Início Escola Salazarento? Discutamos a reforma dos sindicatos, não um autor de blogue.

Salazarento? Discutamos a reforma dos sindicatos, não um autor de blogue.

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Ser salazarento. Quem me conhece sabe que é a última coisa de que poderia ser acusado.
Liberal, libertário, radical, presunçoso, vaidoso, mau feitio, até snob. Burro, parolo, tacanho, ignorante. Chato. Estes e outros nomes já me foram atirados desde que escrevo por aqui. E não me queixo como vítima. Faz parte. Demasiado kantiano para o mundo de hoje, concederia o chato. Mas é a vida.

Injúrias, difamações e deixá-los falar

Já levei (levamos, os que por aqui escrevem) com insultos vários. Normalmente de gente que escreve anonimamente nos comentários (também há casos, como um certo dirigente de uma certa instituição representativa de dirigentes de associações de pais, que ufano na sua ficcionada força representativa, que ninguém escrutina, acha que pode achincalhar e por o nome por baixo das sms que manda). A minha política no blogue é, excluídos os casos de palavrões, deixar passar no filtro dos comentários. Faz parte do encanto e do deleite de constatar que incomodamos e somos lidos. E só lê quem quer. E nem precisa de gostar ou apoiar.
Assim, considerando eu, que chamar-me salazarento é chamar-me fascista e achando que esse é o pior insulto que me podem fazer, o autor da proeza salvou-se, e só por eu ter deixado publicar a boca nos comentários moderados, de vir a ter um processo por difamação (“auto-difamei-me” ao deixar passar o comentário, por isso, não posso reagir).
De ser acusado de injúria não se safaria (li o comentário que me foi dirigido). Mas, como não me vou queixar….

O comentário tem graça pelo paradoxo: um estalinista a chamar-me fascista.
Até porque, como dizia uma pessoa para quem tive a honra de trabalhar 6 anos, oposicionista democrático antes do 25 de abril e deputado constituinte: não injuria quem quer, injuria quem eu deixo, porque meço as injúrias pela fonte. Até para chamar nomes e ser levado a sério é preciso certas qualidades.
O comentário foi anónimo (o autor assinou com umas letras), mas mostra bem o Estado a que chegou o sindicalismo português. Reduzido a mandar bocas à socapa nos comentários de blogues de que, quem não gosta, não lê.

Discutir a mensagem (a reforma sindical) e não o mensageiro

A boca teve a ver com umas propostas, que considero importantes, que coloquei num dos posts de há dias.

Em PS propus isto e a reação destrambelhada mostra que as propostas são relevantes: (coloco os comentários, interpolados a vermelho):
Proposta: Que seja proibido haver dirigentes sindicais que acumulem com a condição de dirigentes de partidos, quer no sindicato, quer em federações em que este participe (e, se não for aceite assim nas federações, o sindicato deve sair da federação);
Comentário: Típica proposta da extrema-direita, com indisfarçável ranço salazarento;
Proposta: Que haja limitações de mandatos para os órgãos dirigentes (6 anos no máximo, em cada ciclo de 10 anos, para evitar soluções à Putin);
Comentário: Proposta razoável mas que, em parte, já se aplica;
Proposta: Que todos os acordos que abranjam mais de 10% dos sindicalizados sejam referendados pelos abrangidos antes de o sindicato (ou federação em que se inclua) assinar;
Comentário: Proposta de louco ou sob influência de drogas duras, a sua efetivação faria com que os sindicatos não funcionassem de todo;
Proposta: Que os reformados sejam impedidos de se candidatarem a órgãos do sindicato (na minha visão podem ser sócios, participar nas discussões, votar nos assuntos que lhes possam dizer diretamente respeito, menos nas eleições e não devem votar nos assuntos dos que ainda trabalham e, muito menos, ser dirigentes).
Comentário: Proposta tacanha, preconceituosa, discriminatória e com traços de ilegalidade constitucional.

Falar claro sobre as propostas

Incompatibilidade entre ser dirigente sindical e partidário

Vamos ver se nos entendemos ou, como alguém diria, vamos falar claro: proibir dirigentes sindicais de serem dirigentes partidários nada tem de ilegal ou inconstitucional. Se a lei incluir essa previsão de incompatibilidade é uma medida sensata para garantir a independência dos sindicatos.

Hoje, uma das maiores dúvidas que tenho, ao ver as prestações de certos dirigentes sindicais (além de tentar adivinhar quando vão encomendar as pizzas) é se, quando falam, estão mais preocupados com o meu interesse, como sindicalizado, ou com o interesse da manutenção da solução governativa que o seu partido apoia e sustenta (e sustentou para que em 2016/17 se acrescentassem mais 2 anos à suspensão de tempo de serviço que vinha de trás). O mesmo problema existiu com outros sindicatos e governos no passado. Ou com sindicatos ligados a partidos da oposição.

Curiosamente, sou membro há mais de 25 anos e fui dirigente (nacional e local) de uma associação (com mais associados que a maioria dos sindicatos e que será a última a poder ser acusada de fascismo) em que essa regra vigora desde sempre: quem é dirigente partidário não pode ser dirigente da associação. E essa norma está nos Estatutos, a instituição tem utilidade pública (e, por isso, os Estatutos são escrutinados) e nunca tal incompatibilidade foi contestada. Aliás, é reafirmada regularmente sempre que se reveem os estatutos.

Limitação de mandatos de dirigentes sindicais

Quanto à limitação de mandatos é apontada como uma das medidas mais sensatas para reforçar a democraticidade. Se o comentador diz que se já aplica (e lá concede que é proposta razoável) podia mostrar em que sindicato. Que há dirigentes bem conhecidos e relevantes com mais de 20 anos em funções (e que só limitam o tempo em que usam certas pilosidades faciais), .

Limitação ao poder dos reformados dentro dos sindicatos


Sobre a participação sindical dos reformados, o meu ponto é simples: quem se reforma deixa de ser trabalhador. Por muito que seja doloroso mudar assim a vida, o feixe de interesses muda. Eu tenho salário, um reformado tem pensão. Eu tenho horário de trabalho, o reformado, não. Eu pago certos descontos para a reforma, o reformado recebe-a, etc. Ter estas pessoas com interesses diferentes misturadas em organizações para ação sindical desvirtua as organizações. Ponto. Se os reformados querem ser representados façam “sindicatos de reformados” ou “ligas de reformados”. Devem ter interesses legítimos a defender, mas não são os sindicatos o local para isso. Os sindicatos são dos trabalhadores. E o facto de pagarem quotas altas, subtilmente até prova o meu ponto. Passava sem elas para ter sindicatos mais representativos.

Desagradável? Talvez. Mas é a vida. E nem vou ao ponto de fazer referências ao papel controleiro presente de certos reformados, dirigentes do passado.

O ponto é essencial: os sindicatos são para os trabalhadores. E trabalhadores são os que trabalham. (Estão a ver como sou mesmo chato com o meu kantismo categorial?)

Referendos prévios a acordos negociados pelos sindicatos


Sobre os referendos aos acordos que abranjam mais de 10% dos associados como condição prévia à assinatura o ataque foi mais feroz. E o comentador anónimo não foi o único. A proposta do Redonago, como lhe chamei noutro sítio, gerou um fartote de bocas e bitaites ofensivos.

Porque esse é o ponto mais pertinente no momento. Quando finalmente a Plataforma chegar a acordo (e anda a fazer de tudo para ver se inventa um entendimento qualquer, atamancado que seja, porque é preciso ir para férias) vai querer apresentá-lo como “grande vitória arrancada a ferros pela luta”. Uma “grande vitória”, afinal, tem de ser celebrada e não sujeita a ser posta em dúvida em nova deliberação pelos que a vão sofrer.

As vagas no 5º e 7º escalão fizeram parte de uma “grande vitória”, lembram-se? Por isso, o que vier desta negociação deve ser referendado (e não uma consulta manhosa como a que andou por aí há uns dias). E não me digam que a sua efetivação faria com que os sindicatos “não funcionassem de todo”.

Em primeiro lugar, pergunta de louco (mas Erasmo de Roterdão explica): os sindicatos estão mesmo a funcionar? Em segundo lugar: qual é a pressa? Em terceiro lugar: é assim tão complicado fazer um referendo? (Há mecanismos acessíveis que demoram apenas horas na operação). Em quarto lugar: não foi bom para os trabalhadores da Auto-Europa porem em prática regras referendárias? O exemplo deles devia frutificar. E a gravidade do caso presente que abrange os professores justifica. E em quinto lugar: Quem esperou 3 anos (desde que o “governo salvador” chegou ao poder) espera mais uns dias, certo?

Nota pessoal:

Louco, não sei, sou mau juiz para isso (mas pelos menos assino com o meu nome as bocas que mando, o que evidencia lucidez, acho eu). Nem um charrito fumei na vida…. Descendo de alguém com problemas de adição (não a substâncias) e sempre me preservei de riscos, por via do conhecimento do caso (ai se eu fosse para tribunal…. ía ser giro pedir dinheirinho por via da “grave comoção moral causada pelo comentário”).

Café ou açúcar, são drogas duras? Nesse dia, tinha comido uns fios de ovos, às tantas…. Mas sabe bem. E ver-vos à nora, ó comentadores anónimos, é tão divertido!!!

3 COMENTÁRIOS

  1. Foi o artigo que li nos últimos anos que melhor defende o Sindicalismo. Não ser conivente com esta tralha e dizer que o “rei vai nu”, é defender os interesses dos trabalhadores

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