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Dogmas e rituais da escola/Controlo remoto do sistema educativo – José Afonso Baptista

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Dogmas e rituais da escola
Controlo remoto do sistema educativo
O currículo e os exames são os principais eixos estruturantes do sistema educativo e os dois instrumentos para o seu controlo remoto. Com o currículo, o governo impõe às escolas, aos professores e aos alunos o que têm de ensinar e aprender e com os exames controla os resultados do trabalho dos atores educativos e o cumprimento dos programas oficialmente impostos.
O discurso oficial é outro. O ministério da educação (ME) afirma a autonomia das escolas, nomeadamente a autonomia curricular, proclama a diferenciação pedagógica para responder à diversidade dos alunos, seguindo orientações específicas da UNESCO, e atribui às escolas a responsabilidade de organizar e gerir o seu projeto curricular. Com estes pressupostos, a legislação insiste no sucesso educativo de todos, na igualdade de oportunidades e repete que nenhum aluno deve ficar para trás (no child left behind). E, no entanto, os resultados mostram que continuamos a ter índices elevadíssimos de alunos que ficam pelo caminho, sendo enorme a diferença entre os que iniciam e os que terminam um determinado ciclo escolar. A utopia e a falência do discurso educacional são evidentes.
O ME, na mesma linha de discurso, abre janelas para o envolvimento das crianças e jovens em temáticas que os despertem para os problemas da sociedade atual. A educação para a cidadania, o foco nos direitos humanos e recentemente a orientação para a problemática do Holocausto são temas suscetíveis de despertar o interesse dos jovens. Em grande parte, são propostas inócuas, porque não saem nos exames. Quando há exames, o que os professores ensinam e o que os alunos estudam é o que sai nos exames. É isto que esvazia as escolas da sua vertente educativa, reduzindo ou eliminando o espaço do diálogo e do debate geracionais e impedindo que se questione a herança que nós, pais e professores, lhes deixamos: um planeta destruído, tóxico, contaminado e contagioso, que a cada dia ameaça mais a vida de cada um.
Muitos pensam que os exames, iguais para todos, são o instrumento da justiça equitativa, que pune e premeia o mérito de cada um, o tira-teimas que coloca todos em situação de igualdade. Esta é também a visão do ME, esquecido das diferenças, da diferenciação pedagógica, do sucesso de todos e da igualdade de oportunidades, excluindo crianças e jovens com competências de alto nível porque não têm exames adaptados às suas circunstâncias reais.
Os exames não respeitam as diferenças, excluindo muitas vezes os diferentes para melhor. Alunos com dislexia desenvolvendo atividades e produzindo trabalhos de alto nível esbarram nos exames escritos sob pressão, sem qualquer hipótese de prestarem provas por outra via. Alunos surdos com uma inteligência claramente acima da média, mas impedidos de fazer os exames na sua língua natural. Alunos cegos, autistas, tantos outros, vítimas apenas da incapacidade da escola em se adaptar às suas diferenças.
Os exames impedem as crianças de crescer ao seu ritmo, de acordo com o seu potencial, com as suas aptidões específicas. As escolas, por imposição dos exames, trabalham os alunos como se fossem tijolos que têm de sair todos com o mesmo tamanho e o mesmo formato. É como se todas e todos, meninas e rapazes, fossem obrigados a calçar sapatos do mesmo modelo e tamanho.
Somos um dos países com maiores índices de abandono e exclusão porque o ME não investe nos professores para trabalharem à medida dos alunos, condenando-os ao formato único do currículo que sai nos exames. O ME cristalizou no algoritmo escolar de há duzentos anos, incapaz de ver mais longe, incapaz de se adaptar à mudança e de dar ás escolas os meios para cumprir as orientações da legislação. A reprovação rouba milhões de euros do orçamento anual. Se fossem investidos nas escolas e na especialização dos docentes teríamos outra educação. A preocupação é a diferenciação pedagógica, adaptada ao perfil de cada um? Tem a ver com os problemas que a pandemia levanta às aprendizagens? Com o facto de muitos alunos não terem o kit PC/net para poderem estar ligados à escola? Não, tem a ver apenas com a dificuldade em preparar e realizar os exames, em classificar os alunos, em decidir quem passa e quem chumba. Sucesso de todos! Ninguém fica para trás! Isso é retórica sem qualquer reflexo nas práticas. O que importa salvar são os exames! Os alunos que se lixem!

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