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O Dom da Palavra!

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“Uma palavra que não representa uma idéia é uma coisa morta, da mesma forma que uma idéia não incorporada em palavras não passa de uma sombra.” – Lev Vygotsky

É através deste maniqueísmo que assentamos a história, registamos a memória e construímos o ideário  civilizacional. Não descuidando outras formas de comunicação, é através da palavra que o presente acelera e se precipita face a um perigoso desconhecido novo mundo de ideias dispersas, vagas e desconexas. Vejamos, com o advento das redes sociais chegou o primado do imediato, disruptivo e pseudo-chocante. Importa é regurgitar qualquer coisa para consumo imediato antes que o feed dissipe a novidade e passe a ser obsoleto, fatia de uma pizza de informação já em avançada decomposição. O mesmo acontece com os jornais. Quem não se lembra de expressão “ler as gordas”? O jornal e a revista do dia anterior já não interessa, pois é como o comboio, já passou! Não existe hoje em dia, não o tempo, mas a ocupação do tempo para a profundidade, assimilação, crítica e sedimentação da informação. A degustação de um livro passa a um fast-food de informações. Satisfaz momentaneamente, embora não alimente. Aliás, passado algum tempo temos fome. A ingestão de informação não sacia o conhecimento. A culpa? A da brevidade, talvez! Tive o desprazer desta sensação quando comecei a utilizar o twitter. Passado pouco tempo, abandonei. Nem sequer para ler. Ler? Acompanhar, quero dizer! A leitura molda a mente e as parcas palavras levam ao parco pensamento. Por alguma razão os romances são grandes. As ideias vão-se construindo e pedra sobre pedra vamos edificando a fortaleza da aprendizagem, da construção do conceito, da apropriação.

– Tens de estudar.

-Eu estudo. Leio, leio mas não percebo nada.

Ouvi este diálogo na rua, um dia destes, entre mãe e filha. Aqui reside o problema. A leitura funcional não chega. É preciso interpretar, e isso, demora tempo… que não existe numa sociedade sem motivação!

O presente é o caminho iniciado no passado. E o futuro a continuação do caminho. Refiro-me aqui ao caminho curto, à rota mais simples e aparentemente mais segura. Ao itinerário dado que impossibilita a construção e o deslumbre do imprevisto. Em termos práticos: o tamanho das publicações nas redes sociais, a recomendação do número de palavras num artigo de um blogue (sob o jugo da não leitura), os títulos manipuladores das notícias e a premência do passo seguinte como quem só está bem, onde não está.

O assunto já é complicado e ainda se lhe junta a ocupação da mente com o vazio de programas como o “Secret Story” ou as notícias do “Correio da Manhã”. Ou ainda, o hedonismo de uma discussão turva sobre futebol ou política sem bases e fundamentos que sustentem uma conversa não ébria de azeitice.

Somos o que construímos e esta geração de adolescentes está cimentada com a cola do retrocesso. Veja-se este vídeo.

Aqui fica a “música” na íntegra para quem quiser apreciar com mais detalhe e profundidade.

Infelizmente, não é um exemplo avulso. A geração dos adolescente de hoje está a ser fundada em alienamento literário.

Outro exemplo para juntar à lista de barbáries literárias e musicais.

Que fique claro: nada tenho contra o Rap e o Hip-Hop. Apenas me refiro à mensagem, tanto na sua forma como conteúdo. Ao mostrar “Gabriel, o Pensador” a um aluno dos Cursos CEF, do 9º ano, disse-me:

– Que Hip-Hop tão limpo. Já não estava habituado a esse tipo!

Gostou e apreciou a música. Fiquei contente. Espero ter plantado a semente para a compreensão do discurso. Receio que vá secar por falta do ambiente da motivação e imersão no ruído geracional.

Quando se solicita a um aluno que explique algo, apenas repete reiteradamente:

–É uma cena… tipo… tipo…

A situação está a complicar com o “Instagram” e o “Snapchat”. Com o recurso às fotografias e imagens, ajudam a contribuir para não prática da escrita e da não leitura.

Ainda hoje saiu um estudo que alimenta esta minha perceção da realidade.

Os alunos gostam de ler! Muito importante! Pioram na leitura? Como?

Temos de pensar na interpretação destas evidências científicas.

António Damásio e Espinoza sempre compreenderam a importância da emoção como mediadora da razão. Que emoções cria o imediatismo? Haverá espaço e tempo para a expansão da racionalidade com tempos de experiência de emoção tão breves, intempestivos e sucessivos?

Além da componente interpretativa, assistimos em crescendo, aos erros ortográficos. Um exemplo: legendas de rodapé dos noticiários! É estar atento! Ou ainda o famoso erro dos cartazes da “Olá” em 2014.

“Seguir o fluxo de informação das massas é para soldados. Compreender o seu contexto é para reis!“

O problema disto é que sou Republicano, defendo a democracia e a educação das massas!

Finalizo com este diálogo real:

– Posso ir à casa de banho?

– Já vais. Faltam cinco minutos para tocar.

– Não aguento… vá lá!

– Tens incontinência?

–O que é isso?

–Não sabes o que é isso? – goza um colega lá do fundo.

–Então explica lá o que é? – pergunta o professor.

Nesse precioso momento, o colega levanta a mão e faz a saudação militar, a continência!

Estamos a falar de alunos de um 12º ano de um Curso Profissional!

Telmo Antunes, autor do blogue Hades Ler

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