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Directores, Ímpares Entre Pares? A Grande Falácia

Ser professor não é um título. É uma actividade profissional. Ora, em nenhuma das Escolas Publicas onde trabalhei o director leccionava, não faz parte das suas atribuições. Numa delas não leccionava há mais de quinze anos… e como mudaram as salas de aula entretanto. 

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O artigo de opinião de Filinto Lima – director de Agrupamento de Escolas – “Ímpares entre pares”, publicado no “Público“ de 27 de Fevereiro, é bastante interessante. Tem o mérito de publicitar uma narrativa hegemónica entre os dirigentes escolares, de forma frontal e assertiva. Deve merecer a reflexão de todos aqueles que trabalham na Escola Pública.

Compreendo a posição expressa. Mas, devo esclarecer, não partilho dela. Bem pelo contrário. Simplesmente, porque contrasta com a realidade experienciada nas escolas públicas onde tenho leccionado ao longo da última década. Contrasta demasiado. Ao ponto de se afigurar uma ardilosa mistificação.

O director Filinto Lima começa por recusar que falta gestão democrática nas escolas. Eu tenho muita dificuldade em apontar espaços de democracia nesta Escola Pública onde pontuam directores autocráticos – o eufemismo fica sempre bem. Poderá contrapor-se, não é essa a prática configurada na lei. Todavia, é essa a lei resultante da prática. Uma lei que de tão experimentada se tornou inquestionável, aceite, natural.

É o resultado de uma relação entre director e professores demasiado assimétrica. O processo de eleição do director transcende a lógica da escola – como veremos. Realizada a eleição, são despiciendos os mecanismos efectivos que permitam sancionar ou controlar a acção do eleito. Ao invés, os professores parecem encontrar-se numa situação de subalternidade face a um titular da direcção capaz de condicionar aspectos essenciais do seu quotidiano, como o horário e condições de trabalho, ou a sua progressão salarial através da avaliação do desempenho do docente. Como se depreende, a um docente não é aconselhável uma apreciação crítica da liderança. Pode ser tomada como afronta, na melhor das hipóteses, é uma tonteira inconsequente.

Apresentar os directores como efectivos defensores da Escola Pública seria surreal, não lhe faltasse a graça. Temo que o esvaziamento democrático da instituição conduzido pelos directores possa, de algum modo, reflectir-se na transmissão de valores e práticas aos nossos alunos. Por exemplo, quando um director censura o uso do vermelho – essa cor suspeita … – num concurso para o novo logotipo da escola, como explicar aos alunos o valor da liberdade de expressão? De experiência feita, eu sei como o ministério sempre encontrou nestas direcções boas cumpridoras da sua política de esfacelamento da Escola Pública. Gente disposta a cumprir ordens. E a ir mais além. Todos vimos privatizar cantinas escolares para obter ganhos duvidosos no número de funcionários.

Não me demoro sobre a afirmada estima dos seus pares, os professores, dispensada aos senhores directores; apenas reparo como a estima é, facilmente, confundível com a simples deferência – guardo memória de uma directora tão agraciada em público quanto depreciada em privado. Mas não posso aceitar a identificação dos ditos pares com os professores! Lamento, a realidade não o permite. Não entendo professor como um título ou, tão pouco, um estatuto vitalício – à maneira do antigo regime. Se assim fora, no limite, seriam pares dos actuais professores todos os indivíduos que, nalgum momento distante, tivessem sido professores.

Ser professor não é um título. É uma actividade profissional. Ora, em nenhuma das Escolas Publicas onde trabalhei o director leccionava, não faz parte das suas atribuições. Numa delas não leccionava há mais de quinze anos… e como mudaram as salas de aula entretanto.

A mais astuta subtileza dos senhores directores tem sido, justamente, esta falácia, apresentarem-se como professores! Titular Ímpares entre Pares o artigo em apreço é mais uma dessas encenações. Aliás, repetida na ubíqua assinatura do artigo como Professor e director.

E assim os directores dizem-se colegas dos professores, Tratam-nos quotidianamente por colegas. Fazem parte dos mesmos sindicatos dos colegas. São tidos em alta consideração pelos sindicalistas dos colegas. Afirmam defender os colegas das bizarrias do Ministro… Mesmo quando a prática demonstra repetida e insistentemente o contrário. São a mão encapotada do poder ministerial junto dos ditos colegas! Basta lembrar quem na última greve às reuniões de avaliação pressionava os professores para abandonar o protesto optando por remarcar as reuniões adiadas com o intervalo mínimo, quando a lei a isso não obrigava, pelo contrário! E, claro, abstenho-me de apontar quem, de forma despudorada, pressiona os professores quando se afigura excessiva a taxa de retenções. Sim, postular a semelhança de condição com os subalternos pode ser uma ferramenta eficaz no uso do poder.

Os interesses de professores e directores, por vezes, são até bastante diferentes. Na natureza. Nem sempre educativa. Talvez, por isso, seja tão imperioso escamotear a divergência. Num exercício tão significativo quanto revelador – o jogo de espelhos é traiçoeiro – o director Filito Lima pergunta: Queremos ter nas escolas uma administração e gestão por nomeação política? Eu não queria, lastimo, já temos! E como a temos! Por certo, com maior visibilidade nas escolas da considerada província. Lembro-me sempre daquele agrupamento onde o director, ex-acessor do presidente da câmara, foi substituído, através de nomeação superior, por uma dirigente de um partido concorrente… porque o governo da República mudou. Ou daquele director caído em desgraça quando perdeu o apoio do Presidente da Junta. E todos sabemos, a começar pelos dirigentes escolares, como a eleição do director – via Conselho Geral – depende da anuência dos representantes autárquicos e dos seus apaniguados.

O artigo em apreço termina acenando com a validação da actual gestão escolar, melhor, o elogio dispensado por 70 diretores da Eslovénia em deslocação a Portugal, justamente, para conhecer aquilo de que ouvem tão bem falar. Que me seja perdoado o paralelismo simplista. Também eu ouvi um director fazer gala da vinda de uma delegação europeia ao seu agrupamento para observar a notável integração dos alunos da dita “etnia cigana”. O mesmo agrupamento onde, por sinal, apenas um dos alunos daquele grupo está inserido no currículo regular e o dito casamento entre menores ciganos é naturalizado como expressão de uma especificidade cultural. Poderá a apregoada inclusão até … incluir a exclusão? Um fenómeno notável!

Face a toda esta desconformidade do argumento do senhor director Filinto Lima com a realidade experienciada nas Escolas Públicas, insistir em misturar ardilosamente ímpares entre pares só pode conduzir a uma imparidade. Como sabemos, coisa danosa.

Luís Miguel Pereira

5 COMMENTS

  1. Um fulano qualquer ambicioso e sedento de mandar nos outros não se pode tornar um líder. Isso é um contrassenso. Para alguém ser um líder, tem que o ser porque os seus liderados lhe reconhecem qualidades para tal. Quando um qualquer triste, frustrado e ressabiado, atraído pelas luzes da ribalta (porque não tem brilho próprio) e pelos €€€ do suplemento remuneratório chega a Diretor, começa o fim da escola. Passa a ser uma fabriqueta de vão de escada com projetinhos para entreter, mau ambiente em todos os serviços e o ânimo dos professores a morrer às mãos de um carrasco sem qualidades. Este foi o plano hediondo congeminado pelos tristes ME de 2005 para cá; fizeram como o mais maquiavélico ditador perverso: querem acabar com a escola pública? Vamos inventar um regime de gestão em que eles vão apodrecer a partir do interior. E então criaram o Diretor e o Conselho Geral. Genial plano: em 15 anos destruíram totalmente a escola pública. Assim, quem tem €€ e cabeça, tira os filhos destes manicómios entregues à chinela.
    E em pouco tempo, todas terão como clientes apenas aqueles que não têm poder económico ou que não se interessam por nada disto. E os Diretores, contentinhos, reformar-se-ão depois de terem andando a comer croquetes em muitos buffets e no topo da carreira, felizes e contentes para sempre. E de terem amarfanhado os melhores, com aquele sorriso idiota de quem esmagou todos os que se julgavam mais “espertos” do que ele.

  2. Que fantástico artigo.
    Gostaria de saber se a regência da escola pública de hoje é de observância perante a Constituição da República e a LBSE.
    A CRIAÇÃO DESTE TIPO DE HIERÁRQUICO é democrático, num país democrático…NÃO É, e isso é evidente.
    Uma escola, num país democrático ela é democrática.
    Ora as decisões são tomadas em democracia…Mas, Não são…
    A escola existe em função das crianças e estas são seres decisores do amanhã…sem um modelo democrático, elas serão autocráticas…
    Este modelo não é democrático…corrói a democracia e dá ares sérios a ditadura…
    As Eleições Democráticas e livres para toda a acção da comunidade escolar é o ato de cidadania mais puro na liberdade de expressão e de respeito pelos seus.
    Um exemplo simples…a abstenção eleitoral existente em Portugal está ligada a este fenómeno de regência escolar… À que transformar o eleitorado logo no meio da sua educação que é a sua comunidade escolar com a possibilidade de poder decidir, de poder eleger, de poder opinar, de poder ser individuo holistico.

  3. Tudo isto. No meu agrupamento a diretora já não é efetivamente professora há uns 20 anos! Está tudo neste artigo.

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