoramento, Esse Animal Que Nos Consome – André M. M. Silva

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No dia em que a minha mãe entrou em coma profundo e irrecuperável liguei à Fundação para a Ciência e Tecnologia que me financiava o doutoramento. Encontrava-me na sua fase final, pontuada por ansiedade extrema em que a iminência da submissão da tese teria sido o suficiente para me esgotar emocional e fisicamente. Explico a situação a quem me atende. Peço um tempo para lidar com a dor e com a mudança. Do lado de lá ouço: “Não é possível, só se o familiar fosse seu filho. Mas consideremos que não nos contactou. Como não está a trabalhar, a bolsa deveria ser suspensa!”.

Fui o primeiro da minha família a frequentar o ensino superior. Tive uma infância relativamente normal e cedo me revelei uma criança curiosa. Obter um doutoramento parecia longínquo mas após a licenciatura e o mestrado eventualmente candidatei-me a doutoramento, entrando no que desejava. Sentia-me feliz, mas as propinas de 2 750 euros anuais, juntamente com os custos de estudante deslocado, traziam consigo ansiedade e responsabilidade.

Durante o primeiro ano, cheio de energia e ingenuidade, tentei garantir financiamento para o ano seguinte, algo extremamente competitivo. Não consegui. Até as estatísticas estavam contra mim: dois anos antes de ter ingressado no doutoramento, um estudo concluíra que 50% dos alunos de doutoramento nunca o acabam. Os factores envolvem os próprios alunos, relações com orientadores, a própria universidade e o seu ambiente. Com o tempo perdi a motivação que tinha. Era esperado que trabalhássemos muito mais horas que o saudável e que levássemos trabalho para casa, sempre. A falta de apoio que sentia na minha orientação e posteriormente a relação tóxica que daí emergiu, a terrível cultura institucional de considerar um doutorando um número, um fardo, descartável e despersonalizado, e a desconfiança com que nos fitavam quando mencionávamos os nossos hobbies e quando tirávamos pausas, fazia-nos sorrir tristemente por sabermos que precisávamos combater aquela cultura sabendo também que não iríamos conseguir.

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