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Depressão Infantil

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“A visão mais clássica da depressão da infância, na realidade é contrária e extremamente diversificada: agitação muito intensa, dificuldade em manter a atenção (combinação explosiva que a psiquiatria e psicologia moderna gostam de rotular de hiperactividade com défice de atenção), comportamentos de oposição, irritabilidade, delinquência, debilidade cognitiva, confabulações, somatizações, insónias, terrores nocturnos, enurese Enfim, poder-se-à afirmar que as manifestações da depressividade na criança apanham todo o espectro conhecido da psicopatologia. Dito de outro modo, é como se as manifestações clínicas fossem construções em cima da depressão.”

Fonte: http://uptokids.pt/saude-e-bem-estar/notas-sobre-a-depressao-infantil/

MariaNa semana em que saiu um artigo intitulado: “Saúde mental: Os portugueses são mais vulneráveis ao sofrimento”, uma área ainda povoada por estereótipos, incompreensões e onde ainda existem muitos lugares comuns é importante falar sobre “depressão infantil”, recordando assim um artigo que li há pouco tempo.

Ouvi falar pela primeira vez sobre depressão infantil há alguns anos atrás pelas palavras de alguns amigos psicólogos que citavam Coimbra de Matos. A minha profissão permite-me situar este tema apenas nas manifestações em contexto escolar.

Através de várias conversas e algumas conferências consegui compreender aquilo para o qual continuo a chamar a atenção – a tendência para padronizar comportamentos e encaixá-los em rótulos, sem tentar compreender a sua causa. Aplica-se um tratamento standartizado igual para cada criança/jovem. Todos são o Manuel e a Maria sem o serem.

O primeiro pensamento que nos ocorre quando tentamos conceptualizar a depressão infantil é a nossa referência sobre a depressão em adultos. Tristeza, inércia, introspeção, introversão. Por referência seriam estes os comportamentos que poderíamos imaginar. No entanto uma criança ainda não possui a mesma capacidade e amadurecimento de um adulto para poder utilizar ferramentas de comunicação e atribuir significado ao que sente. As manifestações passam por negação, recalcamento, repressão e projeção. A criança não se deita na cama de estores fechados, ela manifesta o seu sentimento através de outros processos; comportamentos agressivos; projeções e através de agitação psicomotora. É a forma que encontra para expressar o que sente e que não consegue verbalizar. Em muitos casos o que deprime a criança faz parte do contexto próximo e, ao contrário dos adultos, não lhe pode fugir.

Por vezes os objetos de referência (brinquedos) e as histórias funcionam como um canal de comunicação para melhor podermos compreender aquilo que uma criança sente e desta forma tentar chegar à raiz do comportamento.

Ao analisarmos estas manifestações da depressão infantil rapidamente podemos encontrar eco em muitos relatórios colados a muitas crianças e jovens. Conseguimos identificar a agressividade de uma criança, senti-la na pele, ficar exausta e extenuada com a sua agitação psicomotora. Ficamos sem saber o que fazer e desejamos apenas que seja “normal”, suportável. Identificamos nestas manifestações categorizações e nomes que aparecem diversivas vezes em “pop up” na internet. Palavras e chavões que ouvimos de boca em boca e que registamos para atribuir um nome, alheios à causa, à raiz do comportamento. A verdade é que tememos demasiado errar enquanto pais ou professores e uma gaveta com um nome para o comportamento é bastante tranquilizador. Devemos refletir que ao não compreender na essência o que faz uma criança/jovem agressiva, “hiperativa”, reativa, “opositiva” vamos inconscientemente reprimindo cada vez o comportamento não desejável por vezes (muitas vezes) com a ajuda de fármacos e apertando assim o cerco da solidão.

As decisões da intervenção educativa ou medicamentosa são, em última análise, da responsabilidade dos encarregados de educação, os responsáveis pelos seus educandos. Mas enquanto professora de educação especial é meu papel, também, alertar para a existência de outros conceitos que podem ser a causa das manifestações de comportamentos que conhecemos sem os catalogar imediatamente. Essa deve ser a força motriz de todos os técnicos na área da educação e saúde: Ajudar a desconstruir rótulos e chamar a atenção para as reais causas.

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