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Discutir a formação de base dos professores, não é passar-lhes um atestado de incompetência.

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Um texto que merece ser lido até pelos desafios que se avizinham…


A propósito das recentes notícias sobre as alterações curriculares propostas pelo ME, gostaria de partilhar algumas considerações.

Começar as obras pelo telhado e esquecer as fundações, é meio caminho para definir uma validade para as novas medidas ou, no mínimo, para reforçar os gastos e a lentidão das mesmas.

Desde que se começou a perceber o poder potencial da Escola massificada como transformadora das realidades sociais, que este espaço balança ao sabor das ideologias políticas, com avanços e retrocessos no investimento. E como, em Portugal, as emanações educativas continuam centralizadas, a permeabilidade da Educação aos humores políticos é quase permanente, num aspeto da vida nacional que deveria exigir consensos, mas que cada vez mais se depara com posições extremadas.

E se facilmente se percebe a lógica básica e perversa que permeia o desinvestimento na qualidade da educação; não é assim tão fácil de compreender a razão pela qual os defensores da escola pública permitem a perpetuação das incoerências entre as intenções reformistas dos bem articulados prefácios e artigos das leis educativas (já desde 1976) e as práticas mais conservadoras dos docentes e do ministério neste século.

A que se deve a continuidade desta incoerência? Falta legislação que oriente os professores para uma prática consentânea com as disposições da lei? É sequer possível legislar a esse ponto? Os professores são sobrecarregados com procedimentos burocráticos que os esvaziam da sua função principal? Este novo paradigma exige que as escolas sejam efetivamente autónomas para se recentrarem no aluno? Este modelo de direção das escolas, sendo pouco democrático, é pouco facilitador da mudança? Alguns professores ainda querem perpetuar a saudosa memória da antiga 4ª classe?

Algumas destas questões talvez encerrem parte da resposta complexa que explica a desarticulação entre as boas intenções e a realidade educativa. Porém, as minhas convicções apontam para que a resposta ao atraso de quase 40 anos na implementação de uma reforma substancial que integre e efetive os novos paradigmas educativos que pululam nos artigos científicos e nos preâmbulos das leis, resida substancialmente na Formação de Professores. 

As mudanças efetivas na educação fazem-se com as pessoas e, todos os anos, as universidades e os politécnicos perdem a oportunidade de começar a verdadeira reforma da educação. Alunos/futuros professores, aprendem da forma como sempre aprenderam desde o seu primeiro ano de escolaridade. É-lhes ensinado e saberão reproduzir e citar autores que refletem sobre os novos paradigmas, mas dificilmente vivenciam esses novos paradigmas. Um caso paradigmático desta falta de isomorfismo pedagógico, que me salta à memória com frequência, e que ilustra o que acabo de referir, é a de uma antiga professora universitária a enumerar as regras para fazer uma boa apresentação em Powerpoint, lendo as informações de um slide a transbordar de texto.

Exige-se igualmente que o professor seja reflexivo e tenha capacidade crítica, mas ao longo da sua formação não lhe dão oportunidade de refletir criticamente ou debater sobre os assuntos com os quais se vai confrontar nas escolas, alguns deles controversos e que, quando verbalizados, deixam transparecer muito das velhas conceções que os futuros professores trazem pré-enraizadas em assuntos como, por exemplo, a avaliação formativa e sumativa, a reprovação ou as metodologias de ensino-aprendizagem.

Não terão as instituições superiores autonomia, conhecimentos e inteligência para serem um catalisador de reformas consistentes? No Porto, por exemplo, a Escola de Psicologia e de Ciências da Educação (Universidade) está de costas voltadas para a Escola Superior de Educação (Politécnico). Na primeira investiga-se e reflete-se sobre a prática; na segunda ensina-se a prática. No entanto, enquanto lá estive, não existiu uma única iniciativa de trabalho colaborativo entre elas. E pelo que leio e oiço, não me parece que isso seja para já uma questão premente. Enquanto não o for, perpetua-se o ciclo…

 Gisela Nunes, professora.

2 COMMENTS

  1. Seria interessante discutir não só essa questão mas também o número de vagas!!! Por cada politécnico/ universidade há um número enorme de vagas para um mercado de trabalho que não absorve nem 1/4 dos professores. Não há blog, nem sindicato, nem grupo que denuncie isso e pense que os problemas começam mesmo por aí!!

  2. O que vó escrever pode ferir susceptibilidades. Porém, debato-me (há anos) com a possibilidade de os docentes de variantes poderem concorrer de igual modo aos professores apenas do 1○ Ciclo ao grupo 110. Quando estava já a estudar e descobri esta injustiça, a meu ver, fiquei estupefacta! Andámos, nós, com 3 Práticas Pedagógicas voltadas uunicamente ao 1◎ Ciclo para competirmos em igualdade com colegas que tiveram uma única com uma duração inferior a um semestre! (Falo do que vi.) Até os próprios colegas -sinceros – assumiram muitas vezes não se sentirem preparados (conheço vários casos de Inglês, Ed. Física, etc.). Também já conheci colegas de variantes que acabaram por fazer um bom trabalho devido à experiência. Portanto, o tempo de serviço deveria contar. Se querem ir vincular ao 1● Ciclo, então o tempo feito para tal deveria ser no 110. (Não é apenas nos casos do 910 que vão lá vincular sem praticamente ter lá trabalhado.)

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