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Desabafo de alma em 3 episódios: fui à catequese Turma mais….

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Começo por pedir desculpa por o texto ser longo. Por causa desta coisa da Turma Mais, além da papelada que tive de ler (podem ver um resumo aqui) sofri tratos de polé com uma homilia em vídeo com mais de 17 minutos. Mas acho que pode ser útil partilhar a minha impressão perante a injeção doutrinal.

O longo desabafo de alma vai dividido em 3 episódios.

O primeiro (este, I) tem a ver com o resumo dos problemas que me ficaram, como catecúmeno pouco crente, fruto de umas ideias heréticas sobre articulação e excelência, que me suscitam esses pesos na alma.

O segundo (amanhã, IITurma Mais: a excelência, os burocratas articulados e as melgas) tentará analisar, com algum detalhe, um vídeo resumo sobre o que é a Turma Mais, que foi incluído no programa da minha catequese. Quem quiser ver esse momento altíssimo da comunicação pedagógica em Portugal pode ver aqui. Na biografia dos protagonistas, um deles (Teolinda Magro) é mesmo apresentada  como a criadora da Turma mais.

Podia sugerir-vos outro vídeo, feito 4 meses depois, com o mesmo elenco, em Junho de 2013, com o sugestivo título de “TurmaMais: um projeto holístico centrado na missão da escola” mas, como nesse caso, se aplica o que acontece no cinema a sério (a sequela é bem pior que a 1ª obra da série), poupo-vos ao que sofri. Não devia ter duvidado de que normalmente as sequelas são mesmo filmes medíocres.

libro-digital-que-hacer-de-vladimir-lenin-completo_MLA-O-4350587650_052013O terceiro texto (III – Se a droga é boa porque não reforçar a dose?) continua essa análise, olhando para os aspetos burocráticos e uniformizadores, que a Turma Mais traz consigo, por detrás de uma capa bastante balofa de alegada adequação pedagógica e até o santo e senha destas coisas: “mais autonomia”.

Aí responderei à pergunta leninista: que fazer perante tal coisa?

Espantará a minha decisão de ser zeloso (diria mesmo ultra zeloso).

Os problemas da alma de um catecúmeno Turma Mais….

Problema inicial: Se a Turma Mais (e a separação temporária dos alunos em grupos de nível) é assim tão boa, porque não tiram os seus defensores a máscara e assumem turmas de nível sempre?

Proposição crítica: Talvez porque o “temporário” seja a única forma de esconder e tentar tornar tragável a consagração prática, contra princípios democráticos, de um mau processo de separação e desigualdade por níveis.

 Problemas derivados do inicial:

  1. Em que estudo ou pesquisa, independente dos cultores da prática, se obteve alguma vez prova segura de que os resultados de aumento do sucesso dos alunos imputáveis a projetos do tipo Turma Mais se devem realmente ao seu modelo organizativo das turmas e não ao efeito simples de que as Turmas Mais (ou similares) são mais pequenas do que as que existem à partida? (Já procurei e não encontrei nenhum que respondesse a esse problema).
  2. Não havendo essa prova, porque é que em vez da suposta, e talvez redundante, “revolução organizativa” das turmas não se reduzem as turmas para 20 alunos, simplesmente?
  3. Porquê um modelo, que se diz centrado na articulação dos professores, mas que segrega e desarticula os alunos por níveis?

Articulações e excelência

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Quando ouço falar dessas ocas palavras escolares da moda (articular e excelência) lembro-me sempre de como sou excelente a usar as minhas articulações. Fiz uma fratura muito grave de fémur aos 21 anos (fiquei com um défice de força de 20%) e o facto de, hoje, conseguir andar e dobrar o joelho (mesmo que não o faça totalmente) é um ato quotidiano de excelência, porque implicou larga superação (meses de fisioterapia diária). Mas as articulações que ligam o fémur à tíbia e ao perónio e o fémur à anca só ficaram bem, quando os músculos da coxa e da perna recuperaram e se fortaleceram autonomamente. Sem essa recuperação da autonomia de funcionamento dos músculos, não havia articulação que me valesse.

Na escola, a metáfora é evidente: como pode alguém achar que vai articular melhor, enfraquecendo os músculos ? Vai articular o quê?

6768752693_c1c8ccdf71_bEssa ortopédica experiência pessoal faz-me também ter uma ideia muito peculiar e impopular sobre o que seja excelência na escola. Coxo que sou, posso não correr muito mas, por conseguir andar (quando médicos habilitados chegaram a duvidar que o fizesse de novo) posso dizer de mim ser um caminhante excelente. Superei-me.

Sou portanto um coxo excelente….

Ter muitas notas escolares de 5 ou 20 pode não ser excelência por aí além para quem tenha todas (e mais algumas…) condições para isso, face a um aluno que tira 3, por impulso de superação e esforço inaudito e que até tem o mundo contra si. O aluno que tira 20 tem a satisfação do próprio 20, mas anda muita gente preocupada com o reconhecimento do seu mérito e em dar-lhe mais apoio.

E o aluno que tirou 3 ou 10, no meio de um destino social que o mandava para o chumbo? Alguém se preocupa realmente com lutar a sério contra esse destino social, atuando no domínio social? Querem fazer sucesso, sem mudar as condições sociais do sucesso, ignorando a sociedade?

Promover o sucesso de quem já o tem…

E mesmo conhecendo eu as palavras desdenhosas do elenco do vídeo que comentarei sobre o “combate ao insucesso escolar”, insisto que é errado incluir nos projetos de promoção do sucesso, agora em voga no ME, o objetivo de aumentar o sucesso dos que já o têm.  E é esse objetivo que confessadamente (dizem os próprios catequizadores da coisa), o projeto Turma Mais também tem.

407291843_116332d9a1_zChocam-me muito as reportagens em que os jornais e televisões mostram os alunos de 20, como objetos exóticos, quase fenómenos de feira. Por essas e por outras é que um dos filmes da minha vida é o Homem elefante de David Lynch, que se aplica bem a estes temas.

Curiosamente, os alunos de 20 mostram muitas vezes muito mais sensatez que os jornalistas (e até alguns professores) quando falam com naturalidade desses resultados, que são mostrados na imprensa como feitos dignos da ida à Lua.

Alguns fazem-me lembrar a minha avó que dizia sobre as minhas notas escolares que, se eram boas, isso era só natural (“dado não ter outras cabras para guardar”). Lembrei isso anos depois ao ver o gosto de aprender de um aluno que das 6 às 8 da manhã pastoreava ovelhas e cabras que, depois das aulas, ía acompanhar outra vez.

Poblador_pastoreando_un_rebaño_de_cabras.Por isso me irritam certos discursos e conversa mole e levezinha sobre a excelência, que vejo proliferar, como infeção escolar em projetos, modelos e supostas “inovações inovadoras” com marcas várias com sinal + e muito  empreendedorismo pedagógico bacoco, até financiadas pelo nosso ministério de educação. Prefiro claramente discursos como os desta mãe.

Termino assim esta introdução à minha expedição à Turma mais, com um texto carregadinho de valores, bastante longe das perspetivas de muitas escolas, algumas ditas de sucesso e excelência.

Lê-lo (e pensar que foi escrito por uma encarregada de educação) devia fazer pensar (e talvez corar) os cultores do discurso da “excelência aos molhos” e das turmas mais para ajudar quem já tem sucesso.

Amanhã, veremos então um exemplo filmado do esplendor e virtudes cardinais da Turma Mais que, pelos vistos, caiu no goto do nosso ministro e seu séquito e que infelizmente tive de ver com atenção. (Continua)

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