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Da Violência e da Estagnação

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Depois de muito “zapping” entre os canais noticiosos, conclui-se que os temas são recorrentes e cada vez mais, concorrentes na forma de abordagem. Atentados terroristas, bullying, agressões físicas entre jovens, economia e recapitalizações, futebol e debate político.Todos estes temas, banalizados, comuns, incapazes já de causar grande estranheza ou aflição aos habituais telespectadores. Não há ser natural sem capacidade adaptativa e de defesa, perante ameaças à sobrevivência do seu corpo. No ser humano, entenda-se corpo como a parte física e mental, estreitamente interdependentes.

Quem é que conseguiria ver, há ainda poucos anos, pessoas partidas, esquartejadas, empilhadas por partes, queimadas, ensanguentadas…?? Quem não ficaria sobressaltado ao presenciar agressões a alguém caído no chão, desmaiado, deficiente, incapaz de se defender?? Quem assistiria passivamente a naufrágios e afogamentos de famílias, obrigadas a fugir das suas casas, do seu país, dos cenários de guerra também eles apresentados diariamente??

Pois hoje, isso é comum. Isso é espectáculo: nos televisores dos cafés, nas capas de jornais ou revistas, nos filmes, na internet. Entram em nossas casas e olhamos indiferentes. Não vemos, para não sentir. Tão só, olhamos.

E os nossos filhos? Como os protegemos desde que nascem?

Não podemos isolá-los e logo nos programas de animação, de que tanto gostam, a violência física e psicológica está presente. Acaso temos tempo de sentar com eles e de lhes ir explicando que são situações imaginárias, com personagens fictícias, desenhos que nunca sofrem, nem morrem? Não. Não temos. E quando brincam na sala e assistem aos acontecimentos com pessoas, crianças como eles, vão interiorizando as situações violentas como normais acontecimentos diários, notícias como quaisquer outras. Aliás, não me recordo de ver noticiados acontecimentos felizes!

Quando “gozam” com os colegas, fazem-no de forma violenta; agridem, não com uma bofetada (nem sabem o que é, porque os pais modernos não podem tocar nos filhos- é violência), mas com murros, pontapés, atingindo a cabeça ou o estômago, acompanhados dos piores palavrões que conhecem, como vêem nos meios de comunicação.

E nas escolas? O que se faz para explicar, dissuadir a agressão, mostrar que violência magoa, fere, pode matar? Não há tempo. O currículo, com as suas vertentes disciplinares previstas nas matrizes, é “muito mais importante”. Diz-se. Retira-se dele a Formação Pessoal e Social, deixando ao sabor das vontades de alguns, a educação para a cidadania, que aqui acontece, mas acolá, já não. É a autonomia.

Mas, e os políticos, aqueles que fazem as leis e que discutem o estado do país, que promovem a mudança, que têm a missão de preparar o futuro? Os políticos discutem. E muito. Trocam ideias, sim:

“- A educação (a saúde, a economia…) está numa situação calamitosa. É preciso intervir urgentemente, criando condições para a sua melhoria- enfatiza a oposição;

– É preciso muita lata! Então, os senhores que destruíram a educação (a saúde, a economia…) durante anos, vêm agora criticar a nossa atuação!?! Já esqueceram que degradaram, que descuidaram… Nós estamos a fazer o nosso melhor, perante o que herdámos de vossas excelências…- desculpa-se quem governa e quem o apoia.”

É assim. Sobre todo o quotidiano, os problemas dos cidadãos e dos seus descendentes, fazem-se estudos, projetos e planos, de conclusões pouco aplicáveis à realidade. Muda-se e volta-se a mudar, mas é a estagnação que sobrevive.

 

Professora do 1.º Ciclo, Fátima Ventura Brás

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