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Detox

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detoxO ginásio está cheio de pessoas e movimento, as vozes e barulhos das máquinas amortecidos pela música que as colunas debitam, a batida vigorosa a inflar energia nos mais renitentes. Na frente da imensa parede espelhada do fundo da sala, os rapazes meneiam-se para um lado e para o outro de pesos nas mãos. Ensaiam posições arrevesadas, posam de músculos retesados e semblantes carregados, a sobrancelha levantada a revelar o esforço displicente, as roupas vistosas manchadas do suor da labuta.

As raparigas correm nas passadeiras alinhadas junto às grandes paredes de vidro, as sapatilhas coloridas a calcorrear quilómetros, os olhares delas percorrem o recinto e demoram-se, avaliativos, nas lides dos moços. Entreolham-se a espaços, num riso cúmplice de apreciação ou troça.

Ao fundo, na penúltima passadeira, um homem de idade caminha lentamente. No tapete quase parado, esforça-se por continuar a levar um pé à frente do outro, a perna esquerda revela o arrastar característico das maleitas vasculares, o braço sem vontade própria inerte ao longo do corpo. Na passadeira ao seu lado caminha calmamente a mulher, o cabelo grisalho preso num singelo rabo-de-cavalo, os olhos sempre atentos aos movimentos lentos do homem.

As meninas estão agora a fazer um intervalo retemperador. Conversam entre si em frente das passadeiras paradas, enquanto bebem golinhos de água ou sumo das garrafinhas coloridas que trazem consigo. Uma delas dá um trago da sua bebida de tom violáceo e faz um involuntário esgar de desagrado. O idoso oferece-lhe um sorriso solidário: “coitadinha, está azedo, está? Se calhar esqueceu-se do açúcar…”

A rapariga reparou no casal pela primeira vez e sorriu também, respondendo com a voz desnecessariamente elevada: “não, não, isto não é doce!” E acrescentou, no mesmo tom alto e pausado: “é uma bebida detox”.

Os velhotes miraram a bebida com ar confuso, o que instou a jovem a acrescentar o generoso esclarecimento: “então, é assim uma espécie de bebida com ingredientes que desintoxicam o organismo; esta, por exemplo, tem sementes de chia, pepino, couve roxa e beterraba.” Conclui, nitidamente satisfeita com aquele seu momento de interacção educativa. As outras anuem com acenos de cabeça e exemplificam beberricando elas próprias as suas bebidas multicores.

“Ah, muito bem… nós nunca bebemos isso”, confessa o velhote, “ comemos é sopa”.

“Então, homem, vai dar ao mesmo. Não vai?”, pergunta a senhora com um sorriso afável. A questão faz as raparigas abanar a cabeça, num misto de incredulidade e condescendência.

“Claro que não!”, explica a primeira, com um revirar complacente dos olhos. E continua, na senda da generosidade educativa: “esta bebida é diferente: estes produtos são superalimentos e quando chegam ao estômago espalham-se i-me-di-a-ta-men-te no sangue e vão pelo corpo inteiro a eliminar as toxinas, até limpam os neurónios, que são umas pecinhas onde o cérebro guarda a inteligência! É por isso que convém ir tomando e fazendo exercício, para circular o sangue e fazer os superalimentos espalharem-se mais depressa. Estão a perceber?” – questionou, procurando assegurar-se de que a mensagem atravessava com clareza o tolhimento baço dos receptores.

O casal idoso soltou um “ah…” fraquito e comprometido e as meninas voltaram às corridas, agora com o ânimo redobrado do dever cumprido. Os velhotes continuaram a caminhada lenta, o homem em nítido esforço de ressurreição dos membros ausentes. Um sorriso, contudo, consegue romper o semblante de esforço. “Se calhar, alguém havia de desenganar as miúdas…”, murmura. “Talvez dizer-lhe uma coisa ou duas acerca da existência do fígado e dos rins… sei lá.”

“Naaaa…” dizem em simultâneo e olham-se longamente com largos sorrisos a arregaçar as rugas.

MC

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