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Dar aulas faz mal à saúde?

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Só quem lá anda é que sabe… Artigo altamente recomendado!


Muito se fala hoje de stress, de stress ocupacional e de burnout (reconhecido pela Organização Mundial do Trabalho como uma síndrome que afeta várias profissões) mas nem toda a opinião pública estará consciente do facto de que esta é uma doença ocupacional com sintomas físicos, psíquicos e comportamentais que tem nos professores o seu principal alvo. Muito se fala também da elevada percentagem de atestados médicos passados aos profissionais do ensino mas poucos tentarão ou conseguirão compreender as razões pelas quais é esta uma das classes profissionais que mais frequentes visitas faz ao psiquiatra.

Em três décadas de ensino, ganhei algumas (poucas) certezas. Uma delas é a de que é completamente impossível ensinar se não estivermos na posse de um equilíbrio emocional total. É terrível quando, perante situações sistemáticas de indisciplina, a ansiedade se instala em nós, o choro ocorre amiúde, a insónia se repete e o pânico de ter de voltar a enfrentar uma determinada turma se transforma na nossa realidade quotidiana. Já vi muitos colegas de profissão em situações como a que vos descrevi cuja única escapatória foi o atestado médico. A fobia escolar é, a meu ver, o pior que nos pode acontecer. Confesso mesmo que, ao longo da minha carreira, já experienciei esta fobia escolar relativamente a uma turma. A simples ideia de ter de enfrentar aqueles alunos insubordinados e insolentes provocava-me uma tamanha sensação de angústia que, pela primeira vez, coloquei a hipótese de abandonar o ensino.

Já o tenho dito várias vezes e repito: é impossível sofrer de depressão e ser professor. A profissão docente – e falo de ser professor à séria, com vocação e empenho, profissionalismo, competência pedagógica e científica, não daqueles meros vendedores de aulas que, por necessidade e como última alternativa, enveredaram pela carreira de professor – exige uma leveza de espírito, elevadas cargas e recargas diárias de energia, agilidade mental e física, capacidade rápida de resolução de problemas e de conflitos de vária ordem, adaptação a situações imprevistas, capacidade de resposta fácil e rápida dentro da sala, uma listagem infindável de competências incompatíveis com um professor cuja caixa de ressonância tenha avariado. E estar deprimido é isso mesmo.

SIM, sei do que falo porque também eu já estive à beira deste descalabro e lembro-me de que, por esses dias, tanto se me dava que houvesse indisciplina ou que os professores fizessem greve ou que fechassem a escola ou que o mundo acabasse. Basicamente, tudo o que vinha na minha direção e que à escola dizia respeito, fazia ricochete e não entrava. Eu encontrava-me à beira de mim própria e nesses casos, o que menos nos importa é exatamente aquilo que contribui para chegarmos a esse limite. Felizmente, consegui travar a situação a tempo, antes de atingir o precipício.

Mas nem sempre é assim. Todos conhecerão, nas suas escolas, um ou mais casos de colegas que, em situações de desequilíbrio emocional, insistem em manter-se ao serviço e cumprir com as suas obrigações profissionais, convictos de que o que estão a fazer é o melhor para si e para a escola. Alguns não querem faltar para não prejudicar os alunos, outros não têm noção do estado em que se encontram, outros ainda não saberiam mesmo o que fazer se tivessem de ficar em casa. E assim, deparamo-nos por essas escolas do país, com colegas que arrastam pelos corredores a sua precariedade gritante. E nós, os que ainda possuímos alguma sanidade, nada podemos fazer.

Não preciso de ser psiquiatra para saber que a minha colega sofre de depressão ou outro distúrbio do foro psiquiátrico e que precisa de ajuda especializada. O pior, porém, é que os alunos também sabem e não têm, perante ela, a mesma condescendência que nós tempos. Diria mais: não têm qualquer tipo de condescendência. Pelo contrário, as situações de humilhação em que os alunos colocam um professor nestas condições dentro da sala de aula são gritantes, obrigando muitas vezes os colegas da sala ao lado a intervir. E nós acudimos-lhe mas pouco mais podemos fazer. O pior de tudo é que nem a escola a pode ajudar… A escola pública parece não possuir um enquadramento legal que permita a um diretor retirar tempo letivo a um docente com estas características, atribuindo-lhe outro tipo de tarefas, menos humilhantes para a sua condição e nas quais se sentiria menos exposto.

E qualquer coisa pode acontecer numa sala de aula, sabemo-lo. Ter trinta alunos perante nós, se problemáticos e indisciplinados, exige uma enorme resistência e sagacidade que um professor, cuja caixa de ressonância avariou, deixou de possuir. Carl Jung escreveu: a depressão é como uma mulher vestida de preto. Se ela aparecer, não a afaste. Convide-a para entrar, ofereça-lhe um assento, trate-a como uma convidada e ouça o que ela tem a dizer. Mas primeiro, digo eu, temos de afastar de nós esses outros convidados que se encontram na sala, geralmente em número de trinta e a que chamamos alunos.

Não há como escapar a este flagelo. Todos os dias sou confrontada com situações angustiantes de colegas em sofrimento e não consigo, por mais que tente, ficar indiferente. É mesmo impossível ignorar a colega que literalmente, num passo arrastado, caminha como um autómato para a sala de aula onde, numa luta desigual, terá de enfrentar um grupo cruel de trinta adversários que, à mínima oportunidade, transformarão a aula numa batalha campal, derramando pelo chão os últimos restos de uma dignidade há muito perdida.

Carla Machado

In Visão, 23-5-2018

2 COMMENTS

  1. Proponho escola fofinha e o Eduardo Sá… os meninos não estão é motivados e, a escola, é arcaica… Não são os impúberes indisciplinados… mal educados… sem regras… sem limites… criados como prima-donas… NÂO! O professor é que não sabe lidar com criatividade a gestão da da turma… Chamem, também, a Ariana Cosme e mostrem um dos maravilhosos vídeos, ou inovadores power-points, da Flexibilidade, que eles ficam como anjos…

  2. Vejo (sinto) que há razão no artigo da colega, mas receio e duvido da autoridade de um professor para apontar o colega como deprimido e de, aqui, colocar a hipótese de ter legitimidade para lhe retirar turmas. Essa desvalorização do outro, considerando-o incapaz para exercer a sua profissão pode até ser um mecanismo de projeção… um professor não tem autoridade para julgar e avaliar outro professor _ é professor, não é juíz nem psiquiatra.

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