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De Manuais Às Costas: Até Quando É Compatível Com A Saúde?

Também na hora da compra da mochila, mais do que a marca é importante olhar à segurança da mochila como se de uma cadeira de transporte automóvel se tratasse

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Inicia-se o ano letivo e as costas dos pequenos jovens já começam a temer pelo que aí vem. Se elas falassem o que diriam do peso que lhes é colocado diariamente? Entre manuais, cadernos e cadernos de fichas (excluindo lanche, uma garrafa de água e estojo) as mochilas dos nossos pequenos pesam muito mais do que os 10% (do seu peso) preconizados e nem sempre distribuídas e adaptadas da melhor forma. Até quando é possível o organismo humano numa fase de crescimento e desenvolvimento aguentar tais trabalhos forçados? (desculpem, mas é a única coisa que me vem à cabeça ao vê-los carregar mochilas impiedosas às costas, até poderiam carregar pedras que seria igual).

Ao falarmos do transporte diário deste peso falamos de tudo o que é exigido e eventualmente necessário para um dia de aulas. Da parte dos docentes será difícil dispensarem o manual, caderno e livro de fichas correspondentes à sua disciplina – compreensível. Mas quando os jovens ingressam no quinto ano de escolaridade do segundo ciclo, as rodinhas que serviam de apoio ao transporte dos seus livros tornam-se demasiado evidentes aos olhos dos mais velhos, pelo que transportar os livros desta forma será no mínimo embaraçoso… Mas jamais deveria ser! Educação para a saúde é importante neste campo para pais, professores, crianças, jovens, profissionais de saúde e sociedade no geral. As crianças devem continuar a transportar os seus livros sem que isto interfira na sua saúde e no decorrer sensato de cada disciplina.

Ao longo dos diversos estádios de desenvolvimento, o peso das mochilas pode interferir no crescimento, equilíbrio, postura e coordenação motoras. Quando entramos na fase do quinto ano de escolaridade as nossas crianças estarão com cerca de 10 anos de idade. Ainda não estarão na maioria dos casos na fase de crescimento rápido, mas com o progredir dos dias a criança começa a adotar posturas incorretas, por exemplo toda inclinada para a frente para suportar o peso e equilibrar-se melhor, porque se caminhar com uma postura correta corre o risco de cair para trás, no caso dos mais levezinhos.

Associado a tudo isto temos a sedentariedade característica destes tempos não só pelo tempo de aulas (ou até a nível profissional) sentados, a utilização de consolas ou mesmo ver TV ou vídeos na internet. Tudo estimula à obesidade, ou seja, o único exercício que a criança ou jovem faz (muitas vezes) será de manuais às costas de casa para a escola e da escola para casa!

Para além de tudo isto há fatores a ter em conta no que diz respeito ao transporte da mochila: a forma como se transporta (já lá vai o tempo em que era cool transportar numa só alça); a largura das alças da mochila; se as alças têm o mesmo tamanho – caso sejam assimétricas a criança terá sempre tendência de compensar a postura. Se nada disto estiver correto a criança vai adotar posições de compensação ao centro de gravidade. Se a criança é portadora de situações como escoliose o transporte da mochila deverá ser adequado à circunstância, situação já recorrente nas nossas escolas quando solicitado.

Dos estudos realizados nesta área, estes consideram que a maioria das crianças transporta mais do que é considerado para o seu peso. Sendo assim o número de crianças com cifose ou a lordose lombar aumenta.

Desta forma, quer pais quer professores devem estar atentos para o que é supérfluo na mochila das crianças e jovens. Verificar a mochila diariamente leva a que se reduza o transporte de material desnecessário. Isto no que diz respeito aos pais que podem ajudar na distribuição do peso para que seja mais fácil para o dia da criança e jovem (isto funciona como os saltos altos: nunca dão para andar grandes distâncias, pelo que aqui temos que pensar que não andará uma grande distância física, mas sim temporal). No que diz respeito ao professor poderá ao programar as suas aulas antecipar-se e informar os alunos do que é necessário trazer para a aula seguinte, poupando assim o aluno de excedentes na mochila que apenas contribuirão para maior cansaço e posturas inadequadas numa fase de crescimento e desenvolvimento psicomotor extremamente importantes. Também na hora da compra da mochila, mais do que a marca é importante olhar à segurança da mochila como se de uma cadeira de transporte automóvel se tratasse: se está adequada ao tamanho e peso da criança, por exemplo.

Falar é fácil… o que é facto é que todos diariamente nos debatemos com o peso imensurável da mochila do nosso educando. Muitas vezes somos nós que transportamos até à entrada da escola (quando eles ainda permitem) para os poupar de uns segundos daquele suplicio. Bom talvez para nós mais velhos seja mais difícil de aguentar tanto tempo com um peso daqueles, pelas típicas dores que a idade vai trazendo, mas os nossos pequenos estão a crescer e podem até aguentar o peso, mas no futuro veremos o resultado.

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

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