Home Família Do entendimento à desarmonia familiar: a realidade atual

Do entendimento à desarmonia familiar: a realidade atual

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A família, o centro do mundo da criança. É onde nasce, cresce, aprende os primeiros passos e descobre os primeiros amores, nos olhares que troca com os pais. A família é o porto seguro da criança, é o equilíbrio para uma evolução emocional, mental e espiritual saudáveis. Sem nos apercebermos, ao construirmos uma família somos responsáveis pela primeira sociedade, que a criança conhece e também por aquela que se transforma no nosso lar. Se a criança se sente segura naquele ninho, os pais começam também a usufruir dessa tranquilidade emocional, mental e espiritual.

A diferença que existe entre os pais e a criança, neste aspeto, é que a criança só conhece aquela realidade. Nasce com aquelas pessoas e o seu mundo estende-se até às fronteiras com a sociedade em geral, na qual ingressará mais tarde de forma progressiva. A atenção que recebe desde o nascimento é só sua. Assim o entende, já que ela é o centro de tudo e de si própria. Já no que concerne aos pais, estes entram neste projeto de família de fora para dentro, ou seja, passam de um mundo mais alargado onde já têm hábitos, conceitos e crenças estruturadas. A sua atenção é distribuída por outras coisas que não só a criança, porque assim é e assim tem que ser. A gestão entre a família constituída e a sociedade em geral exige que os pais se mantenham firmes nos desafios que lhes são propostos pela atividade profissional, pela educação e pelo relacionamento do casal. À medida que o tempo passa, o que era novidade no relacionamento diminui e ser criativo para manter a paixão do início é desafiante, já que as exigências externas são enormes. Se cada elemento do casal mantiver a sua rotina de trabalho, família e um tempo individual (mais que não seja o momento de deslocação até ao emprego) conseguirá ficar mais focado, disponibilizando-se desta forma para o tempo a dois e com a criança. No entanto, se trouxer para casa tudo: trabalho, família, relação, em simultâneo, a mistura pode ser explosiva se ficar muito tempo a marinar.

O grau de atenção diminui, o cansaço aumenta, as desarmonias e desentendimentos ganham espaço. E no meio disto tudo está a criança a solicitar o seu tempo de atenção, porque era isso que conhecia anteriormente. O foco que a criança terá para o que é seu reduz, por exemplo brincar. Mesmo para a criança que já estendeu a sociedade, além fronteiras com o infantário ou os primeiros anos escolares, a família continua a ter um peso importante no seu bem-estar e aquisições cognitivas e de desenvolvimento. Enquanto isto os pais vão dispersando cada vez mais a sua atenção, para as múltiplas exigências dentro do ambiente familiar: atividade profissional e família misturam-se e deixam de ter o seu espaço próprio. Esta capacidade, que os pais têm que demonstrar para a continuidade dum desempenho laboral elevado, a par das tarefas domésticas e cuidados à criança perde-se.

Com isto, a criança que não recebe atenção irá pedir muito mais atenção. E assim o que era foco transforma-se em dispersão. A criança irá procurar tudo o que é aos nossos olhos “disparate” ou traquinice, para ter um segundo de atenção dos pais. Estes, exaustos com o trabalho em simultâneo com as tarefas domésticas, dão por si irritados, sem tolerância e com respostas para a criança que não esperavam dar. Isto é um ciclo vicioso que gera mais necessidade de atenção por parte da criança.

No meio disto tudo, como medir qual dos membros do casal tem a atividade laboral mais facilitada e tem mais disponibilidade, para cuidar da criança e da casa? Não se consegue, nem se pode medir. Mas o casal vai medir e fará exigências entre si: “Agora é a tua vez de cuidares do miúdo”, “desculpa, mas não posso, não vês que estou a trabalhar?!” e por aí fora.

O desentendimento aumenta, a desarmonia instala-se e o foco perde-se. Associado a isto, as discussões têm lugar. Tal como a criança, que vai fazendo “disparates” e traquinices para chamar a atenção, os pais não são muito diferentes. Discutem, vitimizam-se, escondem-se, invadem o espaço do outro, só para terem um segundo de atenção. Estão sequiosos de atenção, estão sequiosos do que eram. E em simultâneo estão desejosos de que o outro entre na sua rotina, para que tudo se recomponha. Basicamente, vê-lo(a) pelas costas durante umas horas do dia. Amar tantas horas parece que cansa…

Nesta fase os pais deveriam ter horários desfasados para prestar apoio à família e à casa. A saúde mental está a desabar e será insustentável manter durante muito tempo esta forma de exigência profissional a par com a família. Atender em tempo real clientes da empresa com uma criança ao colo que chora, no meio da dinâmica familiar não é compreensível. Mais tarde ou mais cedo, senão já, a produtividade laboral diminuirá e as famílias entrarão em rotura, desmembrando-se futuramente. Até quando se esperará por ajuda às famílias na questão de horários profissionais, com a perspetiva de contribuir para pessoas felizes, saudáveis emocionalmente? A saúde mental tem limites muito ténues, até para as crianças… atenção!

Vera Silva

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