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Descontinuidade Pedagógica – Paulo Guinote

Ficámos presos numa situação que, de ano para ano, mina num crescente número de escolas a possibilidade de constituir equipas pedagógicas que consigam acompanhar os alunos ao longo dos ciclos de escolaridade, devido à elevada rotação de docentes como resultado inevitável de uma política de gestão dos recursos humanos que nos últimos 15 anos privilegiou qualquer cêntimo de “eficácia financeira” a uma verdadeira “eficácia pedagógica”.

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Perdemos todos, desde há muitos anos, a guerra da estabilidade na produção legislativa em matéria de Educação. Perderam os professores a batalha da estabilidade laboral, algo que não pode ser escondido com vinculações que por serem “extraordinárias” e feitas nas condições em que são, revelam mais sobre o que tem sido a instabilidade de décadas de trabalho de muitos professores do que qualquer boa vontade dos últimos governos. Perdem agora os alunos, sem culpa alguma e nada que possam fazer, a batalha da continuidade pedagógica, condição mais do que relevante para o sucesso consolidado das aprendizagens e para eliminar desnecessárias situações de ruptura e descontinuidade no trabalho dos docentes com as turmas.

Em tempos em que muito se fala de outras questões, como a “flexibilidade” ou a “diferenciação” pedagógica, e em que se exacerbaram as exigências do sucesso estatístico-administrativo, ficámos presos numa situação que, de ano para ano, mina num crescente número de escolas a possibilidade de constituir equipas pedagógicas que consigam acompanhar os alunos ao longo dos ciclos de escolaridade, devido à elevada rotação de docentes como resultado inevitável de uma política de gestão dos recursos humanos que nos últimos 15 anos privilegiou qualquer cêntimo de “eficácia financeira” a uma verdadeira “eficácia pedagógica”.

Essa política teve duas vertentes que se complementaram na perversidade dos seus efeitos. Em primeiro lugar, considerou-se que os professores mais velhos deveriam cumprir mais tempo de serviço nas escolas e, em seguida, que deveriam “fazer mais com menos” o que conduziu a situações de progressivo esgotamento psíquico e físico, natural numa profissão que se caracteriza por uma enorme exigência em termos de relações interpessoais numa hora ou dia de trabalho. Esta política apostou, em segundo lugar, na promoção da inveja dos “novos” perante os “privilégios” dos “velhos”, ao mesmo tempo que, sem que aqueles aparentemente se apercebessem, ia erodindo de forma crescente as condições de trabalho de todos e precarizando ao extremo as dos professores contratados, ao criar múltiplos entraves ao completamento de horários de docentes substitutos na mesma escola ou agrupamento, obrigando-os a concorrer a dois ou três horários diferentes para o conseguirem.

Eu explico melhor para que se perceba a genialidade desta forma de poupar uns milhares de euros sem qualquer respeito pelos interesses, já não digo dos professores, mas dos alunos que, num crescente número de situações, passaram a estar sem professores em múltiplas disciplinas: um docente com problemas de saúde e que coloque atestado, se tiver horas de redução da componente lectiva (mesmo só 2 ou 4, o que é comum quando grande parte tem mais de 55 anos), leva a que seja colocado a concurso um horário que é incompleto para um professor contratado. Há 20 anos isso era rapidamente ultrapassado por muitos órgãos de gestão (nem todos, porque sempre existiram os “racionalistas financeiros” pré-troika e pré-centeno) que completavam esses horários com apoios aos alunos ou outras funções de apoio a serviços da escola. Se existiram abusos? Sim, claro, mas em vez de os fiscalizarem, foram-se criando procedimentos que levaram ao sacrifício de uma larga maioria de gente cumpridora por causa dos desmandos de uns quantos que quase todos sabíamos quem eram em cada zona do país.

Agora, é necessário que o professor substituto ande a “correr capelinhas” para ver se consegue as horas necessárias para completar o seu horário, com as óbvias consequências ao nível do seu cansaço e disponibilidade para se dedicar a projectos que, no ano seguinte, serão apenas uma memória.

E deste modo se foram destruindo as condições para que a continuidade pedagógica ao longo dos ciclos de escolaridade, com conselhos de turma a funcionar como verdadeiras equipas pedagógicas, permitisse as melhores condições para um trabalho sem rupturas anuais (ou semestrais) com os alunos. Mutos dos mais “antigos” não aguentam muito tempo sem cederem perante o acréscimo de exigências (agora até se recolhem manuais e se andam a apagar apontamentos, para além de uma miríade de deveres de tipo administrativo), enquanto muitos dos mais “novos” acabam por recusar horários de forma sucessiva ou são obrigados a verdadeiras corridas de obstáculos diárias para conseguirem um ilusório tempo de serviço.

E eu penso até que ponto os promotores deste tipo de “eficácia” sentirão que estão verdadeiramente a defender o “interesse dos alunos” ou o mais exaltado “bem comum”. Eu sentir-me-ia envergonhado. Mas sou um modelo “velho”, pouco sensível às teorias da pseudo “boa governança”.
Paulo Guinote, in Educare, 4-10-2019

3 COMENTÁRIOS

  1. Tem toda a razão. No entanto, é importante sublinhar que para os alunos não perderem é fundamental garantir o bem-estar dos professores. Este, de facto, não existe, nem para os novos, nem para os velhos. Não é apenas a idade, são também todas as tarefas inúteis e toda a pressão que é feita para que, aparentemente, ou seja estatisticamente, os novos modelos funcionem. Multiplicam-se reuniões inúteis, ações de formação vazias de sentido, que tropeçam nas questões práticas, muitas delas elementares. Assim vamos…
    A educação é o bonsai dos governos e o futuro mostrará a saúde da “planta”!

  2. Como comentei no blogue do Paulo:

    Muito bem dito!

    Muito à custa da precarização do trabalho docente, da desregulamentação da carreira e do trabalho e da Menorização e Humilhação dos Professores e do seu Estatuto!

    …as consequências maiores e mais nefastas serão para os alunos e futuros activos deste país…
    Enquanto os pais não perceberem estes mecanismos…, que evidenciam o como, pura e simplesmente, o governo considera inútil gastos financeiros com os seus filhos … e que a conversa da Flexibilidade/ gestão curricular “à lá carte” e inclusão (não para combater dificuldades e insucesso mas apenas para, sem gastos, obrigar ao sucesso 100%) não é nada mais, nem nada além, do que poupança e no curto prazo uma forma ardilosa de substituírem áreas científicas em falta, empobrecendo (ainda mais) o Conhecimento e o Saber …
    Enquanto os pais se deixarem ir nos discursos pseudopedagógicos e pseudomodernistas embalados no sucesso fácil do seus filhos…,

    …talvez seja preciso primeiro avaliar a perda para perceberem quem, de facto de preocupa com os seus filhos, com as suas competências Académicas e também as suas competências sociais… Será, todavia, tarde…pelo menos para essa geração!

    Ou são os professores a lutar pela Escola, por Si próprios, pelo Conhecimento e Saber, pela civilidade e urbanidade dos seus alunos ou ninguém mais o fará.
    Ao contrário do que muitos dizem, Professores e Alunos são a mesma face da moeda!

  3. O que posso dizer:só quem é professor realmente sabe o que ser humilhado,desvalorizado.Professor tem que mostrar resultado mesmo sem assistência que conduza alunos ao verdadeiro aprendizado.professor é gente é humano,tem dor,tem sentimentos e para variar,ganham menos que qualquer vendedor de picos.São tantos os motivos que tal profissão não desperta interesse algum. para que alguém busque por tal formação

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