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Diário de Bordo – E porque regressamos, alegremente, à escola em setembro?

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2015-07-17Entre aulas, preparação de aulas, reuniões, visitas de estudo, relatórios, papéis, testes, conselhos de turma, legislação e diretivas sempre em mudança, a que acresce, por vezes, turmas particularmente difíceis, em que as estratégia se, e nos, esgotam, e que nos levam ao limite em muitas, demasiadas, ocasiões, passamos o ano num corrupio, por vezes, à beira da exaustão e do colapso. Para alguém que não é professor, ou não lide/conviva de perto com um, esta realidade e o degaste associado, são absurdo e inconcebíveis. Afinal para muitos, demasiados, somos apenas uns “professorecos” que têm muitas férias/tempo livre, trabalham pouco e ganham muito! Não somos tidos nem achados em, praticamente, nenhuma decisão da tutela, que oscilam muito dependendo da cor política dominante. Somos pouco respeitados/reconhecidos pela sociedade em geral. Sentimo-nos, na generalidade das vezes, o elo mais fraco, facto pelo qual temos uma cota parte de responsabilidade!

Ao longo do ano letivo, especialmente, ao fim de um dia, particularmente, difícil, a muitos de nós ocorre o pensamento “E se mudasse de profissão? Estou cansado e saturado de tudo isto”. A questão que se coloca é, havendo alternativas, porque escolhemos regressar, alegremente, ao corrupio da escola em setembro?

Colocando de parte a resposta óbvia, baseada na questão da subsistência, essencial para todos, a persistência, ou a não desistência, deve-se, a meu ver, a dois pontos chaves: o gosto e o desafio que é ensinar e as relações de empatia que criamos. Confrontados com trinta personalidades diferentes confinadas num pequeno espaço, cujo principal objetivo, na maioria das vezes, está longe de ser o nosso – para eles, conviver; para nós, assegurar aprendizagens – é necessário assumir, de imediato, a liderança do barco, sem medos, dúvidas e não deixando espaço de, e para, manobra. Correntes contrárias surgem, é natural tal como é saber aceitar que, numa sala de aula, como na vida, é impossível agradar a todos. No entanto, há que trabalhar com, e para, todos mas com turmas tão grandes não é fácil, frequentemente, impraticável. Passamos, não raras vezes, por situações muito complicadas e difíceis de gerir, mas também há sempre momentos muito gratificantes, de pura sintonia e empatia. Estamos sujeitos a humores, assim como os nossos alunos, e o desenvolvimento de uma aula gere-se, frequentemente, em funções dos mesmos. É engraçado constatar que a maioria dos alunos é sensível ao nosso estado de espirito, tanto ou mais que nós ao deles. Ambos reagimos em conformidade, depois de um compasso de espera para avaliar os acordes e os compassos. Quando se conquista esta sintonia, a dança prossegue fluída e com ritmo q.b.

O nosso trabalho, ao longo do ano, raramente, é valorizado e/ou reconhecido mas, possivelmente, o mais importante é o que resiste e perdura, e surge, ou é realçado, por exemplo quando anos depois, encontramos alguns antigos alunos e constatamos que ainda se lembram de nós, como professores e pessoas, e, quando tentamos, procurando nos ficheiros da nossa memória, associar um nome à cara sorridente, somos então transportados pelos seus olhos, pelas suas memórias às nossas aulas com a sua turma, recordando saudosamente algumas interações/episódios caricatos e coisas que lhes tentámos transmitir, que foram muito além dos conteúdos programáticos.

O reconhecimento, que tantas vezes procuramos, surge inesperadamente, com outro valor e significado, num momento em que não há avaliações, nem dinâmicas de aulas envolvidas, e é dado com carinho, saudade, com verdadeira sinceridade, acompanhado de algumas das nossas expressões/piadas típicas e, de repente e inesperadamente, apercebemo-nos que a “nossa marca” permaneceu, que ajudámos a crescer! Infelizmente, não é assim com, e para todos, os alunos mas, às vezes, basta um brilho nos olhos e/ou um olhar de reconhecimento, durante uma aula, que nos transmite um pensamento não verbalizado “Consegui! Percebi, cheguei lá! Obrigada pela ajuda e pelo incentivo!”, ficamos de alma cheia e tudo parecer ter valido a pena. A capacidade de ler e interpretar a multiplicidade das linguagens presentes na nossa sala de aula é uma condição necessária para continuar a manter bem viva a chama e o desejo de ser professor e para nos tornar professores resilientes.

Curiosamente, quando o nosso ânimo começa, novamente, a esmorecer, há sempre um aluno que, de uma forma ou de outra, nos abre os horizontes à sua maneira: “Tivemos aulas menos boas, algumas foram uma seca, mas a maioria foram fixes e divertidas. Pode pedir para ser nosso professor para o ano e passar novamente 7200 minutos connosco? Sim, contei os minutos!”. A empatia e a leitura de estados de espírito funciona nos dois sentidos, aos alunos pouco escapa nesse campo, embora, por vezes, optem por não se manifestar, tal como nós.

Face a estes pequenos grandes momentos/recompensas, constatamos que, realmente, somos “importantes” e podemos fazer a diferença. Que é bom ser professor! Talvez seja, essencialmente, esta razão porque voltamos, alegremente, em setembro, contentes por conhecer caras novas e rever caras conhecidas, conscientes, mas expectantes, do percurso acidentado e nada fácil que nos espera mas com a esperança de ensinar, ajudar a crescer e “fazer a diferença”, deixando marcas de nós mesmos. Voltamos, não desistimos, persistimos, por que gostamos, temos prazer e orgulho no que fazemos!

 Pi

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