Home Escola do trabalho docente

do trabalho docente

152
0

cansaçoEle há momentos de escrita que me custam mais que outros; uns porque não tenho ideias sobre o que falar (no meio de tanto assunto e de tanto pretexto, sinto falta de um texto). Outras vezes mais por simples adequação da escrita aos objetivos e orientações deste site (sobre comportamentos e regras, ou a sua falta). Hoje, domingo de carnaval, altura em que escrevo, sinto um misto das duas situações – dificuldade de escrita (não me apetece escrever), falta de tema que me permita adequar aos objetivos e orientações.Situação que decorre, em muito, por via do cansaço que se apodera de mim em alturas em que posso baixar guardas e… descansar.

E esta situação é manifestamente complexa, esta do cansaço docente. Ainda no decorrer da semana passada foi capa de jornal um estudo sobre o cansaço e esgotamento docente. Este cansaço tem raízes no número de tarefas a que um docente é chamado como nos níveis de satisfação/reconhecimento da sua carreira.

O trabalho docente tem sido alvo de medidas de proletarização desde há muito, mas que se reforçaram nos anos mais recente, seja por via dos cortes orçamentais, das imposições da dita troika ou simplesmente por razões ideológicas de como a profissão é olhada (e considerada) pelos diferentes atores político-partidários.

A grande questão é perceber e entender a forma como se compõe o trabalho docente. Desde há muito que o trabalho docente está dividido em duas componentes, uma letiva (trabalho com turmas e alunos), outra não letiva (tendo como objetivo a preparação e organização da primeira, das aulas). As opções mais recentes têm ido no sentido de alargar não apenas o número de alunos por turma mas, e para mim com especial dimensão crítica, o número de turmas por docente. Para além dessas o tempo da componente não letiva tem-se reduzido significativamente enquanto, por outro lado, a componente de trabalho de escola se reforça em medidas administrativas. Este conjunto de situações combinadas entre si têm reflexos diretos na gestão das dinâmicas de sala de aula, dos comportamentos e, não menos importante, no acompanhamento das situações que ocorrem na escola. E têm-no muito por via do cansaço, do esgotamento a que os docentes estão sujeitos.

Papeles-IINo presente não será difícil encontrar docentes que, com mais de 20 anos de carreira, regressam a números do seu início, carregados de turmas e de alunos. Se a isto se acrescentar a crescente solicitação meramente burocrático administrativa de procedimentos de acompanhamento, referenciação, monitorização e controlo do trabalho docente então os níveis de cansaço e desconsolo docente estão identificados (vejam-se as listas de procedimento de uma qualquer escola número de reuniões por período letivo, número de tabelas, grelhas e outros a preencher, relatórios a elaborar, procedimentos a considerar, etc. então se se forem TEIP ou enquadradas em contrato de autonomia então é mesmo para esquecer).

Se é certo que dá para perceber, por onde me movimento, que são precisas ordens e regras de ação docente, no sentido de evitar (ainda mais) a atomização e individualização do trabalho docente, também é certo que muitas dessas regras são exageradas, desprovidas de sentido ou, sequer de lógica pedagógica. Por isso tenho dito e defendido nos espaços a que tenho acesso que o aluno tem sucumbido ao peso dos papeis, à manifesta dificuldade dos docentes gerirem as inúmeras atividades a que estão sujeitos e obrigados.

Em dia de falta de vontade de escrever, duas últimas notas relativa ao trabalho docente.

Uma para dar conta que os níveis de indisciplina crescem muito por via da dificuldade de acompanhar (e perceber) situações individuais. Mas também pelos níveis de cansaço a que todos ficam sujeitos com reflexos diretos na paciência e na tolerância sempre essenciais para gerir comportamentos e dinâmicas individuais em contexto de grupos.

Uma última para ser politicamente incorreto e defender aqui o que defendo há muito nas escolas por onde ando, a necessidade de centrar o trabalho das escolas na ação do professor (e não do aluno). Quanto mais tempo, disponibilidade e condições tiver um professor, melhor e mais adequadamente o aluno recupera, mais cedo são identificados problemas, mais cedo são propostas e implementada medidas, mais tempo há paciência para ouvir (coisa tão simples quanto complexa) o outro (aluno, docente, pais/encarregado de educação ou um qualquer parceiro).

E pronto, foi o que saiu, bom carnaval.

Manuel Dinis P. Cabeça

08 de fevereiro, 2016.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here