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Desafios, dilemas, contradições

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Os tempos que correm são algo … esquisitos. Sinceramente não sei definir ou sequer caracterizar com rigor os tempos que sinto viver por estas minhas bandas (em primeiro lugar no distrito de Évora, depois no Alentejo e seguidamente no país). Falo de educação e como os tempos se repercutem na escola, na sala de aula, nas relações ali estabelecidas (desde sempre, é verdade, mas agora com outros contornos, que vão além do simples maniqueísmo).

Passa por um assumido desafio, o de reconfigurar os modos da ação educativa. O crescimento, a democratização e a massificação da escola pública portuguesa ficaram para trás. Se é certo que não poderemos nunca  dar por garantidas as conquistas feitas ao longo da democracia, também é certo que o caminho feito, os princípios que se enraizaram não perspetivam que se regresse atrás. Contudo, nota-se, aqui e ali, tentativas de dizer e fazer com que antes é que era bom, que o rigor e a exigência escolar deve ser seletiva, separar e diferenciar os que conseguem e querem dos que não conseguem nem querem. Noto aqui e ali, que há quem queira pensar pela cabeça dos outros, seja ele o aluno, seja ele o contexto social da escola, seja ele o professor e fazer a separação entre quem segue e quem fica, quem tem futuro e a quem se lhe rouba o presente. Mas se a democratização e a massificação ficaram para trás, o que se lhe segue, quais os desafios da escola de hoje? O sucesso? A inclusão social e escolar? A diferenciação? Os interesses e vontades de quem a frequenta? A organização?

Num outro campo mas no mesmo contexto da escola pública, vivemos um dilema da própria (re)configuração das culturas socio profissionais. Primeiro as culturas profissionais. Hoje à luz de princípios e ideias que há muito, mesmo muito tempo não se afiguram presentes, mas que persistem numa memória coletiva, a do papel, preponderância e protagonismo social do professor. Este campo é o da autoridade, do respeito e do poder do professor (ou da escola) que se questiona, confronta, ressente, como se um qualquer desses conceitos fosse outorgado e não conquistado, dado e não assumido. Mas é também o dilema das culturas de escolas. Culturas que foram desmanteladas por políticas educativas que nos roubaram a história e a memória coletiva e afundaram a escola em campos de incerteza. Deixámos as escolas com identidade, as reconhecidas por isto ou por aquilo, por este ou por aquele docente, por esta ou por aquela prática. Escolas que eram referência (local, regional, nacional). Hoje essas culturas de escolas estão esfrangalhadas (as escolas, as culturas e as identidades) entre indicadores, metas e objetivos que em nada honram ou cumprem memórias, que olham ao presente imediato.

Depois sinto viver, mesmo em mim, as contradições de um mundo que é, em si mesmo, contraditório. Desde logo porque fui formado num espírito humanista, na consideração que o processo de ensino aprendizagem é relacional, emotivo, afetivo. Fui formado na perspetiva que o tempo fala mais alto, que nos dá argumentos, que permite consolidar aprendizagens, conhecimentos, relações. Hoje tudo colocado em causa num mundo que nos impele ao deslizar por tudo, mesmo pela vida, como se desliza pelo ecrã do smartphone onde nada nos prende, nem mesmo uma imagem. O tempo é fluído, rápido, pretensamente instantâneo onde a duração de uma aula é uma eternidade, os comportamentos são voláteis, as relações meros vislumbres de afetos, mas prenhes de interesses vários. Onde se sente, cada vez mais, o fosso entre quem ensina e quem aprende.

Conclusões? Alternativas? Para quê, afinal é Carnaval e ninguém leva a mal (espero eu, pois claro).

Manuel Dinis P. Cabeça, 27 de fevereiro, 2017

Coisas das aulas.

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