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Disciplinar Faz Parte Da Profissão? – Helena Goulão

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Se procurarmos a origem etimológica da palavra vamos encontrar algo relacionado com “educação”, “aprendizagem”.
Assim, ser indisciplinado é ser mal educado, ser alguém que não fez aprendizagens sociais, que não cumpre as regras mínimas de cortesia.
“Bom dia.”…e ninguém responde. É indisciplina? É má educação? Em meu entender, ambos estão relacionados.
Começa em casa e reflecte-se na escola.
Os autocarros chegam, os Gandalfos saem com disposições várias, e é imediata a verborreia de asneiradas que lhes sai das boquinhas juvenis. Má educação.
Nos intervalos e nos corredores, o diálogo entusiasta reduz-se a palavras grosseiras, repetitivas e redundantes, fruto da falta de alternativa vocabular. Olho, e acreditem que este meu olhar, dizem os Gandalfos que me conhecem, é suposto ser mortífero-educativo-disciplinador, levo com risinhos na cara. Não suporto! Aproximo-me e tento chamar à razão a tropa de elite do Gang da Escola.
Por vezes, fruto do meu charme, a coisa funciona e, num sublime acto de condescendência, pedem desculpa e ficamos por aí.
Mas, na grande maioria das situações, erguem-se as cristas qual galos de capoeira, confronta-se aquela que ousa intrometre-se no círculo restrito do Gang. Trocam-se olhares ameaçadores, incrédulos, desafiadores,…Digo o que tenho a dizer e…silêncio. Com a sensação de missão cumprida,  viro costas e o inferno estoura. Risota e mais risota, “bocas” desagradáveis que, por hoje, não me apetece rebater. Rebater equivale a voltar atrás, lutar verbalmente e marcar uma posição de autoridade. Sim, infelizmente, sem autoridade não te levam a sério. Este é um clássico de má educação que se transforma em indisciplina a partir do momento em que tu intervéns e nada muda.
Podem pensar “Mas porque te metas nestas confusões?”…faz parte do meu papel de Professora. Assim o entendo e assim o pratico.
Combater a indisciplina, a má educação, é uma tarefa diária que me solicita muita da energia que necessito para chegar ao fim do dia com trabalho efectivo concretizado. Não me podem pedir o milagre de formatar jovens para o conhecimento dito académico, se gasto a maioria do tempo a programar esses jovens para as aprendizagens sociais que permite ultrapassar a indisciplina, a má educação.
Podia-me marimbar para tal e limitar-me ao programa curricular? Podia. Mas então não seria a profissional que pretendo ser. E, por favor, não me venham com os clichés de que não me pagam para isso (mas, de facto, não pagam!), que tens de justificar o não cumprimento do programa (temos pena!), que não atingiste a meta tal (o que são metas?), que te desviaste no estipulado nos DAC (ainda estou em fase de assimilação, sorry!)…
É que nada disto funciona, se não houver o básico…e o básico é ser disciplinado, bem educado.

Helena Goulão, in coisas&stufs, 4-6-2019

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