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Dores

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A madrugada chuvosa e macilenta de Domingo apanha-a encostada à janela da cozinha, uma caneca de chá nas mãos geladas, o barrigão encostado ao parapeito frio, as cruzes a latejarem de dor. A tábua de passar está montada no meio da marquise, pilhas de roupa simétricas e meticulosamente dobradas ocupam toda a mesa da cozinha, há ainda uma imensa torre desalinhada no açafate cor de laranja.

mulher grávidaA chuva persiste há um par de dias, as gotas pesadas e constantes a tamborilarem-lhe no ânimo, aquela moinha paulatinamente a crescer-lhe nas costas e a espalhar-se-lhe pelo corpo como uma trepadeira. Há duas noites que não dorme de jeito, que se incomoda com o mais leve voltear dos braços, que lhe parece ter o corpo desencaixado na dobra da cintura que já não tem.

Um gemido cavo desperta-a da dormência e fá-la atravessar a cozinha em direcção à sala, naquele andar desengonçado de pato anafado. O homem afunda-se no sofá, soterrado por cobertores revoltos, o nariz inchado e vermelho, a contrastar com a tez macilenta. Debruça-se pesadamente sobre ele e toca-lhe no braço com suavidade. “Zé”, murmura-lhe: “isto não passa de hoje, Zé, estou a ficar cheia de dores.”

“Estou a sentir-me tão mal, querida… acho que tenho febre”, queixou-se com voz fanhosa. “Ora vê lá, põe aqui a mão, não achas que tenho febre?” Inclina-se um pouco mais para lhe tomar o calor da testa, mas uma dor fina e maldosa ferra-lhe nos rins e obriga-a a amparar-se no braço do sofá. “Sim, estás um bocadinho quente… mas olha, acho que vais ter mesmo de levantar-te.”

“Ai querida, havia de tirar a febre, estou a sentir-me tão doente… podes chegar-me o termómetro, por favor?”, choraminga, os olhos a lacrimejar.  A ‘querida’ respira fundo, a tentar controlar a ansiedade que lhe entope a garganta, as dores a alfinetarem-lhe as costas, passinhos cautelosos e bamboleantes a caminho do armário dos medicamentos.

“Vês? Vês? Eu bem te disse: trinta e oito e dois! Ai que me sinto tão quebrado!”

Apoia-se nas costas da cadeira, as guinadas intensas a roubarem-lhe o fôlego, pequenas pérolas de transpiração a brilhar na testa, a humidade do suor a colar-se-lhe à pele, como se uma chuva quente a inundasse. Olha para baixo e apercebe-se da natureza do dilúvio: “ó Zé, vamos, depressa, rebentaram-se as águas!”

O Zé levanta a cabeça do sofá, atarantado e ranhoso. Ergue-se lentamente e cambaleia, derreado pelos trinta e oito (ponto dois) graus de febre. “Não consigo, querida. Mal consigo mexer-me, quanto mais conduzir!”, lamenta-se, os braços levantados em prece indignada: “olha o que havia de me acontecer!” E perante o olhar recriminador dela, dobrada sobre si própria, a alternar o peso do corpo redondo e dorido entre uma e outra perna, os chinelos encharcados a chapinhar, as sobrancelhas acusatória e furiosamente levantadas, ainda remata: “ó querida, desculpa lá, não olhes assim para mim, então eu tenho alguma culpa de estar doente? Não és só tu que estás a sofrer, ok? Um bocadinho de compreensão, não?!”

A ambulância é um modelo antigo e pouco espaçoso. Ao lado da maca encaixam-se alguns aparelhos médicos e uma pequena cadeira de mola de onde o bombeiro encorpado monitoriza o estado da paciente. À frente, no banco contíguo ao do condutor, o Zé vai oscilando ao sabor dos balanços da condução, mole, enrolado num cobertor, cabeça encostada ao vidro.

A porta da urgência abre-se assim que a ambulância se imobiliza no átrio. Os bombeiros abrem rapidamente as portas e fazem deslizar a maca com a celeridade que se impõe. Ela ainda tem tempo de se erguer e chamar, atordoada e atónita: “Zé?! Ó Zé, então?!” Ainda o vê, embrulhado e a dormitar, encostado ao vidro. Depois, a porta fecha-se atrás dela e uma contracção golpeia-a à má-fila, forçando-lhe um grito. Agora sim, vão começar as dores a sério. Talvez assim ela venha a dar valor ao sofrimento de um homem com febre.

MC

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