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Deixem De Massacrar Os Professores Com Trabalhos Excessivos – Salvador de Sousa

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Durante a minha carreira, como professor, tive duas partes distintas:

A primeira foi maravilhosa com um bom ambiente nas escolas. Não havia, praticamente, trabalho burocrático, mas sim o essencial para se poder trabalhar, eficazmente, com os alunos. O ano letivo acabava com as reuniões de avaliação, reuniões com os encarregados de educação, matrículas e pouco mais. A preparação do novo ano letivo fazia-se, sobretudo, com reuniões de programação da parte letiva e não letiva, sem exageros, estando os professores motivados para se entregarem, com todo o empenho, ao processo de ensino/aprendizagem

Os pais/encarregados de educação eram, no geral, interessados, respeitadores e muito empenhados na vida escolar. Dificilmente, havia casos de agressões verbais e mesmo físicas a professores. Enfim, existia ordem, educação e respeito; os auxiliares de educação conservavam-se animados, alegres e sempre cuidadosos nas suas tarefas escolares respetivas, pois eram respeitados pelos discentes, não ouvindo palavrões, desobediências, nem qualquer tipo de ofensa; os professores estavam livres de grandes tarefas burocráticas, administrativas… apenas o essencial para se entregarem, com todo o seu ânimo, aos alunos. Ambientes saudáveis, de grande entrega, de bastante sucesso real, de grandes convívios nas escolas e fora delas. Quantas horas dávamos à escola, livremente, na preparação de atividades extracurriculares, sem stresses. Na altura, não se exagerava. Havia quatro atividades essenciais ao longo ano: Festa do Natal, procurando-se contextualizar a quadra respetiva (teatro, canções de natal, recitação de poesias, uma ou outra dança…); Carnaval com desfiles característicos, envolvendo o meio; Páscoa com variadas ações alusivas, não esquecendo, nas escolas em que lecionei, sobretudo no Norte, a Comunhão Pascal que quase 100% da comunidade educativa fazia questão de estar presente e, finalmente, a visita de estudo, no término do ano letivo, para todos, visitando locais aprazíveis do nosso país. 

Hoje, felizmente, ainda se conservam alguns desses bons costumes, mas estão a tornar-se, ao contrário do passado, minoritários com grande tendência de contágio que deve ser invertida para que o ambiente das escolas retome, na sua totalidade, o caminho da verdadeira formação de cidadãos.

Nos últimos anos, senti e sinto, a escola degradar-se a um ritmo assustador: professores cansados com imenso trabalho burocrático. Para que servem, por exemplo, estas provas de aferição para os alunos e professores se os resultados são conhecidos após todo o processo avaliativo? Os próprios alunos, sabendo que a prova não os avalia, fazem-na, com certeza, sem a verdadeira motivação, sendo os seus resultados, entendo eu, deturpados, mesmo que sejam apenas para avaliar os professores e, até, o próprio sistema! Cansam os docentes a corrigir essas provas com exigentes parâmetros, para quê?

Não há Ministério que produza tanta legislação como o da Educação. Estudos e mais estudos, cada Ministro, sua sentença. Implementam-se medidas, fazem-se formações, reuniões para, logo a seguir, estar tudo ultrapassado. Segundo a Fenprof, determinada escola de Braga fez, durante o ano, 56 reuniões por causa da escola inclusiva, acham que isto é normal? Qual o interesse da mudança constante das nomenclaturas? Agora, domínios, aprendizagens essenciais, estratégias de ensino orientadas para o perfil dos alunos, técnicas/instrumentos de avaliação, descritores do perfil dos alunos… para, no fundo, convergir tudo no mesmo. Só com uma diferença, teorias e mais teorias e cada vez mais indisciplina e desorientação da classe docente. O que passamos com o estudo dos objetivos gerais, específicos, comportamentais, interdisciplinaridade, área escola, área de projeto… ações e mais ações, resultado: apenas um enriquecimento vocabular, pois a essência é sempre a mesma com o prejuízo do cansaço dos professores, completamente exaustos com imensos relatórios, dossiês volumosos, tantas reuniões; trabalhos de casa… Ninguém imagina o trabalho de casa dos professores, com períodos totalmente dedicados à escola em desprimor da família.

Deixem de massacrar os professores com trabalhos desnecessários, deem-lhes condições de trabalho, sobretudo na implementação da disciplina nas escolas, criando legislação para que os nossos estabelecimentos escolares voltem às suas verdadeiras funções. Sigam o exemplo das escolas privadas, tão odiadas por determinada classe política, que nos continuam a dar verdadeiros exemplos de sucesso na formação dos seus alunos.

Salvador de Sousa, in Diário do Minho, 25 de julho de 2019

5 COMMENTS

  1. “O fraco rei faz fraca a forte gente”
    Fracas narrativas fazem fraca a história da gente … 40 anos de serviço, serviço intenso, sempre intenso, por gosto à arte de ser professor, fenómeno paulatinamente substituível pelos próprios umbigos.
    Quem não se lembra dos parâmetros de avaliação descritivos?
    Quem não se lembra das planificações pelas competências essenciais e da procura para a resposta do que era uma competência?
    Quem não se lembra dos mil descritores para a avaliação docente?
    Quem não se lembra que eram sempre os mesmos, paradoxalmente os mais contestatórios, que se envolviam em projetos e ficavam até altas horas a trabalhar nos projetos?
    Quem não se lembra que de Julho a Setembro era um pequeno grupo que tratava de horários, constituição de turmas, propostas de projetos educativos, criação de currículos, etc. ?
    Existem duas palavras chave no léxico dos professores, REUNIÃO e IMPLEMENTAÇÃO, que não é de hoje, nem de ontem, sempre foi assim.
    Não me venham pois, à maneira revisionista, dar outra estória à história do sistema educativo. São os professores, quer por via da idiossincrasias da direção quer por justificação apressada de trabalho, que FORMALIZAM tudo o que é possível ser INFORMAL. Esta coisa do “nós e eles”, esta coisa “dos maus e dos bons”, do “de antes e do depois” é praia para os populistas, mas, não para os que durante a sua vida estiveram na história do progresso do sistema educativo em portugal. E que grande salto e que grande sistema!

  2. Quem discorda? Bem sabemos: apenas os maledicentes continuamente alimentados por notícias falaciosas.

  3. Tudo o que o colega, Carlos Gomes, referiu é verdade: sempre se trabalhou e trabalha nas escolas com professores que pretendem dar o seu melhor. Sou do tempo dos parâmetros, das equipas dos horários (geralmente três: um com o mapa dos alunos/turmas; outro com o mapa dos professores e o restante com o mapa das salas)… e tudo se fazia sem grandes problemas, porque os professores não tinham o trabalho burocrático que têm hoje, havia disciplina, o estatuto do docente era respeitado e por aí adiante.
    Não se pretende dizer que os professores, no meu tempo (1979-2012), eram melhores ou piores, mas sim acentuar o excesso de trabalho que, em muitos casos, os professores fazem, hoje, sem qualquer proveito para os alunos.
    Quantas reuniões se fazem, dependendo dos diretores das escolas, no final do ano para preparar o seguinte e no início do seguinte outras reuniões para o mesmo efeito, batendo-se sempre na mesma tecla? Quantos relatórios justificativos se fazem hoje? Muitos alunos, hoje, têm tudo a seu favor: brincam, maltratam os professores, não estudam, desobedecem a tudo e a todos e, no final, transitam de ano sem grandes atropelos, enquanto que os professores têm perdido a sua autoridade com tanta falta de apoio do poder político…
    Não se trata de comparar períodos, pois a grande maioria da classe docente foi, é e será sempre responsável, mas deixem de a massacrar com trabalhos que, muitas vezes, em nada beneficiam os alunos. Distribuir, por exemplo, horários com professores a lecionarem vários níveis, com cargos pedagógicos ou quaisquer outros e, ainda por cima, aguentarem a indisciplina e a ausência de regras dos alunos, é muito complicado. Fiquemos por aqui.

    • Precisamos de narrar estes factos que referi para que se corrijam e se abatam os exageros que cansam e preocupam os professores.
      Professores que pedem a aposentação antecipada, perdendo milhares de euros, professores afetados psicologicamente que se encontram de baixa, professores que morrem na sala de aula ou em casa a trabalhar para o sistema e por aí adiante…!
      Não são estas narrativas ou outras semelhantes que chamam à atenção dos “Reis da educação” deste país para que apoiem mais as suas gentes, não as deixando à deriva? Não são soldados que falham, mas sim o seu comando!!!!!!

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