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Desempenho Escolar E As Emoções: O Medo

Se o reconhecimento das emoções é difícil de ser feito pelo próprio, pelo professor é um desafio gigante.

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Somos feitos de matéria que se subdivide em sistemas, órgãos, células, moléculas, átomos…, a matéria que vemos, sentimos, ouvimos – o nosso corpo. No entanto, somos muito mais do que esta matéria palpável, visível, audível. Somos também emoções e sentimentos que se  sentem mas que não se “vêem” e não se “ouvem”. Podem perfeitamente ficar retidos no interior de si próprios. Muitas vezes, jamais são reconhecidos pelo Eu e muito menos pelos outros. Trazer o porquê das emoções e sentimentos à consciência é deveras difícil. Por vezes nunca surgem conscientemente e desencadeiam comportamentos aparentemente opostos ao que pretendem manifestar. O medo é uma das emoções primárias que surge na sequência da necessidade de sobrevivência. Iniciámos o nosso processo social conjuntamente para que a defesa de predadores fosse facilitada, em conjunto a força aumenta do ponto de vista físico. Desse modo, a sociedade foi crescendo em torno de algo de complexa explicação mas compreensível – “Se estou sozinho tenho medo de predadores, e da solidão”.

Mas estamos numa sociedade repleta de estímulos, quer sejam virtuais ou materiais. Porquê este medo de predadores ou da própria solidão?

A própria sociedade criou a solidão. A compartimentação daquilo que somos como pais, mães, profissionais, pessoas gera solidão. Gerou a grande diferença. Se vos disser que todos somos iguais, talvez considerem insensatez. Mas o que é facto é que somos todos iguais dentro das diferenças que a sociedade criou. Quando nos sentimos sós estamos expostos ao predador, seja ele qual for. Quando falamos em predador pensamos automaticamente num animal a caçar outro. Mas na sociedade os predadores são outros. Poderia falar de muitos (até da própria sociedade, em si) mas vou-me focar na escola. Todos passámos pela “selva” que é um recreio escolar. Saímos da sala de aula, onde estivemos salvaguardados, e temos automaticamente que encontrar a nossa tribo, caso contrário se ficarmos sozinhos estamos expostos ao predador. Num inconsciente coletivo é isto que sentimos. Está na nossa memória corporal a luta pela sobrevivência e a escola jamais é exceção. Saímos da sala de aula onde estivemos protegidos pelo lugar onde nos sentámos, que é o nosso abrigo, muitas vezes resguardados na última fila ou eventualmente onde o professor escolheu (que desconforto se o lugar é demasiado exposto). Para todos o lugar da sala de aula é uma forma de comportamento. E se estou na última fila sou interpretado como aquele que se desinteressa pelas aulas; se estou na fila da frente sou interpretado (sobretudo pelos colegas) como o que gosta de se evidenciar perante os professores; se fico sentado de lado encostado à parede demonstro que quero controlar a sala, inclusivamente o professor; quando nos sentamos no meio da mesma estamos na média da curva normal e ninguém dá por nós (pelos vistos é o melhor lugar, mas nem sempre é confortável para todos – o meio representa exposição para muitos). Pois é… até onde ficamos sentados representa para os outros algo. Mas estes aspetos demonstram uma forma de defesa pessoal – manifesta a minha zona de conforto, que muitas vezes é o medo. O que advém do lugar onde fico sentado na sala de aula surgirá consequentemente.

Somos o que somos e o medo de ser devastado pelo predador está incutido na nossa pele e faz parte de nós. É um inconsciente coletivo humano social, a mesma sociedade que criámos e que agora pode ser predador.

Este medo quando levado ao extremo ultrapassa os limites da defesa e proteção apenas. Pode atingir níveis de pavor, ou de desespero. Quando isto acontece, qual é o foco do aluno na escola e em sala de aula especificamente? O foco é o medo e como se pode defender. O que acontece a seguir? Anulação do foco para a aprendizagem. Imaginem que o medo, que pode atingir níveis traumáticos por algo que possa ter sido vivenciado (por exemplo bullying), faz com que o aluno em sala esteja sempre “distraído” com algo. A chamada distração pode ter a ver com um processo de medo pelo qual o aluno está a passar e com isso dificilmente conseguirá aprender. Como disse anteriormente, se o reconhecimento das emoções é difícil de ser feito pelo próprio, pelo professor é um desafio gigante. Mas há que estar atento, somos todos iguais na nossa diferença. Aceitamos a diferença de género, trabalhamos isso nas escolas, mas deixamos as emoções de parte. E grande parte do que sou é emoção. A forma como vejo o mundo está de acordo com as minhas vivências e assim expresso as minhas emoções. Também como já referi inúmeras vezes o medo trunca-nos a evolução: é necessário fazendo parte da sociedade como forma de sobrevivência, mas quando ultrapassa os limites do que é necessário é semelhante ao processo de inflamação. Quando temos uma ferida física, por exemplo um corte, o nosso organismo reage com um processo de inflamação que inicialmente é de cura, mas se ultrapassa esses limites torna-se prejudicial contribuindo muitas vezes para cicatrizes destorcidas. Transportem isto agora para o que somos enquanto emoção: se o medo (e este é apenas uma das emoções) ultrapassa os limites do que é o inconsciente coletivo de sobrevivência, causa dano e cria cicatrizes tortas. Jamais devemos avaliar um livro pela capa, como se diz, pelo que devemos interiorizar o que se passa com este aluno “distraído” e entender junto do próprio, dos pais e até dos técnicos se poderá estar um medo subjacente que lhe consuma o espaço de aprendizagem.

Somos os que somos, mas isso jamais justifica que não possamos transformar mazelas em benefícios quando bem apoiados pela comunidade educativa e pela família.

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

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