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Do Não Encerramento Das Escolas

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– É na sua aula que vemos as nossas caras, professor! Dizem-me os alunos que se conheceram este ano; é ali que o fazem mais verdadeiramente.

Pela natureza da disciplina, Educação Física, e assumindo o risco opcional de leccionar turmas numerosas maioritariamente sem máscara (a DGS sugere aulas sem máscara quando se garante, sei que é risível, três metros mínimos de distanciamento físico), prefiro aulas presenciais. Tem sido inesquecível e um recomeço desafiante e inesperado. Mas aconteceram perplexidades: já leccionei várias aulas com alunos infectados ou estive integrado em correias de transmissão; nunca fui testado, isolado, sujeito a quarentena ou sequer contactado; e como eu, milhares de professores robustos não prioritários que serão casos de estudo para os padrões da imunização sem vacina.

Mas voltando ao tema do momento, as escolas são um dos cernes da disseminação do vírus tal o aceso debate que provocam; e há o ângulo de análise “escola a tempo inteiro” que fica para outra altura. Ou seja, o que está em causa não é a opção entre ensino à distância e aulas presenciais. Não se trata disso. Em regra, não há aprendizagens plenas, longe disso, atrás de uma máscara ou de um ecrã nem com os actuais constrangimentos.

Dito isto, o que está em causa é a saúde pública. Sejamos objectivos: as nações das escolas e turmas numerosas perderam o controlo da pandemia. Por exemplo, repare-se que a Alemanha fechou as escolas no início de Dezembro e só as reabre daqui a oito ou dez semanas. Temos dois dados objectivos da perda de controlo em Portugal, e provavelmente nos congéneres da tragédia: não se conhecem 87% dos locais de contágio e os universos escolar e sanitário tiveram em Novembro uma confirmação: a covid-19 acelerou entre a população mais jovem e foi no grupo dos 10 aos 19 que o contágio mais cresceu” (“e com a agravante de ser nas crianças e nos jovens que se concentra o maior número de falsos negativos e assintomáticos“).

Portanto, fica-se apreensivo quando se estabelece um confinamento geral sem passar para não presencial qualquer grau de ensino, mais ainda num país que tem o calendário escolar com menos dias de interrupção da Europa e que acentuou esse excesso na pandemia.

Por outro lado, a tese da escola segura é uma perda de tempo para o debate. As escolas não são seguras nem inseguras. Não se sabe. O que se sabe é que não cumprem os 3 c’s e que têm os mil e um cuidados possíveis. Não se mede a segurança sem meios de controlo. Os estabelecimentos de ensino encerram porque a frequência, e a envolvência, das escolas numerosas é uma plataforma giratória da disseminação do vírus na sociedade.

Ouvi um especialista estupefacto por se ter dito que os números de infectados em Portugal sobem quando as escolas fecham. Confesso que também fiquei. No primeiro confinamento, o encerramento das escolas foi crucial. Na segunda vaga, e umas semanas depois da abertura do ano lectivo, iniciou-se a subida acentuada dos números. As pontes de Dezembro deram sinais na redução de casos positivos e na última semana do mês baixaram as contagens diárias. Os números do início de Janeiro foram cumulativos. É, portanto, ainda mais difícil tirar conclusões, como disse o PM para o argumentário que desenvolveu, uma vez que houve o Natal e a muito limitada passagem do ano. As escolas reabriram a 4 e já vamos a 15 (bem sabemos que é Natal quando um homem quiser, mas convém não exagerar). O que é certo, é que nas mortes e nos internamentos os números são inequívocos e constantes.

Como já escrevi várias vezes, há cinco soluções simples para melhorar os 3 c’s dentro e fora da escola e que baixariam os contágios: horários desfasados, turmas por turnos, descentralização de intervalos, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas e redução temporária da carga curricular para simplificar a execução das quatro primeiras. Era importante que o inerte ministério se movesse antes que chegue a quarta e a quinta vaga.

Por outro lado, o marketing político cria desconfiança. Como nos recordamos, umas semanas depois de ter começado o ensino à distância os governantes desdobravam-se (e perante a surpresa de quem lecciona) em elogios à nossa escola digital e à entrada do país no século XXI (até a flexibilidade curricular, pasme-se, foi usada pelo PM em pleno parlamento como atributo do sucesso). Agora, que interessa ter a escola aberta, foi, afinal, um falhanço. Para além disso, continua por concretizar o que o PM disse a 11 de Abril ao Expresso: “no próximo ano lectivo haverá acesso universal dos alunos dos ensinos básico e secundário à Internet e a equipamentos informáticos, considerando que este investimento avultado é essencial face aos riscos de pandemia.”

Por fim, António Costa declarou que a decisão do não encerramento de escolas foi uma esolha política e que “ouviu os dirigentes dos pais e das escolas“. Umas horas depois, ouvi as posições contrárias, e com evidente preocupação, dos responsáveis clínicos (infecciologistas e intensivistas) do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, e do Hospital S. João, no Porto. Esperemos que tenha sido uma boa escolha.

Paulo Prudêncio

Fonte: Correntes

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