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Desistir da escola no século XXI

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interrupçãoEstamos em fevereiro de 2016, século XXI. Pergunta (talvez parva): que sentido fará uma criança desistir da escola? É pergunta de retórica assumida que utilizo como pretexto e orientação de escrita desta semana.

Sendo docente e estudioso da educação (história e politicas) percebo o percurso feito por muitos de nós, em particular aqueles que, por vicissitudes várias, abandonaram a escola – por opção ou por imposições várias e diversas. Percebo que um tempo condicionou, limitou e cerceou hipóteses, adiou sonhos, atrasou expetativas. Adiou sonhos que, por via das letras e dos livros se colocavam em nós. Adiou expetativas que todos colocavam no futuro de cada um e de todos.

Direi que, sendo a minha formação inicial em história (com forte pendor para a história social) compreendo que no século passado as crianças abandonassem a escola a despeito de sonhos, expetativas ou das ambições que pudessem ter ou existir. Percebo que houve um tempo que trabalhar era mais forte, ajudava-se em casa, criava-se o seu espaço de autonomia e independência (pessoal e/ou familiar), como e em particular, se fugia ao trabalho duro dos campos. Percebo e entendo que o conceito de jovem (como de adulto) se alterou e reconfigurou, fruto dos tempos como dos modos de ação coletiva.

Procuro perceber o percurso feito por todos nós, portugueses, no incentivo à escola e à escolarização. Foi este percurso que levou e permitiu que sucessivos governos criassem políticas, definissem opções que contrariassem a constante sangria que o abandono escolar promove. Foi a persistência dos números do abandono que levaram à criação de projetos e programas que tiveram (e têm) como principal objetivo contrariar tendências de abandono. Independentemente dos governos e dos seus enquadramentos ideológicos e/ou partidários, todos, repito todos, criaram, reformularam e apoiaram estratégias de promoção (para uns até de facilitação) dos percursos escolares.

Procuro compreender e em entender todos aqueles que expressam a ideia (e transmitem o sentimento) que é dever do aluno empenhar-se e permanecer a despeito de tudo o que o faz, rodeia e implica. Procuro perceber os senhores diretores quando falam das limitações, impossibilidades, quando não mesmo ilegalidades, que têm de ser cometidas e assumidas e esgotam alternativas (ou possibilidades, ou dizem eles). Procuro aceitar que os professores tudo fizeram, daquilo que estava ao seu alcance, para que o aluno permanecesse na escola. Procuro nem sequer duvidar que o seu alcance pode ser curto e escasso e que é preciso ir mais longe.

Juro, procuro perceber, compreender e até, por vezes, aceitar tudo isso.

Mas fico, sinto-me com o coração apertadinho quando perco um aluno para o abandono. Sinto que fiquei àquem daquilo que devia e não daquilo que está ao meu alcance. Sinto que não fiz tudo o que devia ter feito, a despeito de limitações, possibilidades ou autorizações. Uma criança vale sempre muito mais que quaisquer regras ou limites que seja.

Por tudo isto (pelos tempos, pelas políticas, pelas opções, pelas circunstâncias), torna-se-me manifestamente difícil entender, perceber e mais ainda compreender, o que leva uma criança a abandonar a escola, contrariando tudo e todos.

Na semana passada, a última daquele mês de janeiro deste ano de 2016, dei início ao relatório que estará na origem da referenciação de um aluno por abandono. Estamos em 2016, não consigo compreender como é possível o abandono escolar. Tem 15 anos, está no 7º ano de escolaridade do ensino regular. Não abandona a escola, abandona-se a si.

Manuel Dinis P. Cabeça

01 de fevereiro de 2016

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