Home Editorial Docentes e não docentes são carne para canhão

Docentes e não docentes são carne para canhão

7828
1

Pergunta o jornalista após serem conhecidas as normas do novo “confinamento”:

Sr. Primeiro-Ministro, se as escolas são uma componente prioritária na sociedade, os professores e funcionários vão ser integrados nos grupos prioritários de vacinação?

Resposta:

Esses grupos já estão definidos e cumprem determinadas regras estabelecidas por uma equipa técnica…

E com esta pequena frase, António Costa chuta para canto e diz, não, os docentes e não docentes não são prioritários.

Assim se vê a consideração que existe por um grupo profissional que vai ser obrigado a permanecer em salas de aula com 20 e 30 alunos, em muitos casos sem cumprirem o distanciamento social, enquanto a esmagadora maioria do país está confinado para assim protegerem-se deste vírus sacana que todos os dias mata e destrói famílias.

É mais do mesmo e como professor sinto mais esta faca nas costas, mais um pontapé de desprezo, mas desta vez, não por qualquer questão salarial, de carreira, ou condições laborais, mas pela indiferença com que a minha saúde e dos meus colegas é encarada por aqueles que nos lideram.

Referem-se à escola como se a escola fosse apenas o seu interior, que é segura e está organizada. Verdade, acho que está organizada, mas não é perfeita. Todos os dias temos deslocações de quase 2 milhões de alunos e os aglomerados à porta das escolas dos mais crescidos. Isso também é escola e é ignorado! Sem escola presencial, tal não aconteceria.

Sobre o prejuízo enorme aos alunos, o prejuízo é real, não sou hipócrita, mas questiono-me se 15 dias a 1 mês serão assim tão prejudiciais numa formação que tem a duração de 12 anos?

Pergunto-me também se preciso de ir ao otorrinolaringologista, pois ouvi, diversas vezes e por diversos especialistas, que o encerramento das escolas iria baixar de forma mais acelerada o tal valor R, que indica os níveis de contágio na sociedade. Será que um confinamento mais agressivo e de curta duração não seria mais eficaz que um encerramento parcial e mais prolongado? Até que ponto mais vidas não seriam salvas? Ou mais camas de hospitais estariam disponíveis mais depressa?

E que dizer das contradições, como por exemplo o fecho dos ginásios e manutenção das aulas de educação física e desporto escolar? Alguém me ajude a perceber isto pois não vejo qualquer sentido!

Dizer também que há um esforço coletivo de passar a imagem que a escola é um paraíso free covid e que o resto da sociedade não o é, que o resto das profissões não o são. Refuto por completo essa ideia, pois santuários não existem, tal como não existe o oposto. Além disso, quando os especialista afirmam que não se conhece a origem do contágio de 9 em cada 10 casos de covid-19, cai por terra toda e qualquer argumentação sobre a segurança ou não dos espaços, sejam ou não escolares, pois simplesmente não sabem!

Argumenta-se que os surtos são poucos nas escolas. Tirando os lares, onde é que há surtos significativos nos outros serviços/profissões? Conhecem algum? Mas muitos serviços vão ser encerrados. Qual é a lógica?

Não consigo deixar de pensar que se os computadores prometidos estivessem nas escolas como era suposto, as decisões teriam sido diferentes. Posso estar a ser injusto, mas se a decisão do ensino à distância tivesse sido tomada, este e outros dedos seriam imediatamente apontados ao Ministério da Educação/Governo. E eles sabem disso…

Por fim dizer, com todas as letras, que não existe nenhuma unanimidade sobre a necessidade de manter as escolas abertas, é falso! E se pensa assim Sr. Primeiro-Ministro é porque não conhece a realidade ou é enganado por aquele a quem entregou a pasta da Educação.

A saúde devia estar no topo das prioridades, acima de tudo o resto, inclusive da Educação, a escolha foi feita, que não se arrependam mais tarde.

Do fundo do coração espero que tenham razão e que tudo isto resulte. Quem lê estas linhas, tal como eu, deve conhecer casos de pessoas que estão muito mal ou já foram vítimas do covid-19, ninguém quer isso, é muito triste o que estamos a viver.

Que esta abertura das escolas não se torne mais uma asneira a somar a muitas outras, tal como foi a liberdade dada no Natal e Ano Novo…

P.S: para os ignorantes, e digo ignorantes pois só um ignorante não conhece o trabalho que deu aos professores o ensino à distância. Para esses, que afirmam que os professores não querem é trabalhar, ó meus amigos, sinceramente… Get a life!!!

Alexandre Henriques

1 COMMENT

  1. Numa palavra: vai dar merda.
    Como é óbvio, as escolas são, como qualquer outro lugar que junte gente, lugares de risco e de contágio. A pesquisa também aponta que as crianças e, sobretudo, os adolescentes são vetores de transmissão, mesmo quando são assintomáticos. Estes irão levar ainda o vírus para casa, infetando toda a família, onde os mais velhos (pais e avós) são potencialmente grupos de risco.
    Não vai funcionar. Vai dar merda.
    Este é, e sempre foi, um país do faz de conta. Em agosto passado, viajando de São Paulo para Lisboa, fui obrigado a fazer o teste PCR para a COVID. Tudo bem, não fossem as informações erradas dadas pelo próprio Callcenter da transportadora aérea, a TAP. Mas a história não ficou por aí. Se fosse só isso, tinha sido uma autência maravilha! Nesse dia, pouco depois de sairmos de São Paulo e em conversa com um tripulante da TAP, soube que as tripulações não faziam quaisquer testes para a COVID. Então para que serviam os testes aos passageiro? Para nada, excepto para enganar, fingindo que faziam alguma coisa quando na prática não faziam nada que resultasse, pois as tripulações pernoitam no local de destino e não se limitam nas suas deslocações do aeroporto para o hotel. E a Presidência da República sabe desse facto, apesar do manto de silência que já perdura desde agosto passado.
    Ou seja, a merda vai ser da grossa.
    Este confinamento não produzirá os efeitos desejados, obrigando ao seu prolongamento. A revolta que gerará votos de protesto nas próximas eleições e que levará à ascenção de extermismos. Foi assim com Trump e Bolsonaro foram eleitos. E, a propósito, prefiro um Bolsonaro a um Costa ou um Marcelo agindo como ontem. Estive no Brasil onde dei aulas numa Universidade Federal, já Bolsonaro era Presidente. E lá é impossível, mesmo com um Presidente louco e negacionista, acontecer o que ontem aconteceu em Portugal. Simplesmente não é possível e quem conhece bem a realidade brasileira sabe que assim é, pois haveria intervenção do STF ou as ruas pegariam literalmente fogo.
    Isto vai dar merda e vai ter consequências pesadas que não se limitarão ao crescimento da epidemia (sim, com medidas destas a epidemia vai crescer, pois não se conhece a esmagadora maioria das fontes de contágio, onde as escolas são inevitavelmente vetor importante de transmissão: ou alguém no seu bom senso acredita que o vírus é tão bonzinho que se recusa a entrar nas escolas?). Haverá também consequências políticas a médio e longo prazo. E as pessoas ainda se perguntam como foi possível um Trump ou um Bolsonaro ser elegido? Olhem para o que se passou ontem, dia 13 de janeiro de 2021, em São Bento. Têm aí a resposta.
    Por isso, isto vai dar merda e da grossa.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here