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No início de mais um ano de cada vez mais prolífera actividade no ComRegras, o Alexandre entende continuar a publicar os meus textos nas tardes sossegadas de Domingo. Tenho matutado bastante na pertinência das minhas historietas, já que, mesmo sendo professora, nem sempre os meus textos se encaixam na linha editorial de um blog de educação. Para dizer a verdade, às vezes, tudo o que eu quero, ao fim de uma semana de trabalho, é estar o mais longe possível do universo escolar.

indisciplinaMas este ano decidi que vou fazer diferente. Pensei em escolher um tema recorrente da vida escolar e apresentá-lo, semana após semana, sob diferentes perspectivas. Afinal, o que eu gosto mesmo é de escrever sobre pessoas, pegar numa qualquer situação do quotidiano e criar uma história sobre gente com quem nos cruzamos diariamente sem tantas vezes nos apercebermos de como será a sua história. E escola é, afinal, o melhor observatório que podemos encontrar, a grande central de comboios da vida, onde todos os percursos se cruzam.

Só faltava, então, escolher o tema. Por estes dias, em que mais um ano lectivo começa a desenrolar-se, chegam-nos da comunicação social relatórios, estudos e artigos que sustentam que os professores estão envelhecidos, exaustos, desiludidos e desmotivados. Só novidades, portanto.

Há tempos, por ocasião de um encontro de profissionais do ensino e da saúde escolar, os técnicos de educação foram desafiados por um dos palestrantes a identificar o factor que mais constrangia e prejudicava a qualidade do seu trabalho nas escolas.

Ó diabo, pensei eu no primeiro instante, da forma como a profissão docente tem vindo a ser vilipendiada e terraplanada de todas as maneiras e feitios nos últimos anos, vou mas é precisar de uma folha maior. Mas antes que todos começássemos a desfiar o rol das lamentações, a trajectória foi logo afinada: havia que apontar uma – e apenas uma – variável intrínseca à rotina escolar que mais nos incomodasse nas tarefas do dia-a-dia, aquela variável que nos impedia de exercer as nossas funções com o rigor e a competência com que gostaríamos e que, por conseguinte, mais contribuía para a nossa frustração e desânimo.

Não precisei de pensar muito, que a minha lista tem dois permanentes e categóricos primeiros lugares exe quo, no que à rotina escolar diz respeito: a má burocracia e a indisciplina.

A má burocracia (passe a eventual redundância) é facilmente identificável: é a cultura suspeitosa do papel, das grelhas, dos relatórios, das evidências, da duplicação irracional e desconfiada de informação, do desperdício criminoso de papel, por conta, muitas vezes, de uma necessidade bacoca e inútil de validação da autoridade. Todos os docentes, por muito poucos anos de serviço que tenham, conhecem este imprestável e pernicioso sorvedouro de tempo e de energia, que muito melhor poderíamos utilizar ao serviço das aprendizagens. Afinal de contas, não há muito a reflectir sobre a má burocracia, havia era de se acabar com ela.

Já se está mesmo a ver que acabei por eleger a indisciplina. A indisciplina está longe de ser uma variável linear. A palavra indisciplina encerra em si um imenso universo de conceitos, numa amplitude de circunstâncias que vai da mais infantil travessura a cenários de efectiva e concreta delinquência. A indisciplina não é singular e não devia ser usada no singular. É um jogo social onde se cruzam muitas gradações e perspectivas, onde a crueza dos actos se mistura com a tonalidade subjectiva dos olhos que a testemunham e interpretam – e que os professores conhecem como ninguém. Falaremos então de indisciplina. Bom ano para todos.

MC

Autora do blogue Estendal

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