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Do Desnorte Aos Danos Colaterais, O Que Muitos Pensam E Poucos Dizem!

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No fundo, existe um medo oculto no seio dos docentes. Um silêncio de muitos que não dizem o que pensam e muitos mais que não dizem o que sentem com receio de serem estigmatizados.
Mesmo sem estarem preparados, todos querem mostrar dominarem as plataformas digitais com medo de serem apontados. Vigora no meio da classe um medo silencioso de os professores poderem dizer a enorme frustração e pressão que sentem neste momento com receio de serem criticados por todos, incluindo os seus pares. Vai-se esticando a corda e fingindo, falta saber, até quando.

Mas esta sobrecarga era evitável.
Quando o país acordou para o problema, já há três meses que no oriente o coronavírus parava províncias e países; há um mês que isolava Itália e matava multidões; há semanas que, aqui ao lado, em Espanha, começava a suceder o mesmo. No entanto, por cá, a única coisa visível era a ausência de um plano atempado de intervenção nas escolas, quando o encerramento era mais do que previsível.

Houve tempo suficiente para preparar e dotar as escolas de meios para lidarem com esta situação, mas não houve tutela que fosse capaz de prevenir e, agora, só nos restou remediar.
E esse remendo tem muitos nomes: “Classroom, Zoom, Google Forms, WhatsApp, Webinars Office 365, Edmodo, Skype, videochamadas…” e todo o género de meios digitais despejados para cima de professores e alunos.
O ensino transformou-se em poluição tecnológica e depressa se criou um gueto de infoexcluídos, composto por todos aqueles que não conseguiram lidar com esta torrente excessiva de disparates aceitáveis – professores, alunos e pais a terem de aprender a lidar com um sem número de ferramentas digitais em pouco tempo.

Não houve um plano estratégico com uma só ferramenta simples e intuitiva a ser apresentada e apreendida por professores e alunos durante os últimos dias que antecederam o encerramento das escolas.
Em vez disso, a mensagem foi óbvia pela ausência de estratégia: desenrasquem-se como puderem.

Já não bastavam as medidas de prevenção COVID-19 terem chegado tardiamente às escolas (na ausência de melhor, eu próprio participei com colegas na elaboração de cartazes a serem afixados), e o mais caricato da coisa foi constatar que essas medidas não puderam ser implementadas, pois era evidente a inexistência de produtos de higienização.
Mas tempo foi coisa que não faltou para que tudo isso fosse preparado oportunamente; o que faltou foi organização e competência.
E só agora é que nos começamos a aperceber do enorme risco de contágio em que toda a comunidade educativa esteve sujeita. No meio de todo este desnorte, acabámos por ter muita sorte!

Todavia, toda esta confusão não nos deu tempo para nos apercebemos do surgimento de uma nova situação.
Até há bem pouco tempo era proibido que alguém invadisse as nossas salas de aula, presenciasse uma aula ou recolhesse imagens sem autorização prévia. À luz da Lei de Proteção de Dados, e do artigo 79.º do Código Civil (que estabelece um conjunto de regras relativas ao direito à imagem de uma pessoa, reconhecendo que o princípio geral de utilização é o consentimento) não era permitido recolher imagens nas escolas, dos professores e dos alunos sem consentimento prévio dos visados.
Agora, com este sistema atabalhoado de plataformas à distância, qualquer um – professor, pai ou aluno, sejam ele criança ou adolescente – pode visualizar e até se gravarem uns aos outros nos seus espaços de privacidade durante as aulas à distância com recuso à telecomunicação em direto.

Pacifica e inocentemente, invadimos os espaços privados uns dos outros, recolhemos imagens sem autorização sem sabermos qual a verdadeira intenção do nosso interlocutor. Antes, eram chamadas as forças de segurança e alunos eram presentes perante a justiça caso recolhessem imagens na escola ou em sala de aula e as partilhassem com terceiros nas redes sociais, não faltando casos a abrirem noticiários e a encherem grelhas de programação com debates que mantiveram o país absorvido.

De repente, parece que já ninguém se lembra da cena do “dá cá o meu telemóvel”, entre outras, e abrem-se as portas do nosso espaço privado a toda a gente.
Agora, de um momento para o outro, passa-se uma esponja sobre tudo isso, arruma-se a lei numa gaveta e passamos ao sistema do «vale tudo», desde que sirva para tapar os buracos de incompetência abertos pela desorganização de uma equipa ministerial ausente e desorientada.
Alunos, pais e qualquer um invade a nossa “sala de aula”, que por sinal, é somente a privacidade do nosso lar, enquanto nós vemos as portas das casas dos nossos alunos a serem abertas para aulas em direto. O que hoje ainda é pretexto para piadas que têm a sua graça, amanhã poderá fazer com que muitos de nós caiamos em desgraça.

Mas o ensino à distância implica muito mais. Envolve logo à partida a necessidade de existência de computadores, que poderão ser em grande número no caso das famílias com filhos em idade escolar. Para os professores ou pais a trabalharem em regime de teletrabalho, esta situação agrava-se, pois acresce a necessidade de existir ainda mais um aparelho.

Na realidade, têm sido os professores e as famílias quem efetivamente tem estado a tentar assegurar o funcionamento do ensino, às suas custas, com os seus meios tecnológicos (houve quem tivesse de adquirir mais equipamentos) e com o acréscimo de despesa de eletricidade por estarem todo o dia à frente do computador.
Mas não é apenas a carteira que será prejudicada, pois a saúde de alunos e professores sairá igualmente afetada contrariando as orientações que alertam para os danos que o tempo excessivo à frente do telemóvel ou do computador causam à vista e à cadeia músculo-esquelética, em particular à coluna e ao braço.

Contudo, não é só ao nível económico e da saúde que se fará sentir o impacto de toda esta situação. Inevitavelmente, os alunos sentirão uma enorme tensão pela imposição de estarem sempre diante do computador. Aos professores, este sistema de aulas baseadas somente em tecnologia e a obrigação de estarem constantemente atentos e disponíveis, implica um elevado nível de pressão psicológica e de desgaste físico, mental e emocional.

Porém, o maior de todos os desgostos que os professores começam a sentir no meio de toda esta trapalhada – não obstante todo o esforço que estão a investir nesta forma de ensino à distância – é a ingratidão e a culpabilização que já está a recair sobre eles quando as coisas não correm pelo melhor – já é notícia alunos e pais a queixarem-se de os professores não estarem a ensinar bem.
No fim, independentemente do esforço que viermos a fazer, por tudo o que vier a correr menos bem, como invariavelmente tem vindo a acontecer, a culpa acabará por recair sobre os professores.?

Carlos Santos

3 COMMENTS

  1. Uma escola é um organismo tal como o corpo humano. No corpo humano cada órgão tem uma função. Se os pulmões tivessem que desempenhar a função respiratória e a função digestiva, o corpo implodia, cada órgão cumpre uma função. Ai do médico especialista em ortopedia (embora grande parte da formação seja comum) que se meta no mister do médico cardiologista. Já no ensino, o dislate é tão grande que toda a gente percebe de tudo, toda a gente se mete em tudo, toda a gente tem de saber de tudo e aos professores cobra-se-lhes tudo sem nunca lhes ter sido dado nada.
    Um professor de português, no seu tempo de preparação para si, enquanto professor, e para os alunos, para além de preparar as suas aulas, só tem obrigação, e é uma obrigação bem grande, de se dedicar à Literatura, só isso lhe é exigível e é muito. Quem dera que todos cumprissem, e se cumprem, são com certeza excelentes professores, os melhores. Se lhes cobram tudo, fica a literatura para trás. O mesmo se aplica às outras especialidades do ensino. Troca-se ouro por missangas. Vivemos na época da vertigem, do superficial, do volátil. Amanhã já estas linguagens informáticas estão todas ultrapassadas e os professores, qual Mito de Sísifo, vão como Black Friday atrás de outro “ouro dos idiotas” qualquer. Não percamos o Norte, a informática é um meio, não é um fim. Quando entrou nas escolas, os professores começaram a aprender de forma lúdica, sem que ninguém lhes cobrasse nada porque ainda não se tinha perdido o Norte à função do professor. A informática seria uma ferramenta, um instrumento de simplificação do trabalho que absorvia inutilmente as energias do professor. Era vista como um apoio e não como um estorvo. Hoje o professor é tudo, portanto não é nada. Vejam lá o que andam a fazer. Deixem os professores em paz, fazerem aquilo que sabem fazer bem e que interessa que façam bem, não os sobreocupem com shows de tecnologia. Reality shows não é na escola. Professor que é professor só tem de sentir-se mal se parou de aprender no seu domínio, aí sim, também parou de ensinar. Deixem cada qual com a sua função, que é nobre, para que a escola se mantenha saudável. Não contribuam para a implosão da escola, através da implosão dos professores.

  2. Não sei se viram, num dos “famosos” programas da Cristina, o nosso ministro (parece que é só neste tipo de programas que gosta de aparecer) a incentivar os alunos a tirarem e enviarem fotos, das novas aulas à distância. Até disse qual era o # para onde as deviam enviar. A patetice, e inconsciência a que chegámos, por quem devia liderar e dar orientações, sendo pago (e bem, até lhe foi renovado o subsídio de deslocação) para isso!

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