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Pensamentos sobre dinossauros e ex-dinossauros diretores de escola

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Para arrepiarmos caminho, nas questões de género esclareço já que a opinião deste texto se aplica aos dinossauros e às dinossauras…..

O uso da palavra “dinossauro” é comum nas autarquias. Também faz sentido para outros casos de perenidade no exercício de funções públicas.

É o caso dos diretores de escola. Esse setor é um dos que provam mais visivelmente que não estão extintos, como sinal de uma atitude habitual na nossa coxa democracia.

Alguns já levam mais de 25 anos de funções e continuam. Alguns até já têm bustos no interior da escola, mas continuam.

Dinossauro Excelentíssimo foi uma fábula satírica de José Cardoso Pires, publicada no ano em que eu nasci (1972). Inspira-se na vida de Salazar e no Portugal do Estado Novo, num tom mordaz, mas amargurado. O livro está na linha satírica e de fantasia daquele que chamo o livro da minha vida (As aventuras de João sem medo de José Gomes Ferreira). Conta o percurso de um imperador, que reproduz a biografia de Salazar, que subjuga o Reino do Mexilhão, onde vivem os mexilhões, que tudo aguentam. Vale a pena ler e perceber que Salazar até pode estar retirado do cenário, mas ainda há candidatos a sósias.

No caso das escolas, os Dinossauros são tóxicos pela própria natureza da organização em que volteiam as suas longas caudas.

Mas quem quer ser réptil?

Tendo sido diretor, ninguém me poderá apontar, acho eu, incoerência neste capítulo. Defendi, há muitos anos (2007) a limitação de mandatos (aqui), no momento em que foi feita a lei 75/2008, que criou os Diretores, fui contra, defendi aí limitação de mandatos e defendi em vários locais (aqui no blogue, por exemplo) que uma das vias da eternização dos diretores (a recondução sem nova eleição) devia ser proibida.

Num mundo em que tanto se fala de flexibilidade e adaptação, os argumentos, pouco flexíveis e nada adaptativos, para manter lideranças enquistadas de décadas e não variar os titulares dos mandatos, são absolutamente ridículos. Ninguém devia poder ser diretor de uma escola mais de 6 anos, isto é, o que deviam ser 2 mandatos (no meu caso, fui 5 anos e 10 meses). Há quem me atire à cara (mal), ao dizer estas coisas, que terei frustração por já não ser diretor (demonstra-se, com documentos, que já não sou, porque escolhi não ser, por exemplo, aqui).

E o que está mal é precisamente isso: sem grande esforço de lutar pelo lugar conseguiria estar hoje com 12 anos de mandato seguido. E isso ser possível, está mal.

Para os que acham que há gente insubstituível, recordo só a frase que ouvi a um velho mentor político: o cemitério está cheio de insubstituíveis…

Estabilidade a mais provoca inércia

E o dano da estabilidade excessiva da liderança é dramático. Estagnação, pouca abertura à mudança, conservadorismo contra o mundo, captura por interesses, alheios ao interesse público educativo (sejam pais, grupos profissionais ou instituições políticas), perda de noção da realidade pedagógica (por falta de aulas…), subserviência face ao Governo e às politicas conjunturais.

Mudar é sempre bom, se não for recorrente. Por isso, ser diretor é uma função com mandato e que devia ter limites muito mais estreitos que os atuais (que hoje vão até 16 anos seguidos –!!!, para mais a acumular aos acumulados anteriores à lei 75/2008).

Em escolas por onde passei, já experimentei os efeitos da existência de dinossauros. Estive já em escolas onde os diretores o eram há mais de 20 anos: à força de lhes dizerem que são o rosto da escola, convenceram-se disso.

Já não percebem o desligamento que tem de existir entre o seu pensamento individual e o pensamento coletivo, que é função da liderança criar e não enxertar artificalmente da sua cabeça. Já não percebem que, para liderar democraticamente, tem de haver medo de errar e aceitar que nos apontem os erros. Que, onde todos dizem concordar, é preciso implantar dissensão para haver criatividade. Muitas vezes estão de mal, em silêncio, com os professores e sofrem o mal, em silêncio, que vem da pressão da hierarquia.

Ser dinossauro faz mal aos dinossauros…

Curiosamente, o maior prejuízo da atitude dinossauro, em diretores, é o prejuízo pessoal deles próprios. Decidi mudar de vida quando comecei a perceber que corria o risco de deixar de ser aos olhos dos outros o que sou (o Luís, professor, mau feitio, pessoa que tenta ser justa, bem disposta, com personalidade complexa, etc) para a minha personalidade acabar a ser vista, simplificada, pelos outros, apenas como “o diretor”. Tenho visto muitos casos de diretores (pessoas que até estimo) que não percebem este problema, ou o percebem demasiado tarde, quando já não conseguem regressar a ser professores (ou sair daquela vida), sem incómodos pessoais graves.

Tendo sido diretor pouco tempo (6 anos é pouco tempo…vejam lá!!!) nunca regressei à escola onde o fui. Seria difícil conviver com pessoas que dirigi num contexto desses. Não que me fosse impossível, mas teria um lado constrangedor, especialmente, se fosse logo de seguida. E para quem me sucedeu, seria errado eticamente que andasse, por exemplo, a comentar a vida da escola (que sempre seria o meu local de trabalho) ainda com a aura de quem, para o bem e para o mal, a dirigiu meses antes. Esse período de nojo fez sentido.

Ser dinossauro é vício…

Há gente que não tem esses pruridos e esses cuidados e acho que faz mal. Mas esse é o outro lado de ser dinossauro: a falta de desapego ao poder que, mesmo quando dele se saiu, até voluntariamente, faz esquecer os limites da decência. Já vi velhos dinossauros escolares que decidem sair, mas tentam arranjar marionetas para o lugar, ou não resistem a assumir-se como oposição “oficial” para, às vezes, sem outro interesse real ou hipótese de regressar, dourar a sua memória. Ás vezes, bem negra e sem douramento possível.

Fiz coisas erradas e, felizmente, muita coisa certa em funções. Mas, se uns meses depois, andasse pela escola onde fui dirigente a criticar ou intrigar estaria a degradar-me. Admito que seja difícil para quem continua na mesma escola onde foi diretor, mas é um esforço moral digno evitar isso.

Mas, quem chegou a dinossauro saberá perceber que há, na ética para exercer o poder, necessidade de ter sentido moral e personalidade na forma de o deixar? Se percecionasse isso, nem chegaria a dinossauro, certo?

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