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Democratizar, Incluir e Autonomizar

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Democratizar incluir e autonomizarO relatório sobre os comportamentos em crianças com idade escolar (Health Behavior in School-aged Children), que se realiza de quatro em quatro anos e em que Portugal participa desde o ano lectivo 97/98, é uma importante ferramenta comparativa para se perceber a evolução dos comportamentos das nossas crianças e jovens em idade escolar (11, 13 e 15 anos).

É impossível dissociar alguns dos indicadores presentes no relatório daquilo que é a prestação do sistema de ensino. Até porque uma das questões centrais é o gosto que os alunos têm pela escola. Neste campo verificamos que em 1997/1998 ocupávamos a segunda posição no ranking da satisfação e em 2014/2015 estamos na 32ª posição entre 42 países e regiões que integram o estudo. Durante período que medeia entre o ano de 97 e 2015 recuámos consecutivamente, com excepção de 2009/2010 em que o país subiu da 22ª posição para a 21ª.

Portugal é, de acordo com o estudo, dos países onde existem menos jovens a afirmar que gostam muito da escola. Identificam o convívio com os amigos como muito positivo, mas as aulas aparecem no penúltimo lugar quando referem o que mais gostam. São consideradas aborrecidas e a matéria é vista como excessiva.

O sentimento positivo pela escola é algo que tem na sua base um conjunto de variáveis que os alunos necessitam de observar e que mudou progressivamente ao longo dos anos. Valorização pessoal e social, adequação, respeito, envolvência, desafio (mas não impossibilidade de alcançar), pertença, são algumas das coisas que alunos com sentimento positivo pela escola me relataram sentir, mas que aparentemente temos dificuldade em compatibilizar no sistema.

Considero que a educação em Portugal fez um percurso evolutivo muito positivo, mas chegou ao momento de parar, olhar à volta, avaliar o que nos rodeia (a população que está na escola, a sociedade que somos, o país em que Portugal se tornou) comparar com outros sistemas educativos, ver o que funciona e adaptar às nossas necessidades e exigências.

Olhar para trás com ar saudosista, afirmar que perdemos exigência (quando, de acordo com o estudo, os nossos alunos são dos que sentem maior pressão com a vida escolar) e aplicar os modelos educativos que utilizávamos há 40, 60 ou 100 anos, num Portugal ruralizado e pouco instruído, não são as respostas necessárias para a sociedade moderna e desenvolvida em que nos tornámos.

É natural que exista insatisfação. Desde logo pelos anos de recessão económica, que entre outros efeitos, tiveram o condão de colocar os jovens a questionar, de forma negativa, para que serve a escola. A visão motivadora de que pelos estudos ascenderiam socialmente e teriam uma melhor qualidade de vida tendencialmente desapareceu. Mas principalmente porque os jovens de hoje (Séc. XXI) são muito diferentes dos do Séc. XX. Tem uma diferença entre si muito maior do que a existente entre os jovens do Séc. XIX e do XX. O modelo de escola que apareceu com a revolução industrial, e que teimosamente resistimos a abandonar, tem de ser profundamente modificado.

É o tempo da comunicação. O conhecimento hoje está em todo o lado e qualquer aluno lhe pode aceder. Mesmo fora das salas, mesmo sem um professor. Um bebé de tenra idade, com acesso à tecnologia, começa a dizer palavras em português, mas também em inglês ou em qualquer outra língua com a qual se cruze e para tal não necessita de uma estrutura de escola formal para ir aprendendo várias línguas.

Necessitamos de alterar os fundamentos do nosso sistema escolar. Torná-lo mais democrático, inclusivo e autónomo.

Democrático, pois temos de dar voz a todos os elementos da comunidade educativa para verdadeiramente podermos perceber qual o caminho e decidir o que fazer em cada momento e perante cada desafio. Não basta importar uma democracia ateniense para a escola, onde alguns decidem e votam por todos. Cada cabeça tem a sua opinião seja director, assistente operacional, professor, aluno ou encarregado de educação e carece de legitimidade para a manifestar.

Inclusivo, não apenas na perspetiva das Necessidades Educativas Especiais, mas permitindo que todos se sintam bem no espaço que ocupam na escola. Quando o sentimento de pertença existe, quando a escola apoia e valoriza os seus elementos, o empenho cresce e os comportamentos positivos tendem a aumentar.

Autónomo, porque sem autonomia não será possível adaptar os objetivos do país, manifestados na espinha dorsal do sistema educativo – o Currículo, às especificidades de cada região, agrupamento, escola, turma e de cada aluno. Assumindo, naturalmente, os actores a responsabilidade pelos seus papéis e pelos resultados que as suas escolhas e estratégias de implementação dos objetivos traduzem.

Uma escola moderna é aquela que permite a multiplicidade de escolhas e a construção individual no espaço comum, compatibilizando este desígnio com um país moderno e desenvolvido. Orientando e direccionando os alunos no seu percurso e com vista à sua inclusão plena na sociedade, mas respeitando a sua vontade e o seu ritmo.

Consulte aqui o artigo:

Os adolescentes portugueses têm um problema com a escola. E tem piorado

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